sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Carta a um amigo petista

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Caro amigo, li sua missiva com alegria e tristeza. Alegre por vê-lo ainda crente e sempre disposto a lutar por um mundo justo. Triste porque tenho a impressão que o seu combate não tem muito fôlego, não vai muito longe.

Tenho o sentimento de que você defende uma proposta do passado, que não tem mais o mesmo vigor de antes, nem a capacidade de mudança que você imagina. Você defende um partido que perdeu sua hora. Não morreu, nem morrerá. Terá sua importância no cenário nacional, mas se transformou em partido convencional, sem utopia e sem capacidade de erguer uma bandeira que atraia a juventude e nos traga esperança. Seus líderes e sua base social mudam, caminham para a trajetória de conquistar o poder para fazer benesses aos seus eleitores, e, sobretudo, servir aos seus membros, mas não para mudar uma Nação.

Se é que de fato este desejo e esta possibilidade existiram um dia, além de nossa imaginação. Nós que nos conhecemos lutando contra a ditadura e enfrentando o frio do exílio europeu e do frio ainda mais árduo, da saudade. No meu caso conheci também a África, para onde me dirigi com a esperança de criar um novo socialismo.

Minhas considerações não têm como alvo suas ideias e menos ainda seus ideais, que respeito muito. Elas abordam questões que você suscita, mas referem-se ao ambiente que vivemos atualmente.

Tento compreender o que se passa, mas me incomodam as avaliações circunstanciais. O que chamo de análises de conveniência, pois elas não me ajudam a compreender o que se passa.

Dou alguns poucos exemplos.

1.Quando o Nordeste, nos anos 1980, estava nas mãos do antigo PFL, era porque os nordestinos eram atrasados, diziam os petistas, em particular sua vertente hegemônica, no caso, os paulistas. Quando o Nordeste na primeira década deste século fechou com Lula, transformou-se na vanguarda.

2. Quando os votos mais pobres, denominados de descamisados, elegeram Collor era porque eram ignorantes. Agora que votam em Lula, são clarividentes.

3. Quando a classe média estava com o PT, nos anos de 1980 a 2010, era o segmento intelectual e avançado do País. Agora que deu as costas para o PT viraram elite conservadora e racista.

4. A imprensa que nós temos é a mesma da fase áurea do Lula, quando sua popularidade chegava aos 80%, e ninguém reclamava. Agora a mídia virou instrumento da elite reacionário e dos agentes do imperialismo. Reclamam que a imprensa não diz o que Dilma está fazendo de bom. Mas imprensa nunca deu notícia do avião que chegou bem, apenas o avião que caiu. Porque as pessoas se interessam é por este e não por aquele.

Em resumo, a análise de quem está conosco é bom e quem está contra é ruim é pobre e não permite compreender o que se passa. Ajuda aos que querem se convencer que estão certos e os outros errados, são argumentos, no mau sentido, ideológico porque aludem à realidade, iludindo-a.

Veja a questão da intolerância que se manifesta ultimamente em vários pequenos incidentes amargos, condenáveis. Não há dúvida que se deve repudiar. São execráveis.

Você me fala de um ódio, de uma intolerância, antes desconhecida, e agora manifesta com força nas redes sociais e vez ou outra em nossos restaurantes ou aeroportos. Quais suas raízes?

Tem um componente de classe? É provável. Mas, não podemos esquecer que no governo Lula quem mais ganhou foram os bancos e não os pobres, que ganharam, claro, mas menos. E os banqueiros e grandes empresários industriais pressionaram o PT em 2014 para que Lula fosse o candidato e não Dilma. Portanto, o capital também se beneficiou e apoiou Lula por um bom tempo, e alguns ainda o fazem hoje. Lula conseguiu, e ainda consegue, colocar junto capital e trabalho. E apenas no imaginário de alguns de nossos amigos persiste a ideia de que o capital está contra o governo do PT e o proletariado a seu favor.

Há setores empresariais e de classe média que têm e sempre tiveram ódio do PT, e de qualquer força política que se coloque efetivamente contra a desigualdade social, porque são empedernidos na defesa de seus privilégios. E não aceitam viver em uma República. São monarquistas enrustidos.

Contudo, não podemos desconhecer que o PT tem uma história de intolerância. Expulsou três de seus deputados quando votaram em Tancredo. Pediu o impeachment de todos os presidentes desde 1989, incluindo Itamar. Expulsou Erundina porque ingressou neste governo. Interveio nas executivas estaduais toda vez que não estavam de acordo com a corrente hegemônica do partido, desde o Rio de Janeiro de Wladimir Palmeiras, até o Maranhão, humilhando o bravo resistente à ditadura, Manoel da Conceição, pois obrigou o PT a ser base de apoio da família Sarney. Não teve coragem de intervir em MG, quando alguns de seus quadros aliou-se com o PSDB na prefeitura de Belo Horizonte. Como nunca o fez no RS. Por uma razão simples, eram os dois polos que disputavam a hegemonia com os paulistas, e, portanto, tinham força. Os mais fracos, inclusive meu Pernambuco, não teve a mesma sorte. E estou citando apenas alguns exemplos.

Caro amigo, não podemos esquecer que foi o PT quem inventou o slogan: nós e eles.

O PT conviveu sempre mal com a ideia e o ideário democrático. Em grande parte, porque em sua trajetória a hegemonia foi ganha pela vertente dos sindicalistas, com apoio de alguns quadros da esquerda que lutaram contra a ditadura. As comunidades de base, e militantes mais democráticos, foram deixando o partido. Ora, o que menos sindicalistas conhecem e gostam é democracia: conheço bem o ambiente porque já fui um deles. Já vi professor sendo literalmente chutado para não subir no palanque porque era de corrente contrária. Os sindicatos brasileiros lembram os trade unionistas criticados por Lenine na passagem do século XIX ao XX: sabem defender seus interesses corporativos, mas são incapazes de lutar pelas mudanças estruturais. No governo Cristovam no DF, o atual senador concebeu um plano para universalizar as creches no DF. Os recursos proveriam de um fundo composto de três partes: do governo federal, com Ruth Cardoso, do governo do Cristovam no DF e dos servidores distritais que abririam mão da ajuda que recebem, prevista em lei. As crianças dos não servidores não puderam ter creches porque o sindicato travou as negociações. De um instrumento de inclusão social os sindicatos, em muitas situações, funcionam como instrumento de apartação.

Mas, não são apenas os sindicalistas que têm dificuldades em conviver com a ideia de democracia, sempre olhada como uma herança burguesa a ser suportada. Esta ideia era reinante e predominante nas esquerdas brasileiras dos anos 1960/1970 da qual participamos. Queríamos substituir a ditadura militar por outra ditadura, a do proletariado.

Talvez um componente não desprezível nesta questão da intolerância resida em um sentimento de traição que uma parte da classe média, em geral escolarizada, sente em relação ao PT, e a Dilma em particular. Ela que ingressou no partido em 2001 e dez anos depois era eleita para a Presidência por este mesmo partido. Classe média que apoiou o PT desde os anos 1980/1990. Lembremo-nos que o PT nasceu como o partido da ética e da mudança e se tornou um partido igual aos outros. Lula mesmo já disse várias vezes: um partido convencional. Mesmo o combate a pobreza que era um trunfo dos governos petistas – e meritório – está em vias de ser destruído com a recessão por três anos (2014/2015 e 2016), e o desemprego que ameaça chegar a casa dos dois milhões.

O PT atual traiu a ética e as propostas de mudanças das suas origens. E teve muitas chances de fazer estas mudanças, em particular a reforma política, que poderia reduzir drasticamente o custo das eleições e retirar as empresas deste meio, e não o fizeram.

Foram cometidos muitos erros. Os mais notórios estão presentes na condução desastrosa da economia no primeiro mandato de Dilma que nos levou a atual situação, com a invenção da “nova matriz econômica”. Uma piada…. de mau gosto. Os resultados estão aí. E não adianta dizer que a culpa é da economia mundial que se retraiu, pois enquanto entramos em recessão econômica outros países tem crescimento de 3 a 5% ao ano. Sem falar da China, com 7%. Mas, ela sempre ocupou um lugar a parte nesta matéria.

E no primeiro ano de governo, os erros continuaram, um atrás do outro. Começando por chamar Levy – independentemente de sua competência ou da justeza de suas posições ou não – que Dilma falava, seria a atitude do Aécio e da Marina: entregar a economia a um banqueiro. Continuando na desastrosa eleição do presidente da Câmara dos Deputados, fruto da arrogância de sua entourage. E, muitos outros, como o de propor para 2016 um orçamento deficitário. Ridículo. O resultado foi a queda do prestígio brasileiro no mundo das finanças internacionais.

Todos esses erros nos levaram a esta situação de recessão perto de 4%, inflação superior a 10%, déficit governamental de mais de 120 bilhões e desempregados acima de um milhão.

Mas, você me fala de defender o governo Dilma e o PT para barrar o crescimento da direita. Foi na base dos erros do primeiro mandato que a direita começou a se reorganizar e crescer. E ao invés de enfrentá-los corretamente, reconhecendo os erros e adotando uma política consistente, agravamos o quadro com uma campanha eleitoral em que a Dilma ganhou, mas não levou. Foi uma campanha imunda, para um partido que se pretendia o paladino da ética.

O PT, e com ele a esquerda, definha e a direita conservadora tende a assumir o poder, cedo ou tarde. Um retrocesso. Mas o que fazer? Defender o PT? Se houvesse possibilidade de mudança seria o primeiro a me inscrever na defesa. Mas com esta arrogância, com a política adotada, é indefensável.

Creio que estamos em um beco sem saída. Adoraria que o PT fizesse sua autocrítica, mudasse, e o governo da Dilma deslanchasse. Todos apoiaríamos. Seria ótimo, mas não tenho esperança.

Vivenciamos no momento atual um beco sem saída, como bem definiu Eliane Brum: “Duas coisas são hoje indefensáveis neste País, o impeachment e o governo Dilma”.

Caro amigo, se encontrar a luz no fim do túnel, por favor, nos fale. De toda forma, lhe falo que não estou pessimista, nem rancoroso. Por mil razões. Duas em particular. O mundo político não se divide entre esquerda petista e direita reacionária. Outras forças políticas existem e estão se movimentando para ocupar o vazio político deixado pelo PT. Em segundo, acho que a esquerda – se vai continuar a ser um termo de referência no futuro não sei – tem e deve se redefinir, rever seu ideário, perder seus preconceitos. Reler as ideias liberais e socialistas, refletir sobre as derrotas do socialismo e suas razões, repensar o papel do Estado, valorizar a autonomia dos indivíduos.

Finalmente, no médio e longo prazos tenho a esperança que conseguiremos vencer a maré e recriar uma força política tolerante, visceralmente democrática, comprometida com a sustentabilidade, sem arrogância, e consistente; acolhedora e sem pretensões de hegemonia forte e autoritária. E, sobretudo, aberta ao entendimento das mudanças que o mundo moderno conhece com uma velocidade atroz. Creio que seremos capazes de jogar as ideias velhas e sem sentido, os discursos sem respaldo empírico, na lata do lixo, e renovar nossa compreensão do mundo e nosso ideário. Mas é difícil e exige coragem, pois muitos, inclusive muitos amigos, ficarão contra, e me execrarão. Espero que você não seja um desses. E continuemos o debate. Se formos democráticos, ambos teremos mudado depois de um tempo. E, provavelmente, para melhor. Com uma compreensão mais fina do que se passa ao nosso redor.

Feliz 2016.

Elimar Pinheiro do Nascimento


Elimar Nascimento é Sociólogo, professor da UnB.
Fonte: http://revistasera.info/carta-a-um-amigo-petista-elimar-pinheiro-do-nascimento/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A defesa do Palácio Guanabara contra os comunistas em 1964.

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O FRONT DO GUANABARA – Por Sérgio Pinto Monteiro*


A revolução de 31 de março de 1964 tem sido objeto das atenções de inúmeros historiadores. Suas causas, motivações, desdobramentos, consequências, erros e acertos, são bem conhecidos dos analistas, principalmente os mais isentos, que buscam as verdades daquele período num emaranhado de informações, quase sempre sob forte influência de componentes ideológicos. A chamada esquerda brasileira, derrotada no passado e hoje no poder, mantém a sua estratégia de reescrever a história ao sabor de interesses políticos e eleitoreiros. Cabe-nos, como verdadeiros democratas, repetir à exaustão os fatos históricos que há 48 anos evitaram que o nosso país fosse lançado numa aventura comuno-sindicalista, incompatível com os valores e princípios que forjaram a nacionalidade.

Texto completo, fotos e audio do Lacerda capturado por radio amador de Minas Gerais.

Um dos episódios daquele contexto que merece destaque é o da defesa do Palácio Guanabara - sede do governo estadual - nas quarenta e oito horas que redundaram no afastamento e fuga do Presidente da República.

Naqueles dias conturbados do início de 1964, o recém criado Estado da Guanabara era governado por Carlos Frederico Werneck de Lacerda, opositor ferrenho do governo do Presidente João Belchior Marques Goulart. Orador inflamado, grande administrador, Lacerda era um dos mais importantes líderes da resistência democrática brasileira contra o avanço do totalitarismo de esquerda que ameaçava levar o nosso país para bloco soviético. O relato que se segue é uma tentativa de resumir a história da defesa do Palácio Guanabara contra possíveis ataques desesperados de um governo agonizante. As fontes utilizadas são depoimentos, relatos, entrevistas, documentos e noticiário da imprensa. Ao mesmo tempo, como partícipe do dispositivo militar montado para rechaçar um eventual - mas esperado - ataque à sede do governo estadual, procurei descrever o que a minha memória reteve, tanto tempo já decorrido. O objetivo maior deste texto é a preservação da história de um importante episódio daquele dias, onde se misturam emoções, patriotismo, desprendimento, coragem, solidariedade, lealdade e companheirismo.




O plano de defesa do Palácio Guanabara começou a se delinear no segundo semestre de 1963. O cenário político de então já mostrava, claramente, a disposição do governo federal em retaliar o Estado da Guanabara por sua oposição radical ao sistema dominante. O governador Lacerda, ao lado de importantes lideranças civis e militares, defendia, ostensivamente, a queda do presidente João Goulart. Odiado pela esquerda brasileira, principalmente pelos comunistas, Lacerda - que na sua juventude renegara o marxismo-leninismo - sabia dos riscos a que o seu governo estava exposto numa situação de confronto com o governo de Jango, especialmente se houvesse o envolvimento das Forças Armadas. Valendo-se da antiga amizade desenvolvida com um grupo de Oficiais da Força Aérea Brasileira quando do episódio do atentado que, em 1954, vitimou o Major Aviador Rubens Florentino Vaz, no qual ele próprio foi também atingido, o governador Lacerda nomeou para Secretário de Segurança do Estado o Coronel Aviador Gustavo Eugênio de Oliveira Borges, e incumbiu-o de elaborar um plano de segurança e defesa para a sede do governo estadual, no Palácio Guanabara.




No documento foram priorizados investimentos em três setores dos organismos policiais do Estado: comunicações (em especial via rádio), transportes (inclusive viaturas do tipo “choque”) e armamento (especialmente metralhadoras). Como resultante do aperfeiçoamento nas comunicações, as “patrulhinhas” da Polícia Militar tiveram ação relevante no acompanhamento da movimentação das forças hostis nos dias 30/31 de março e 1º de abril de 1964. Postadas, sem chamar a atenção, em locais estratégicos, mantiveram o centro de controle abastecido de informações via rádio, em tempo real. Outra relevante providência adotada nessa área foi o estabelecimento de um centro de controle móvel, com três viaturas equipadas e prontas para, rapidamente, se deslocarem com destino a qualquer ponto do Estado. Esse dispositivo de comunicações foi acionado com ótimos resultados, tendo sido fundamental a participação de um elemento civil, um rádio-amador voluntário que teve marcante atuação, assegurando ao governador um canal permanente com Minas Gerais, apesar do bloqueio imposto ao Palácio. 




O planejamento da defesa do Palácio Guanabara pretendia atingir três objetivos principais: 
“o aspecto moral e psicológico da manutenção em nosso poder daquilo que simboliza a defesa da democracia na Guanabara; o aspecto concreto da preservação da vida do governador; e finalmente proporcionar os meios para o governador proclamar, via rádio para todo o Brasil, a agressão sofrida, denunciando o golpe comunista e conclamando o restante do país à resistência.”

O PLANO DE DEFESA
O plano de defesa do Palácio Guanabara, resumidamente, previa cinco linhas de defesa:

1ª linha - cinco batalhões da Polícia Militar, dispostos em arco, desde o Hotel Glória até uma posição ao norte do Palácio. Elementos da polícia civil, descaracterizados, fariam rápidos ataques de inquietação. Esta primeira linha de defesa foi apenas parcialmente acionada.

2ª linha - grupamento formado por militares e civis voluntários, sob o comando do Cel Av João Paulo Burnier, equipados com armas automáticas, anti-tanques, coquetéis molotov e dinamite. Esses elementos, formando pequenos grupos de combate, ficariam dispersos tanto nas vias de acesso ao Palácio como em apartamentos cedidos por moradores, preferencialmente entre o 4º e 6º andar. O posto de comando do Cel Burnier foi instalado na Escola Anne Frank. Esta linha de defesa foi ativada no início da tarde do dia 31. Desse contingente de voluntários fazia parte o ex-combatente da FEB Cel Osnelli Martinelli que comandava o grupo nº 22, cuja missão era proteger as entradas do túnel Catumbi-Laranjeiras.



3ª linha - formada pelo 2º Batalhão da Polícia Militar (quartel da rua São Clemente) que ficaria entrincheirado em sucessivas linhas de caminhões pesados da frota do Estado (a maioria da COMLURB) posicionados de modo a dificultar o acesso de carros de combate e demais viaturas inimigas. Esta linha entrou em operação na manhã do dia 31.

4ª linha - constituída por voluntários “especiais” com armas anti-tanque mais pesadas. Algumas viaturas (jipes e caminhonetes) foram adaptadas para esse tipo de armamento e certamente se constituiriam num fator de grande surpresa para as forças hostis. Ficariam em reserva e entrariam em ação quando as três linhas anteriores já tivessem retraído e concentrado seus elementos nas quatro vias de acesso à rua Pinheiro Machado. Esses voluntários “especiais”, em sua maioria militares com experiência no manejo daquele armamento, estavam sob o comando direto do Cel Burnier.



5ª linha - formada pela 1ª Cia Independente da PM, sediada no Palácio, por vários choques da Polícia de Vigilância e reforçada, eventualmente, por elementos remanescentes das linhas anteriores. A resistência final seria na própria sede do governo, prevendo-se a retirada pelo maciço do Sumaré. A tática seria trocar espaço por tempo. Para o governador e outras autoridades estava planejada uma evasão com destino às lanchas do Corpo Marítimo de Salvamento, colocadas em pontos estratégicos da praia. Essa última linha de defesa seria comandada pelo General (ex-integrante da FEB) Salvador Gonçalves Mandin, Secretário de Serviços Públicos do governo do Estado.




No plano de defesa do Palácio - cujo dispositivo ficou pronto na segunda-feira, dia 30 de março - foram também incluídos serviços de intendência (com suprimentos diversos), geradores de energia (dois grupos) e serviços médicos. Nas encostas à retaguarda do Palácio (morro Novo Mundo) foram derramados mais de mil litros de óleo diesel com a finalidade de dificultar qualquer tentativa de progressão do inimigo com mais armamento pesado. Também foram acionadas viaturas do Corpo de Bombeiros. O plano previu até mesmo um dispositivo para o enterro dos mortos.

OS ACONTECIMENTOS
Dia 31 de março de 1964

04:30 horas - chega ao Palácio Guanabara a notícia de que o comandante da 4ª Região Militar, General Olímpio Mourão Filho e o governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, se declararam rebelados, não mais obedecendo ao poder central. Era o desencadeamento da Operação Popeye, planejada de há muito pelo Gen Mourão. Em consequência, estava formado o “Destacamento Tiradentes”, com tropas do Exército e da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, que marcharia para o Rio de Janeiro sob o comando do General Antonio Carlos da Silva Murici.
O governador Lacerda está no palácio desde o domingo, dia 29. Na noite anterior assiste até tarde ao filme “O PT-109”, sobre a participação do presidente Kennedy na II Guerra Mundial. Com as notícias vindas de Minas Gerais, o governador é imediatamente acordado pelo seu secretário particular, Hugo Levy, e assume o comando das ações. Chegam informações das Rádio-Patrulhas da PM que tropas da Vila Militar já se deslocam 
para enfrentar as forças do Grupamento Tiradentes, a caminho do Rio de Janeiro. 





As linhas de defesa do Guanabara entram em alerta. Caminhões pesados do Departamento de Limpeza Urbana, atravessados nas ruas Pinheiro Machado, Paissandu, Ipiranga, Coelho Neto e Farani, formam barricadas que isolam o Guanabara. Voluntários fortemente armados assumem suas posições, inclusive nos terraços de edifícios próximos. Uma metralhadora pesada Hotchkiss é colocada pela PM junto à porta do salão nobre onde se encontra o governador. Há um clima de expectativa e vibração entre os militares e civis que integram o dispositivo. Pouco dias antes, um grupo de marinheiros apoiados por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido da Costa Aragão foram protagonistas de um triste episódio de desordem e quebra de hierarquia. Na ocasião, o governador Lacerda fez violentos pronunciamentos em defesa da honra da Marinha e contra as atitudes aqueles militares. Temia-se uma ação violenta do Alte Aragão contra a sede do governo do Estado.




16:00 horas - uma RP da PM estacionada nas proximidades do então Regimento de Reconhecimento Mecanizado comunica que uma formação de cinco carros de combate M-41 (recém chegados dos Estados Unidos) deixa o quartel no Campinho em alta velocidade. Outras RP assinalam o trajeto dos blindados: Piedade, Méier, Maracanã, Mangue, Ministério da Guerra. Em seguida, novas notícias de sucessivas saídas de mais carros de combate, seguindo o mesmo itinerário. Entretanto, os cinco últimos blindados não estacionam no Ministério. Seguem pela rua Uruguaiana, em direção ao Catete. Pode ser uma investida contra o palácio. O Cel Burnier, entretanto, raciocina diferente: diante do forte dispositivo de proteção montado em torno do Guanabara, com apenas cinco carros de combate e sem tropa de infantaria, certamente não haveria intenção do “inimigo” de atacar a sede do governo estadual. Apesar disso, a 3ª e 4ª linhas de defesa são colocadas em alerta máximo. Os blindados , entretanto, se dirigem ao Palácio das Laranjeiras onde se encontra o presidente Jango e numerosos membros do seu governo.




16:10 - aviões da FAB fazem voos rasantes sobre o Guanabara. Apesar do temor de um ataque aéreo, há uma impressão geral de que a FAB não atacaria o Palácio em virtude da presença de inúmeros Oficiais da Aeronáutica entre os seus defensores, inclusive, do Marechal do Ar Eduardo Gomes, lenda viva da Aeronáutica e que em 1984 viria a ser declarado Patrono da Força Aérea Brasileira.

20:00 - o governador Lacerda inicia uma das muitas reuniões do Secretariado. Identifico várias figuras conhecidas: Deputado Abreu Sodré, General Salvador Mandin, Profª Sandra Cavalcante, Radialista Raul Brunini, Rafael de Almeida Magalhães, Deputado Cel Costa Cavalcanti, Deputado Nina Ribeiro, Cel Av Américo Fontenelle, Deputado Cel Danilo Nunes, Coronel PM Edson de Moura Freitas, Coronel Av Gustavo Borges, Coronel Gervásio Deschamps, Sebastião 
Lacerda (filho do governador), Jornalistas Hélio Fernandes e Sebastião Nery, Deputado Mac Dowell Leite de Castro, entre muitos outros. Ao final da reunião, todos assistem a uma missa na capela de Santa Terezinha, nos jardins do Palácio, celebrada por um capelão.



22:00 - as RP informam que os fuzileiros navais do Batalhão Riachuelo deixam o quartel da Ilha do Governador. Essa notícia gera inquietação entre nós. Sabíamos que era muito provável um ataque de fuzileiros navais. Decorrido algum tempo, veio a confirmação das RP: quatro caminhões tendo à frente uma viatura de assalto, com fuzileiros fortemente armados, passam pela Cinelândia, tomam a direção da Glória e dirigem-se à rua Farani. Todos nos preparamos para o confronto. O governador Lacerda recebe uma metralhadora INA e, junto com o Gen Mandin, passa em revista os postos de combate, cumprimentando e agradecendo o apoio dos militares e voluntários. No entanto, a movimentação dos fuzileiros era uma ação psicológica que haveria de se repetir outras vezes. O comboio estacionou por algum tempo próximo à rua Farani, para, em seguida, dirigir-se ao Palácio das Laranjeiras.




Dia 1º de abril de 1964

00:30 - o clima é de muita tensão. As notícias são todas de adesões da área militar ao movimento iniciado em Minas Gerais. Mas uma dúvida ainda nos incomoda: a posição do II Exército, comandado pelo General Amauri Kruel. Suas ligações de amizade com o presidente Jango parecem estar retardando a definição daquela Força, cujo apoio é fundamental para qualquer dos lados. O Deputado Abreu Sodré manifesta confiança no patriotismo do General Kruel e rebate algumas opiniões pessimistas. De repente, o deputado irrompe no gabinete do governador aos gritos: o Kruel já está vindo! Há uma intensa comemoração em todo o Palácio. É a certeza de que a vitória se aproxima.



01:30 - a tensão aumenta. O Palácio tem a energia cortada. Os grupos geradores instalados no jardim de inverno entram em ação. Aparelhos de ar condicionado são desligados. As linhas telefônicas também deixam de funcionar, permanecendo ativas apenas duas, ligadas secretamente. Ninguém dorme. O Marechal do Ar Eduardo Gomes chega ao Palácio acompanhado de dois sobrinhos. A seu lado, o desembargador Presidente do Tribunal de Justiça e seu filho, portando uma metralhadora. Há um cheiro de pólvora no ar. Um novo informe de uma possível investida de fuzileiros navais movimenta o nosso dispositivo. O governador se preocupa e liga para São Paulo em busca de ajuda. Era apenas mais um deslocamento de forças da Marinha em direção ao Palácio das Laranjeiras. Chove muito. Os bravos militares da PM e da Polícia de Vigilância (P-Vg), estes últimos sob o comando de outro ex-integrante da FEB, o Cel Gervásio Deschamps, permanecem atentos em seus postos, apesar do temporal. Os grupamentos de voluntários cujas posições ficam fora do palácio recebem, a todo o momento, o carinho dos moradores. Capas de chuva, água, refeições e lanches são fornecidos por vizinhos anônimos a centenas de companheiros. Até hoje, decorridos quase 50 anos, ainda me emociono com tais recordações de apoio e solidariedade.




03:30 - uma notícia que muito nos alegra: numa ação ousada, buscando uma informação mais conclusiva sobre os fuzileiros navais, um policial se apresenta no Ministério da Marinha conduzindo um rabecão do IML supostamente para atender uma solicitação das autoridades navais. A guarda acaba permitindo a entrada daquela viatura inofensiva (e macabra) que após um pequeno giro pelas instalações, constata que o Batalhão Riachuelo repousa tranquilamente nos imensos corredores do Ministério, sem qualquer sinal de movimentação.




05:00 - chega ao palácio um novo grupo de voluntários, somando-se aos mais de trezentos militares da reserva já em atividade. São ao todo 31 Oficiais-Generais da reserva já idosos. Sobre esse episódio, mais tarde escreveu o governador Lacerda:
“se colocaram à minha disposição para qualquer missão. Estavam, em sua maioria, desarmados. Os da Marinha, solicitaram uma lancha para atacar uma ilha pouco defendida, onde sabiam da presença de muito armamento. Todos afirmaram que não poderiam ficar de braços cruzados naquela situação. Vocês não podem imaginar a minha emoção diante da disposição de luta daqueles homens. Confesso que fiquei com os olhos rasos d’água”.




08:00 - outro sinal de alerta: os postos avançados da rua Farani detectam a presença de fuzileiros navais nas encostas do morro à retaguarda do Palácio. Fala-se em um possível ataque de morteiros. O governador Lacerda, usando o sistema de som instalado fora do prédio, faz uma vibrante conclamação aos moradores da vizinhança solicitando que se recolham ao interior de suas moradias porque há suspeita de um iminente ataque à sede do governo. Em sua fala, o governador apela aos cariocas para que ajudem a denunciar ao Brasil que o Palácio Guanabara está para ser atacado pelos fuzileiros navais do Alte Aragão, a quem desafia, afirmando: “não te aproximes que eu te mato com meu revólver!”
Uma nova informação dá uma trégua na expectativa de um confronto iminente: os fuzileiros navais fizeram realmente uma incursão na área, mas retiraram-se em seguida.




09:00 - Chega ao palácio o produtor de televisão Flávio Cavalcanti, acompanhado do empresário Abraão Medina. Combinam transmitir pela TV-Rio o áudio de um pronunciamento do governador, o que ocorreu no meio da tarde.

12:30 - vibração geral no Palácio: o Cel César Montagna, ex-febiano, no comando de um grupo de cerca de quarenta Oficiais da ECEME e da ESG, numa ação ousada, toma o Quartel-General da Artilharia de Costa, no Forte de Copacabana.

12:45 - nossos observadores informam que o presidente João Goulart deixa apressadamente o Palácio das Laranjeiras num Volkswagen, ao lado de seu secretário de imprensa, Raul Ryff, seguido pela Mercedes oficial e outros veículos. Uma RP confirma a notícia e segue à distância o comboio até o
aeroporto Santos Dumont. Na pista, Jango embarca na aeronave da FAB Viscount 2.101. Destino inicial, Brasília. Era o começo da fuga. 




O clima no Palácio já começa a ficar festivo. As rádios oficiais - Nacional e MEC - bem como a Mayrink Veiga, antes a serviço do governo, saem do ar. Nos edifícios, chuva de papel picado. O povo começa a lotar as ruas, cantando e pulando de alegria. Buzinaços. Carreatas. Aquele mesmo povo que ajudara a proteger o palácio do seu governador sai às ruas num verdadeiro carnaval. Na euforia da vitória, eu me pergunto com a simplicidade de um jovem Tenente da Reserva de vinte e quatro anos: onde está o povo que Jango tanto cortejou? Porque não foi defender o seu presidente no Laranjeiras? A resposta vem rápida em minha mente: o povo brasileiro jamais aceitará o comunismo, qualquer que seja a sua versão.




15:25 - as RP informam que os fuzileiros navais estacionados no Largo do Machado, na rua Gago Coutinho e no Parque Guinle, abandonam suas posições. A notícia, divulgada pelos auto-falantes do palácio, é comemorada com intensa emoção. Fogos de artifício e disparos esparsos. Gritos, muitos gritos. Abraços intermináveis, dentro do palácio e nas ruas adjacentes.

15:50 - três carros de combate M-41 do RRecMec se aproximam do Palácio Guanabara. Um de seus comandantes parlamenta com os Coronéis da FAB Paulo Vitor e Estrela, que integram o nosso dispositivo de voluntários nas imediações da sede do governo estadual. Vinham se apresentar ao governador Lacerda para ajudar na proteção do palácio. Abrem-se, então, as barricadas que defendiam a democracia. A vibração atinge o seu clímax. O povo cerca os blindados e, aos gritos, acompanha as viaturas, perigosamente, até os portões do Guanabara. Entre nós, as lágrimas são incontroláveis. O governador Lacerda rapidamente vem receber os militares. E chora, emocionado, quando percebe que os comandantes dos carros eram os filhos de seu velho amigo, General Alcides Gonçalves Etchegoyen. Nesse momento, juntos, abraçados, irmanados, todos cantamos o Hino Nacional Brasileiro. 




Em 2 de abril de 1964, a população do Rio de Janeiro saiu às ruas na maior manifestação pública até então realizada pelos cariocas. Um milhão de pessoas comemoraram a vitória da democracia na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que ficou conhecida como “A Marcha da Vitória”.
Meio século depois, para nós, voluntários do Front do Guanabara, ficou uma saudosa e emocionante lembrança. E, mesmo hoje, as lágrimas ainda são inevitáveis. Creio que os quase quinhentos voluntários que participaram da epopéia do Palácio, não o fizeram para defender o governador Lacerda. A democracia era o nosso bem maior, que precisava ser preservada. E a liberdade do povo brasileiro, uma motivação insuperável.







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*o autor é professor, historiador e Oficial do Exército, da Reserva Não Remunerada. É presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2, membro da Diretoria da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto Campo-grandense de Cultura.

Fonte:http://www.averdadesufocada.com/index.php/contra-revoluo-de-1964-notcias-106/6728-a-defesa-do-palcio-guanabara-contra-os-comunistas-em-1964-

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Os 13 anos de governo do PT

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PT, 13 anos na Presidência

Em 13 anos de PT no poder, o Brasil distribuiu sua renda como em nenhum outro período da história registrada pelo IBGE. Todos ganharam. Quanto mais pobre, melhor a evolução.
Foram 129% de aumento real (acima da inflação) na renda dos 10% mais pobres. No decil mais rico, 32%.
Na base da pirâmide, gastos sociais como Bolsa Família e Previdência tiveram forte influência. Mas o trabalho foi determinante para a melhora da renda no período.
Em contrapartida, nunca o Brasil deteriorou tão rápido suas contas públicas; e de modo tão estrutural. Fato que nos leva agora à quase depressão econômica e a um novo retrocesso social.
A distribuição de renda nos últimos 13 anos se compara à das sociais democracias europeias no pós Segunda Guerra. Apesar disso, só 31% dos brasileiros consideram que sua vida melhorou em 13 anos do PT na Presidência, segundo nova pesquisa Datafolha.
O conjunto de crise econômica aguda, denúncias de corrupção, prisões de petistas e fragilidade política levam a maioria a achar ou que a vida piorou (26%) ou que ficou igual (42%).
Só 24% veem o PT na Presidência como ótimo/bom. É bem menos do que os que o consideram ruim/péssimo (35%) ou regular (40%).
A Folha ouviu 13 especialistas sobre os 13 anos em que o PT, agora ameaçado por um impeachment, ocupa a Presidência.
Um bom resumo é o de que o PT colhe o que não plantou: ao desprezar reformas estruturais quando tinha apoio popular e surfava na onda das commodities até 2008 deixou engessados, sem espaço de manobra, quase 75% do gasto não financeiro da União.
Mais de dois terços deles (como Previdência) são indexados ao salário mínimo, reajustado pela inflação.
Ao priorizar o gasto social, o PT permitiu que ele avançasse rápido como proporção do PIB: de 6,5% para 9,3%. Em contrapartida, investimentos em infraestrutura estagnaram ao redor de 1%.
Com a inflação (e boa parte do gasto) agora subindo 10% ao ano e a arrecadação caindo 5% com a recessão (que encolherá o PIB em quase 4%), tem-se uma trajetória explosiva para a dívida pública, que pode levar o país à insolvência.
Há dois anos, a relação dívida/PIB era de 56,7%. Ela fechará 2015 em 66% e pode ir a 80% antes de 2018.
FIM DE UMA ERA
Antes disso, o Brasil deve encerrar mais de uma década de conquistas sociais.
"Até aqui, mesmo com inflação e desemprego em forte alta, a renda domiciliar per capita e sua distribuição estão próximas ao topo. Mas o precipício está ali, bem à nossa frente", diz Marcelo Neri, diretor do FGV Social, da FGV-Rio e ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Especiais da Presidência da Presidência da República.
Enquanto a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostrou ainda "surpreendentes" desigualdade em queda e crescimento real da renda de 3,3% em 2014, a Pnad Contínua em 2015 revela desigualdade estável e retração da renda de 0,96% no terceiro trimestre.
"Isso significa que o sofrimento geral da população ainda está por vir", diz Neri.
Assim como o trabalho foi preponderante na redução da pobreza, ele trará impactos negativos agora.
Para o economista Gabriel Ulyssea, da PUC-Rio, a exuberância do mercado de trabalho sob o PT careceu de mudanças estruturais.
"Houve forte aumento do crédito ao consumo, à habitação e às empresas. Para tomar financiamentos, a formalização era exigência. Isso foi, portanto, uma mudança apenas conjuntural."
Nos 13 anos do PT, o volume de crédito no Brasil saltou de 25% do PIB para 60%. Coincidindo com o fim desse ciclo de forte expansão, o país perdeu mais de 1,2 milhão de empregos formais nos últimos 12 meses.
No período, os financiamentos concedidos pelos bancos públicos (32% do PIB hoje) também ultrapassaram os privados (27%).
A aceleração do crédito estatal e do gasto social são vistos como determinantes para o desajuste atual.
"A crise global de 2008 levou o governo a agir rápido. O problema, depois, foi insistir no mesmo estímulo ao consumo", diz Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e ex-professor de Dilma.
O especialista em contas públicas Mansueto Almeida afirma que, passado o pior daquela crise, o PT "acelerou gastos, criou mais programas e novos incentivos".
Mesmo depois da eleição em 2010, quando a economia crescera 7,6%, Dilma também forçou a queda de juros (2011) e o preço da energia elétrica (2012), estimulando mais o consumo.
O período marcou também o início da chamada "nova matriz econômica", que acabou trazendo várias distorções à economia.
Para Antonio Delfim Netto, a presidente reforçaria o erro até sua reeleição, em 2014. "Em vez de cortar despesas, ela fez política fiscal abusiva, mas consciente, para ganhar a eleição."
O economista Sérgio Vale, da MB Associados, situa no mensalão, em 2005, o início do fim do rigor fiscal.
"Mas isso fico mascarado pela ótima conjuntura internacional". Ele lembra que a última grande reforma do país foi a aprovação da Lei de Falências, em 2005.
José Márcio Camargo, da PUC-Rio, diz que, ao contrário das crise dos anos 1980 e 1990, há hoje um diagnóstico claro do que precisa ser feito. "Mas tudo dói: mudar a idade da aposentadoria, a política do salário mínimo, cortar o funcionalismo".
Para Carlos Pereira, cientista político da FGV-Rio, sem apoio para reformas e acuado pelo impeachment, o legado do PT pode ficar diminuído ao da corrupção. "E isso é muito triste.


"FERNANDO CANZIAN - Fonte: http://temas.folha.uol.com.br/pt-13/especial-pt-13/pt-13-anos-na-presidencia.shtml?cmpid=newseditor)
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domingo, 13 de dezembro de 2015

Ministro do STF assevera que “Não há governo no Brasil hoje”

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Marco Aurélio Mello, ministro do STF, em nova crítica ao governo, foi incisivo ao afirmar que não há governo no Brasil atualmente. Ele analisou a crise política e falta de harmonia entre os poderes, que vem contribuindo para a ruína do país.
“Precisamos reconhecer, com desassombro, que hoje não há governo no Brasil”, declarou. “Não se consegue tocar medidas econômica e financeiras indispensáveis à suplantação da crise mais séria, que é econômica e financeira. Precisamos deixar os interesses políticos paroquiais em segundo plano”, afirmou o ministro.
O ministro fez as declarações durante palestra no Insper, em São Paulo, o tema da palestra do ministro foi – LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
Recentemente Dilma convidou os ministros do STF para jantar no Palácio do Planalto, o único que rejeitou o convite foi Marco Aurélio Mello.

(Fonte:http://www.revoltabrasil.com.br/corrupcao-2/8085-ministro-do-stf-assevera-que-nao-ha-governo-no-brasil-hoje.html)
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A carta patética de Temer (mas não a que você está pensando)

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Na terça-feira passada, o vice-presidente Michel Temer divulgou duas mensagens escritas. A primeira era uma carta de desabafo dirigida à presidente Dilma Rousseff, com uma longa lista de reclamações. Causou um tremendo salseiro político e uma infindável - e impagável - sucessão de memes nas redes sociais. A segunda era uma nota à imprensa, que passou quase despercebida, mas talvez tenha duração mais longa que a carta do desabafo. Na nota, Temer responde a uma revelação publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo. Segundo o jornal, o vice, tal como a presidente, também assinou decretos de crédito suplementar sem a devida autorização legislativa. O assunto é o primeiro e o principal na lista de razões que embasam o pedido de impeachment contra Dilma. Aplicando-se a mesma lógica, Temer também estaria sujeito a impeachment.
Na nota, curta, Temer diz que, nas interinidades, o vice-presidente atua "em nome do titular do cargo", cumprindo apenas formalidades e assinando "documentos e atos" que estejam vencendo no período. "Ele cumpre, tão somente, as rotinas dos programas estabelecidos pela presidente em todo âmbito do governo, inclusive em relação à política econômica e aos atos de caráter fiscal e tributário". Por fim, Temer afirma que, assinando esses documentos e atos, o vice-presidente não está formulando a "política econômica ou fiscal" do governo e também não "entra no mérito das matérias objeto de decretos ou leis". Em outras palavras, Temer diz que não é responsável por sua assinatura, pois atuava em nome de Dilma, nem pelo conteúdo do que assinou, pois não o formulou nem o concebeu.
"A resposta é pífia", reagiu o senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná. O senador pediu ao Tribunal de Contas da União um parecer sobre o caso de Temer. "Para mim, é uma questão pacífica", diz o tucano. Afinal, ao analisar esses mesmos decretos assinados por Dilma, o TCU concluiu que eram irregulares. "Não podemos ser seletivos. Temos que ser coerentes. A régua para medir uns e outros tem de ser a mesma", diz o senador. De fato, a explicação de Temer causa certa perplexidade pela singeleza. Equivale a dizer que o vice-presidente, além de decorativo, é inimputável. Pode assinar qualquer coisa, mesmo ilegal, desde que seja a mando do presidente - e nada lhe será cobrado. Vista sob esse ângulo, a nota é patética. E nem todos os vices interpretam a função com tanta passividade.
Aureliano Chaves, vice do general João Figueiredo, causou uma crise política em 1981, quando ocupava o cargo em função do infarto do titular. Na cadeira de presidente, recebeu um documento para assinar. Era a ordem de expulsão de dois padres franceses, Aristides Camio e François Gouriou, acusados de incitar invasões de terra no sul do Pará. Aureliano recusou-se a assinar. E não assinou. (Os padres acabaram condenados a 10 e 15 anos de cadeia, cumpriram dois anos e quatro meses e só então foram expulsos.) Era um assunto político, não tinha nenhum impacto econômico e financeiro. Temer, obviamente, poderia ter feito o mesmo. Mas, ao contrário, assinou. Não um decreto, mas nove, que, somados, passam de 67 bilhões de reais. Foram cinco decretos no primeiro mandato, em 2014, e quatro já no segundo mandato, agora em 2015.
Para complicar, na mesma terça-feira da carta de desabafo e da nota à imprensa, Temer deu uma entrevista dizendo que, na sua opinião, o pedido de impeachment contra Dilma "tem, sim, lastro jurídico". Isso significa que, na opinião do vice, assinar decretos de crédito suplementar sem autorização legislativa constitui crime de responsabilidade. Se Temer sabia disso, a questão que fica no ar é outra: por que assinou nove decretos sabendo que violavam a lei? Neste caso, deveria ter-se recusado a assiná-los. Ninguém tem mandato ou poder para obrigar o vice-presidente a cometer um ato que, na sua própria opinião, constitui-se em crime de responsabilidade. (Os decretos de crédito suplementar, assinados por Dilma e Temer, não são o que se convencionou chamar de "pedaladas fiscais". Todas as irregularidades orçamentárias que aparecem no pedido de impeachment têm sido chamadas de "pedaladas fiscais", mas apenas para efeito de simplificação.)
A explicação de Temer sobre suas pedaladas, ao dizer que cumpria mera formalidade e não definira a política econômica ou fiscal, tem alguma semelhança, guardadas as enormes diferenças de fundo e de natureza, com aquela manobra dos militares da Argentina. Tentando escapar da responsabilidade dos sequestros, torturas e assassinatos durante a ditadura, eles inventaram a "lei da obediência devida". Pela lei, eles sequestraram, torturaram e mataram porque tinham ordens para fazê-lo e tinham a obrigação funcional de cumprir tais ordens. Portanto, não podiam ser punidos por isso. Mas Temer não pode alegar nem algo como uma "obediência devida". Vice não cumpre ordens de ninguém, nem da presidente. Muito menos ordens que dão "lastro jurídico" a impeachment.
Em condições normais, tudo o que um vice pretende ao assumir o cargo é cumprir a rotina burocrática e não causar problemas. Temer, nas suas interinidades, certamente preocupou-se em não paralisar a máquina pública, o que poderia criar sabe-se lá quais turbulências. Por isso, cumpriu as tarefas formais que lhe foram exigidas. Mas, se tinha ciência de que os decretos eram irregulares, era recomendável que Temer comunicasse a presidente que não os assinaria. Dilma que encontrasse uma saída. Ela poderia decidir cancelar as viagens internacionais nas datas de renovação dos decretos. Ou podia mandar os decretos às favas. Em qualquer situação, Temer estaria a salvo sem ter sido desleal e sem parar a máquina pública. Mas Temer também não fez isso.
A outra hipótese é que Temer não soubesse que se tratava de um crime. É plausível. Mas, se admitir isso agora, Temer se colocaria numa posição politicamente cavilosa: se assinou por não saber que era crime, por que estaria agora vindo a público dizer que o impeachment tem "lastro jurídico"? Seria mais elegante dizer que o "lastro jurídico" do impeachment é frágil, tão frágil que mesmo ele, Temer, constitucionalista por formação, não tinha conhecimento da irregularidade ao assinar os decretos. Mas, com o poder em jogo, esses tempos não estão para elegância.
A armadilha em que Temer se meteu é quase inescapável. Mesmo que o TCU decida isentá-lo de qualquer responsabilidade, restará a questão política que sempre permeia um processo de impeachment: como convencer os brasileiros a entregar a cadeira presidencial a uma autoridade que cometeu o mesmo crime da autoridade que sai? É defensável punir Dilma por um crime e premiar Temer pelo mesmo crime? Já surgiu pedido na Câmara dos Deputados para incluir o nome de Temer no pedido de impeachment contra Dilma. Do ponto de vista das ruas, talvez seja até mais animador pedir o impeachment dos dois, Dilma e Temer. Afinal, estão juntos há cinco anos, no mesmo ambiente com cheiro de enxofre. Mas levar o Congresso a aprovar um impeachment sem apoio do PMDB de Temer é coisa que talvez nem as ruas tenham força para fazer.
Tudo considerado, a explicação lógica para o comportamento de Temer parece ser a seguinte: ele não sabia o que estava assinando. Provavelmente, não imaginava que, no exercício da Presidência da República, lhe dariam documentos irregulares para assinar. Confiava que só lhe pediam para cumprir rotinas lícitas, inquestionáveis. E, assim, sem ler detidamente o conteúdo dos decretos, assinava-os. O drama de Temer é que a alegação de que assinou sem ler, ou sem saber o que assinava, não isenta ninguém perante tribunal nenhum do mundo. A nota irônica é que, na carta de desabafo a Dilma, Temer começou com uma citação em latim: "verba volant, scripta manent" (as palavras voam, os escritos permanecem). Agora, encontra-se numa sinuca em latim: "verba volant, decreta manent"* (as palavras voam, os decretos permanecem).

(Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/a-carta-patetica-de-temer-mas-nao-a-que-voce-esta-pensando)
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sábado, 12 de dezembro de 2015

General manda recado aos políticos: “Não dá pra engolir tudo".

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Vale recordar que os profissionais das três Forças se dedicam, durante a carreira, ao estudo de problemas brasileiros e à avaliação da conjuntura internacional.
Além da Universidade Militar (quatro anos), cursam, como capitães, a Escola de Aperfeiçoamento (um ano); depois, mediante concurso, já oficiais superiores, a Escola de Comando e Estado Maior (dois anos); e, por último, durante um ano, um pós-doutorado, na área de política e estratégia.
Saem da teoria e vivem os problemas “in loco”. Residem, invariavelmente, nos lugares mais inóspitos do território nacional, particularmente na Amazônia, onde, quase sempre, só os “milicos” se fazem presentes. Conhecem o país como poucos. Pagam impostos e são obrigados a votar.
Importante notar que a incapacidade de boa parte dos governantes lhes custa caro. Por conta disso, distribuem água no Nordeste; constroem e reparam estradas e pontes; ocupam comunidades para reprimir o crime; monitoram, sozinhos, boa parte das imensas fronteiras; retomam invasões ilegais; cuidam de inúmeras comunidades indígenas abandonadas; cobrem deficiências do sistema de saúde; gerenciam catástrofes; combatem a dengue, entre outros.
Ou seja, os militares cumprem qualquer missão, além de suas tarefas constitucionais. Ainda assim, são mal remunerados e dispõem de orçamento destroçado. Por motivos óbvios, não podem se organizar em sindicatos, nem fazer greves.
Os chefes militares exigem de seus comandados dedicação integral, até em fins de semana e feriados, sem qualquer remuneração extra. Devem, portanto, mantê-los inteirados da situação.
O general de Exército Antônio Hamilton Martins Mourão construiu sua carreira pautado pela lealdade, retidão e respeito aos subordinados. Soldado exemplar, líder inconteste, nunca se permitiu mentir, blefar, caluniar ou se omitir.
Desafio que apontem qualquer inverdade nas palavras que Mourão dirigiu a outros militares, em atividade interna. Um dos slides de sua palestra informava que “a maioria dos políticos de hoje parecem privados de atributos intelectuais próprios e de ideologias, enquanto dominam a técnica de apresentar grandes ilusões que levam os eleitores a achar que aquelas são as reais necessidades da sociedade”.
O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, julgou que esses são assuntos institucionais que cabiam a ele, comandante, abordar. Pediu a transferência de Mourão do Comando Militar do Sul para outra função, na secretaria de Finanças, igualmente nobre, compatível com o posto que ocupa. Assunto encerrado. Princípios de hierarquia e disciplina. Simples assim.
Fica a dica: autoridades civis, que conduzem os destinos do Brasil (aquelas que enfiarem a carapuça), se querem evitar esse tipo de desconforto, comportem-se com um mínimo de dignidade, competência e probidade, evitando tantas mentiras, escândalos e roubalheiras. Não dá para engolir tudo.
Esquerdopatas, fiquem calmos. São outros tempos. As Forças Armadas seguirão apolíticas e apartidárias, mas, pelo que levam na alma, jamais serão bolivarianas.
Os castrenses não pensam em tomar o poder, nem pretendem violar as instituições do regime democrático em que vivemos, ainda que pleno de imperfeições.
No entanto, não somos robôs descerebrados e insensíveis. Guardamos, tanto quanto vocês, o direito e o dever de espernear contra tantos desmandos e falcatruas.
Brasil, acima de tudo!

(Fonte: http://www.diariodobrasil.org/general-manda-recado-aos-politicos-nao-da-pra-engolir-tudo-comportem-se-com-dignidade/
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