terça-feira, 26 de junho de 2018

IDOSOS ÓRFÃOS DE FILHOS VIVOS – OS NOVOS DESVALIDOS.

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Este artigo é uma dura crítica ao modo com que pais e sogros, na atualidade, têm sido desprezados por seus filhos e agregados. Em especial, os pais de mais idade, que têm necessidades básicas: de atenção e carinho, que lhes têm sido negadas pela insensibilidade e egoísmo de seus filhos, que preferem entreter-se com as novas tecnologias, do que conversar com familiares. Este comportamento transmite aos netos, não a noção, mas a certeza de que bastam algumas poucas visitas, rápidas e ocasionais, alguns telefonemas semanais, um almoço ou jantar de vez em quando, um acompanhamento ao médico necessário, para cumprir o que lhes caberia fazer pela saúde e bem-estar dos mais velhos. Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Em tempos anteriores, quando vieram das áreas rurais para as cidades, tão logo estabilizadas, os migrantes de tudo fizeram para trazer seus pais para junto de si de modo a recompor a família esfacelada pelos movimentos migratórios. Estando em Brasília, certa, ouvi o relato emocionado de um senhor, analfabeto, que agradecia ao filho por tê-los, a ele e sua esposa, tirado do sertão para escapar à fome e sede do corpo e, à tristeza da solidão. A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças. Finalizou, o candango: - Hoje temos casa toda mobiliada e temos saúde. Não falta nada de nada. Nossos filhos foram maravilhosos. Nossos netos estudaram nas melhores escolas. Dois deles são doutores. Não conhecemos direito os bisnetos. Eu e minha esposa, que Deus a tenha, fomos muito pobres, de não ter sapato, de dormir embrulhados em folhas de jornal. Mas nunca sentimos uma coisa: falta de carinho, falta de respeito. Os meus filhos, sim, eles reclamam que os filhos deles não têm tempo nem para uma visitinha. Ficam o fim de semana todo lá sentados um olhando para o outro, enquanto os mais jovens da família fazem churrasco com os amigos e eles não são convidados. 

A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião. Separação e responsabilidade Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. 

Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam. 

São pais de mais idade que estão vivos, porém esvaziados de um lar pelo que tanto lutaram. Pode-se dizer, infelizmente, que pais idosos, com filhos presentes em suas vidas constituem-se numa crescente raridade. Os filhos se aproximam quando há doença grave a ser tratada. Pagam tratamento e cuidadores e, pela presença de muitos estranhos na vida dos seus pais idosos, pessoas que cumprem com suas funções, enquanto eles, os filhos trabalham, viajam, se divertem e se encerram em seus programas exclusivos de ‘só para adultos’ e ‘só para adolescentes’ de um lado, e ‘só para gente da sua idade’ de outro. Pais de mais idade que são visitados por filhos e netos com quem conversam e vez por outra passeiam, parecem se constituir numa minoria crescente. Tornaram-se eles, os pais, complacentes em relação aos filhos que não têm tempo para nada. Pais desvalidos.

Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. 

Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar. 

Disso sabem as mulheres cujo ex-marido abandonou os filhos do casal, as mulheres sobrecarregadas pelos afazeres que lhes pesam nos ombros pelas frequentes ausências de seus bem sucedidos maridos, os quais garantem alto padrão de vida, porém baixa quantidade e qualidade de relacionamento conjugal e familiar.

Sabem, também, as mulheres que se afirmaram longe de suas famílias, em busca de uma carreira brilhante e que não tiveram filhos. Como se tê-los fosse garantia de não estarem sozinhas em momentos importantes de suas vidas. 

Chama atenção que os aposentados se ressentem por não se sentirem mais úteis. Não falam em solidariedade, mas em utilidade, de significado intrinsicamente ligado à produtividade. O sucesso da atividade útil é mensurado pelo que as pessoas fazem e possuem e, não pelo que são, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos interpessoais. Dificilmente uma pessoa terá seu valor reconhecido se não for através da qualidade dos relacionamentos que tem com a família, com a sociedade e o mundo. É o olhar do outro que afirma o ser. Até mesmo o mendigo, o morador de rua mais maltrapilho, será bem visto, caso alimente um cachorro que o acompanhe. 

O ser humano é, por excelência, um ser de relações. De nada vale aos filhos, quando os pais cobrem-nos de presentes materiais, mas descuidam de dar-lhes sua presença autêntica. Filhos apreciam o conforto e os bens que seus pais lhes propiciam, mas entre o partilhar experiências e ganhar tudo que se deseja, os filhos sempre elegem a presença dos seus próprios pais. A necessidade da presença do outro na vida de relacionamentos é crucial. Presença atenta e, em sendo possível, amorosa. Se desejarmos ferir profundamente a alma de uma criança, basta ignorá-la. Ignorar, ironizar, desdenhar é um trio maldito de forças de ataque a qualquer ego, da infância à alta velhice. Começamos por apontar as necessidades básicas da infância. A verdade é que esta necessidade, de fundo cognitivo e emocional, é permanente ao longo da vida, mesmo que as distrações aconteçam. 

Crianças apartadas sem contato afetivo, sem presença nem conversa, podem resultar hipodotadas no futuro. E não se sabe o que é pior: tornar-se um adulto funcionalmente comprometido ou sem a menor capacidade empática. O contato humano, desde a mais tenra infância é primordial para a aprendizagem das habilidades sociais e aquisição de valores nobres, de caráter e de comportamento moral. O mesmo é válido para idosos excluídos da sociedade maior e, principalmente apartados do convívio com seus familiares. 

Por mais que se adote uma família de afeto, constituída por amigos leais, não somente pelos conhecidos sociais, as pessoas de mais idade que não podem contar com a proximidade física e emocional de quem lhes dê presença, são muito mais vulneráveis a doenças, estresses e, mesmo depressão. 

A filha de uma senhora a quem atendi por alguns meses contou-nos, com muito pesar, ter-se dado conta de ser a única pessoa da família a abraçava. Sua irmã não tinha a menor afinidade com ela. Seus irmãos passaram a trabalhar e residir no exterior. Suas tias, irmãs da senhora sua mãe, haviam falecido todas nos últimos dois anos. Era na residência de longa permanência que, vez por outra, era abraçada pelas atendentes. Gente estranha que tocava seus ombros e cabelos, passava creme nutritivo em suas costas, pernas e braços. Consequência: sua mãe havia emprestado seu cartão de crédito, claro que com senha e tudo, a uma manicure que quinzenalmente afagava suas mãos e dizia-lhe como ela era linda e querida. Em menos de 40 dias sua conta poupança fora zerada e a manicure sumida. 

A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. 

Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. 

Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis. Os filhos pouco admitem sua conduta descuidada para com seus pais mais velhos. E quando admitem, pouco ou nada fazem para mudar de atitude. Para atualizar o seu olhar em relação à orfandade de seus pais. São adultos para quem ‘ser bom filho’ consiste em não deixar faltar nada de básico: remédios, empregados e cuidadores, compras de açougue e supermercado. Um ou outro traje mais apropriado para uma ocasião social formal, quando é o caso. Levá-los à praia – algo de que, por razões óbvias, os de mais idade pouco usufruem. Ações que tratam, mas não cuidam. Comprar coisas para dar a seus pais, os filhos gostam. Fazer-lhes companhia sem tarefa a cumprir, isso é o que tem estado em falta. Melhora quando a televisão está ligada num jogo ou novela, noticiário, qualquer coisa ou programa em que conversar não se faz necessário. Os pais de mais idade evitam o enfrentamento direto, enquanto pouco a pouco os filhos se tornam cada vez mais críticos em relação a seus pais. Os velhos têm-se calado, têm-se aberto tão somente com estranhos ou com seus poucos amigos: - Meus filhos?! Eles não têm tempo para nada! Passam seus sábados, domingos e grandes feriados sem que seus telefones toquem para saber de si. Quando os filhos respondem às ligações de seus pais, o mais frequente é adiar a conversa: - Posso ligar mais tarde? Estou no meio de uma reunião, agora. 

Doenças e medicações merecem atenções. Dores agudas alarmam. Nada se conversa, porém, sobre o que uns e outros têm vivido. O fracasso dos filhos que abandonam seus pais é reputado à correria da vida. Há pouca sinceridade. De modo geral os mais velhos são vistos como chatos e manipuladores. Estes, por sua vez, veem seus filhos como egoístas, superficiais e autoritários. Assemelham-se a duas tribos que mal se toleram, onde então, uma distância prudente e prolongada, far-se-ia mais do que necessária para manter o armistício. De onde surge esta intolerância dos filhos à inclusão dos pais em suas vidas? Não afirmo que não haja intolerância, também, de pais para com filhos adolescentes e, mesmo, para com seus filhos pequenos, extremamente demandantes. 

Vivemos uma cultura de reprovação mútua: os mais velhos julgam os mais jovens, que julgam os mais novos. Trata-se de uma pseudoliberdade de falar e de quase ausência de respeito mútuo a praticar. As reprovações e intolerâncias mútuas, represadas pelas ausências, pela excludências, pelas impaciências, magoam a uns e outros. A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz. 

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. 

As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. 

Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade. Ainda que não se possa afirmar que este estado de distanciamento afetivo e cognitivo entre pais e filhos nunca tenha sido, anteriormente tão profundo e gritante, pode-se afirmar que a nossa educação, ao longo do século XX, especialmente depois da Segunda Grande Guerra, criou altas expectativas de que, mais atentos, estudados e civilizados, não viéssemos a sofrer deste afastamento. Pensamos haver conquistado definitivamente a convivência amorosa entre pais e filhos a partir dos modelos românticos veiculados pelas propagandas de todos juntos, felizes e bem arrumados, em torno de uma farta mesa já posta para o café da manhã numa cozinha limpa e iluminada, antes de todos saírem para o trabalho e para as escolas. 

Incluam-se os eventos comerciais patrocinados por inspiração da moderna pedagogia e pediatria, dos manuais de pais e filhos, das reuniões escolares e presença nas festinhas de fim de ano, dia das mães, dos pais, das crianças, dos avós, sem que o público fosse alertado: quanto mais se procura determinar um único dia para reforçar o amor e o carinho de uns para com outros, através de presentes materiais, mais isso denuncia que não há trocas espontâneas de carinho, substância imaterial, em todos os dias. 

Ainda que sentimentos não mudem, muda a aprendizagem do que se deve esperar de um relacionamento e, quando e quanto uma pessoa ‘deve se alegrar ou sofrer’ por este ou aquele fato. Ou pelo não-acontecimento. O império das identidades pessoais sobrepujou o valor das experiências de comunidade e comunhão. O modo de educar e viver em família não era melhor. Provável que fosse até mais limitante, com maior rigidez em muitos aspectos. No entanto, as definições mais precisas sobre direitos e deveres em família, a autoridade dos pais e a subordinação dos filhos, ainda que excessos fossem cometidos, tornavam a convivência mais segura e moderavam as expectativas mútuas. Os pais não precisavam ser simpáticos e compreensivos. As mães não precisavam ser amigas e companheiras de seus filhos. Nem guiar carro, nem saber matemática para sentarem-se com seus filhos para ensinar o que não conseguiram apreender nas escolas, durante as aulas. Os papéis não se intercambiavam, também. 

Pais e mães não sabem mais exercer sua autoridade, nem sabem de que, exatamente, seus filhos precisam. A maioria dos jovens de hoje afirmam o fato de que seus pais não os conhecem bem, mas pensam que sim. E que, portanto, insistem em dar conselhos que não se aplicam. As ausências tinham uma denotação, enquanto hoje em dia elas têm infinitas conotações. Hoje o excesso é de frustração das expectativas de uns e de outros. Há, na verdade, uma verdadeira lacuna de solidariedade intergeracional e, mesmo, intrageracional. A família comete, na pós-modernidade, um excesso de autoritarismo – pela dureza das críticas mútuas – e padece de grande escassez de presença e acolhimento. Os pais de mais idade não conseguem aprovar, nem conviver, com o modo atual de educar os filhos. Pais e filhos que se xingam e competem de igual para igual pela ocupação dos quartos, dos aparelhos, dos assentos à mesa, pelo uso do carro da família e pelo dinheiro, quando há. E competem, da mesma forma, pelo mesmo posto no mercado de trabalho. 

Filhos adultos são arrogantes com seus pais de mais idade. Irmãos são arrogantes entre si. A inflação dos egos está presente em praticamente todas as transações familiares. O modelo pobre e insuficiente, do ponto de vista do conforto moral e afetivo de toda a família, insufla a postura narcísica: - Se eu fiz, você pode fazer também, a qual tem por corolário o faça você mesmo. Essa brutalidade emocional com que pais, filhos e irmãos se tratam, leva-os a ser intransigentes com os erros e falhas de uns e de outros e, por demais complacentes para com suas próprias. 

As famílias vêm cultivando um estilo famélico de reconhecimento, atenção e carinho. A insistência na autossuficiência conduz quase todos os membros de uma mesma família à sensação de insuficiência. e todos padecem da síndrome da solidão no seio da própria família. E o terror de se envolver mais profundamente com outro alguém, pois já que na família não se encontra respaldo, nem guarida, o que esperar de quem? A desconfiança está, epigeneticamente, instalada na cultura familiar. 

A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional. 

Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. 

Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato. De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? 

É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educá-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje - que justa, porém indevidamente - cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. 

Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. 

O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos. 

Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. 

É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. 

O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo. Qualidade e quantidade de tempo e de presença na vida do outro. 

Até o momento, nas áreas da pedagogia, do ensino e da psicologia estivemos discutindo a suposta importância da quantidade versus a qualidade do tempo dedicado ao filho para justificar, ou não justificar, uma ausência paterna e, mais recentemente, materna. Mas, o que é qualidade de tempo numa relação autêntica? É oportuno reiterar que não se alcança um tempo de qualidade sem um tempo alocado, primeiramente, à quantidade. Qualquer coisa, em qualquer trabalho que se realize é sabido que a pessoa precisa se comprometer e se dedicar à exaustão, para tornar-se experiente e exímio naquilo que faz. Cunhou-se, inclusive, o termo ‘tempo de qualidade’. Uma falácia, porque aquilo que pode ser de qualidade para um pai pode não o ser para um filho. As perspectivas são absolutamente diferentes e não equivalentes. Os pais já foram crianças, mas as crianças não têm a menor noção do que é ser adulto. Da mesma forma, mais tarde, os filhos adultos não têm a menor noção do que é ser velho ou idoso, conforme se queira denominar. 

Muitos de nós não têm liberdade de escolher os melhores horários para si próprios, quando precisam fazer suas coisas. Os tempos biológicos, sociais e existenciais não batem ponto a ponto com os tempos cronológicos. Este já é um drama vivido no cotidiano. A preguiça bate à hora. As responsabilidades obrigam a todos fazerem suas escolhas. Serão, porém, todas elas ‘obrigatórias’? E ‘têm que’ ser desempenhadas exatamente naquela hora? Ah, fica mais um pouco. Vamos conversar mais. Você vem tão pouco aqui. São estas as falas às despedidas. As crianças choramingam ‘não sai, fica comigo, conta outra história, pega um copo d’água’, como que ‘obrigando-os’ a lhes conceder mais de sua presença antes de dormir. Sentem-se seguras ao lado de seus pais. 

Os idosos também pranteiam a solidão de suas vidas e, publicamente, oferecem almoços, lanches e jantares em troca de uma supérflua visitinha, uma quase ‘inspeção’ do estado de coisas em que eles vivem. Ou sobrevivem. Por que romper com laços familiares, deixar para lá e não fazer questão, atenta contra a saúde física e mental Honrar pai e mãe – ter o privilégio de fazer o que merece ser bem feito. Seria possível dividir melhor o tempo dedicado ao trabalho, ao lazer, aos afazeres domésticos, ao casamento e à convivência entre pais e filhos, irmãos e irmãs? 

Assim como os pais não compreendem perfeitamente as necessidades de seus filhos, os filhos não captam, nem de longe as necessidades de seus pais idosos. A atenção é quase toda orientada para a saúde física. Aqui, porém, focalizamos a necessidade básica, primordial de conviver intimamente com aqueles que são queridos e, que podem cuidar dos mais idosos. E que deveriam fazê-lo mais amiúde. Não porque seja um dever imposto pela Lei, mas por consciência e abnegação, em honra aos pais. 

Assim como agradecemos pela bênção de ter e de educar um filho, deveríamos ser aptos a reconhecer a honra de cuidar dos pais de mais idade. Mas não somente quando a ‘mais idade’ chegar e se instalar definitivamente, mas ao longo de toda uma vida, porque sempre os pais têm mais idade que seus filhos. O que tem sido um pesado fardo, pode ser visto como um privilégio. 

Idosos não têm que ser entretidos com visitas e passeios. Levar mamãe ao cinema é diferente de sair junto para assistir o mesmo filme. Vencer a impaciência e a arrogância de criticar os pais requer, minimamente, uma boa dose de reflexão e autocrítica.

Num tempo em que às mesas dos restaurantes e nas casas de família todos se entretêm mais com as novas tecnologias, que com as conversas olho no olho, é preciso repensar a sociedade e os valores que estamos compartilhando. Nos perguntarmos, com seriedade e coragem, onde estamos todos errando. No que estamos nos excedendo e do que estamos padecendo.

As novas tecnologias podem nos conectar e ao mesmo tempo nos afastar uns dos outros. Estar conectado não significa estar em comunicação. Participar – de uma rede – não significa pertencer a um grupo, a uma família. Dar opinião não é conversar. E conversar não implica em ser verdadeiro e íntimo. As tecnologias nos conectam e nos tornam menos comunicativos e, de certa forma, inacessíveis. O mundo virtualizado não atende aos apelos de afeto e atenção. Pais, filhos e irmãos são sócios: não podem se separar, nem se negar a compartilhar da vida em comum, a não ser pagando com a saúde e a descrença. A família precisa ser solidária e cooperativa, senão todos os seus membros padecem. 

Pais, filhos e irmãos são seres sensíveis e, não clientes para serem atendidos, agradados e fidelizados. A casa da família não é um parque de diversões. As casas de longa permanência não são creches de idosos, nem shoppings onde comprar afetos e cobrar obrigações. 

Filhos não fazem as vezes de pai e mãe. Pai e mãe têm por pressuposto básico educar seus filhos. Filhos de idosos têm por pressuposto cuidar deles, sem querer educá-los. Uma geração zela pela integridade física, moral e, emocional da outra, desde que esta esteja em condição de maior vulnerabilidade. E cuida da própria geração quando as fragilidades e fragilizações ocorrem. Cada qual pode e deve assumir suas escolhas e se aproximar ou se afastar. Mas não é correto nem justo se enganar. Não há como delegar a estranhos sentir afeto pelos nossos filhos, pelos nossos pais, pelos nossos irmãos. 

Delegam-se tarefas, não deveres morais, escolhas que se fazem pela nossa honra e pela honra da família. O falecimento ou adoecimento grave de alguém, deixa uma lacuna que jamais será preenchida Não há lugares vagos a ocupar, há perdas e ausências a prantear e datas para voltar a lembrar e celebrar. Os mortos permanecem vivos na memória de seus familiares. Pais e filhos que não respeitam as leis morais e espirituais ensinam aos seus descendentes a não respeitar sequer a si próprios. Ser pai e mãe decorre de uma escolha nada fácil, porque a partir dela o homem e a mulher buscam fazer a coisa certa. Muitas vezes, porém, sabendo com muito mais clareza o que é errado fazer, do que é o certo a ser feito. 

Abdicamos muito da nossa identidade pessoal, para validar os valores mais profundos da nossa sensibilidade moral e afetiva. Ninguém é ético sem aprender as artes da abnegação e da suspensão dos julgamentos. Ser filho, tanto quanto ser pai, é assumir responsabilidades sobre a vida de outras pessoas. 

Uma vida cheia de exigências, em que as respostas não surgem sem maiores sacrifícios. Mas só há um modo perfeito de viver em família: é convivendo. É estando presente, é compartilhando as graças e as desgraças. Errar, desculpar, perdoar e, se perdoar. Aprender a considerar uns aos outros e fazer toda uma série de movimentos do corpo e do espírito. 

Trata-se de um vasto campo de aprendizagem, para todos que vivem em família e contribuem para compor uma pequena história em comum, que adquire um grande significado para cada um. Reparar erros, mudar condutas, ser gentil e atencioso, desafiar as exigências do próprio ego, cair de cansaço e, encontrar bons motivos e alentos que dificultam e facilitam a luta pela vida com significado. 

Sem significado, a vida não passa de um grande movimento pela sobrevivência. E, mesmo assim, o espírito da espécie agradece. 

Se fosse fácil não precisaria ser um Pronunciamento. Bastaria ser uma lei. Não há soluções fáceis para todos os conflitos familiares. Nem sabemos como realizar mudanças imprevistas e indesejadas sem sofrer, sem reclamar, sem querer desistir. Algumas soluções, porém, não devem ser descartadas. Especialmente as soluções ditadas pelo amor incondicional. E, não havendo amor, buscar as soluções possíveis em nome da honra a que pais e filhos se obrigam e por onde todos desenvolvem seus mais elevados valores de caráter. 

Se fosse fácil honrar pai, não haveria de ser um Pronunciamento. Bastaria promulgar uma lei dos homens. Mas, não. É uma lei imposta pelo Criador, uma autoridade maior do que qualquer um de nós, mais gigante que todos nós que habitamos e, convivemos em várias dimensões, neste nosso multiverso. 

Estar presente. Mostrar-se presente. Significar a presença. Honrar pai e mãe significa: honrar os papéis e os consequentes deveres que assumimos ao trazer uma vida a este mundo. Tornarmo-nos uma pessoa honrada, em nome dos nossos filhos. E, também, significa honrar nossos pais, por eles terem nos trazido até aqui. 

Honrar não significa gostar, nem concordar, nem esquecer as muitas dores que eles possam ter-nos causado. Mas é fazer a parte de que nos cabe, gostando ou não. E fazê-la com nobreza e espírito elevado, porque – assim como cada filho é um filho - pai e mãe só temos um em nossas vidas. Podemos ser outros pais: de afeto, por afinidade. Fazem a vez de pai: os mentores, os apoiadores, os que cuidam de nós e nos colocam no bom caminho. Fazem a vez de mãe: as nutrizes, as que alimentam e, que nos conduzem ao longo do bom caminho. Existem pais adotivos. Existem pais por afinidade. Existem pais por afinidade e identificação. Existem pais amorosos e, também os terríveis, que são pessoas ‘que não valem um tostão’, como diriam os antigos. Alguns pais e mães são tão adoráveis e desagradáveis, quanto temíveis. 

Pais, filhos e irmãos formam uma unidade que pode ser rompida e se mostrar disfuncional, mas que não pode ser dissolvida. Pais não são o problema. Filhos não são o problema. E irmãos não são o problema. Não há problema. Há algo maior a ser desenvolvido e cultivado: o cuidado com a família sempre. Existe a experiência de doar e de se doar para quem, talvez e, muito provavelmente, não nos dará de volta o que recebe ou recebeu de cada um de nós. Mas o retorno sempre advirá em relação às atitudes e condutas que tomamos. Não se faz isso porque o outro nos fez aquilo. Não, essa não é a resposta de uma alma livre. Honra-se pai e mãe só porque eles existem. E devemos honrá-los até depois deles já não estarem mais vivos e presentes. A eles e a seus pais e pais dos seus pais, nossos ancestrais. 

Uma comunidade é tanto mais estável e confiável, quanto mais presta honrarias aos antepassados, celebrando datas de acontecimentos, espacialmente as datas de chegada e de partida. Honramos com as nossas atitudes e com a nossa palavra: por meio das admoestações quando nossos filhos fazem coisas erradas. E, também, quando lhes damos nossas bendições. 

A honra não é vivida em segredo. Ela exige uma manifestação pública e uma concretude que seja percebida pela própria pessoa e por todos os demais. Estar presente em um momento de júbilo, bem como estar presente numa hora de amargor. Estar presente e existir, de fato, na vida uns dos outros: pais, filhos e irmãos. Mesmo na ocorrência de brigas inevitáveis, saber que podemos contar com a nossa família. 

A vida é de mão única e flui num único sentido: primeiro os avós, depois os filhos e depois os netos. A inversão dessa ordem é impraticável, por isso sentimos tanto pesar quando ela se inverte. Os privilégios devem, portanto, ser conferidos aos que aqui primeiro chegaram. Honrar pai e mãe é outra concessão de privilégio que agora cabe aos filhos e netos praticar, primeiro passo para a aprendizagem da devoção, a expressão de um amor incondicional. 

Na infância não precisamos provar nosso amor aos nossos pais. A nossa simples existência já lhes basta. Conforme nossos pais e avós envelhecem, o amor que é natural se converte, futuramente, em uma sábia escolha existencial: fazemos, então, a tradução deste amor em palavras e gestos de gratidão e honra, para com eles, fontes primordiais, por onde fluem todas as vidas. 


Ana Fraiman, abril de 2016. Fonte: https://www.revistapazes.com/5440-2/
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segunda-feira, 21 de maio de 2018

A Geração “Floco De Neve”: Pessoas Sensíveis Que Se Ofendem Por Tudo

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Quando imaginamos um floco de neve, nós o associamos à beleza e singularidade, mas também à sua enorme vulnerabilidade e fragilidade. Estas são precisamente duas das características que definem as pessoas que atingiram a idade adulta na década de 2010. Afirma-se que a geração “floco de neve” seja formada por pessoas extremamente sensíveis aos pontos de vista que desafiam sua visão do mundo e que respondem com uma suscetibilidade excessiva às menores queixas, com pouca resiliência.
A voz de alarme, por assim dizer, foi dada por alguns professores de universidades como Yale, Oxford e Cambridge, que notaram que a nova geração de alunos que frequentavam suas aulas era particularmente suscetível, não tolerante à frustração e particularmente inclinados fazerem uma tempestade em um copo de água.

Cada geração reflete a sociedade que eles viveram

Dizem que as crianças saem mais ao padrão da sua geração que aos pais. Não há dúvida de que, para entender a personalidade e o comportamento de alguém, é impossível abstrair do relacionamento que estabeleceu com seus pais durante a infância e a adolescência, mas também é verdade que os padrões e expectativas sociais também desempenham um papel importante no estilo educacional e moldam algumas características de personalidade. Em resumo, podemos dizer que a sociedade é a terra onde a semente é plantada e crescida e os pais são os jardineiros que são responsáveis por fazer crescer.
Isso não significa que todas as pessoas de uma geração respondam ao mesmo padrão, felizmente há sempre diferenças individuais. No entanto, não se pode negar que as diferentes gerações têm metas, sonhos e formas de comportamento característico que são o resultado das circunstâncias que tiveram que viver e, em alguns casos, tornam-se inimagináveis em outras gerações.
Claro, o mais importante é não colocar rótulos, mas analisemos para entender o que está na base desse fenômeno, para não repetir os erros e para que possamos dar a devida importância a habidades de vida tão importantes quanto a Inteligência Emocional e a resiliência.

3 erros educacionais colossais que criaram a geração “floco de neve”

1. Superproteção. A extrema vulnerabilidade e escassa resiliência desta geração têm suas origens na educação. Estes são, geralmente, crianças que foram criadas por pais super protetores, dispostos a pavimentar o caminho e resolver o menor problema. Como resultado, essas crianças não teve a oportunidade de enfrentar as dificuldades e conflitos do mundo real e desenvolver tolerância à frustração, ou resiliência. Não devemos esquecer que uma dose de proteção é necessária para que as crianças cresçam em um ambiente seguro, mas quando impede que explorem o mundo e limite seu potencial, essa proteção se torna prejudicial.
2. Sentido exagerado de “eu”. Outra característica que define a educação recebida pelas pessoas da geração “floco de neve” é que seus pais os fizeram sentir muito especiais e únicos. Claro, somos todos únicos, e não é ruim estar ciente disso, mas também devemos lembrar que essa singularidade não nos dá direitos especiais sobre os outros, já que somos todos tão únicos quanto os outros. O sentido exagerado de “eu” pode dar origem ao egocentrismo e à crença de que não é necessário tentar muito, uma vez que, afinal, somos especiais e garantimos o sucesso. Quando percebemos que este não é o caso e que temos que trabalhar muito para conseguir o que queremos, perdemos os pontos de referência que nos guiaram até esse momento. Então começamos a ver o mundo hostil e ameaçador, assumindo uma atitude de vitimização.
3. Insegurança e catástrofe. Uma das características mais distintivas da geração do floco de neve é que eles exigem a criação de “espaços seguros”. No entanto, é curioso que essas pessoas tenham crescido em um ambiente social particularmente estável e seguro, em comparação com seus pais e avós, mas em vez de se sentir confiante e confiante, temem. Esse medo é causado pela falta de habilidades para enfrentar o mundo, pela educação excessivamente superprotetiva que receberam e que os ensinou a ver possíveis abusos em qualquer ação e a superestimar eventos negativos transformando-os em catástrofes. Isso os leva a desejarem se bloquear em uma bolha de vidro, para criar uma zona de conforto limitado onde eles se sintam seguros.
Para entender melhor como a educação recebida afeta uma criança, é importante ter em mente que as crianças procuram pontos de referência em adultos para processar muitas das experiências que experimentam. Isso significa que uma cultura paranóica, que vê abusos e traumas por trás de qualquer ato e responde com sobreproteção, gerará efetivamente crianças traumatizadas. A forma como os adultos enfrentam uma situação particularmente delicada para a criança, como um caso de abuso escolar, pode fazer a diferença, levando a uma criança que consegue superar e se torna resiliente ou uma criança que fica com medo e torna-se uma criança vítima

Qual é o resultado?

O resultado de um estilo de parentesco superprotetivo, que vê o perigo em todos os lugares e promove um sentido exagerado de “eu”, são pessoas que não possuem as habilidades necessárias para enfrentar o mundo real.
Essas pessoas não desenvolveram tolerância suficiente à frustração, então o menor obstáculo os desencoraja. Nem desenvolveu uma Inteligência emocional adequada, então eles não sabem como lidar com as emoções negativas que certas situações suscitam.
Como resultado, eles se tornam mais rígidos, se sentem ofendidos por diferentes opiniões e preferem criar “espaços seguros”, onde tudo coincide com suas expectativas. Essas pessoas são hipersensíveis à crítica e, em geral, a todas as coisas que não se encaixam na visão do mundo.
Também são mais propensos a adotar o papel das vítimas, considerando que estão todos contra ou equivocados. Desta forma, eles desenvolvem um local de controle externo, colocando a responsabilidade sobre os outros, em vez de se encarregar de suas vidas e mudar o que podem mudar.
O resultado também é que essas pessoas são muito mais vulneráveis ao desenvolvimento de transtornos psicológicos, do estresse pós-traumático à ansiedade e à depressão. Na verdade, não é estranho que o número de transtornos de humor aumente ano após ano.

Fonte:
Mistler, BJ et. Al. (2012) The Association for University and College Counseling Center Directors Annual Survey Reporting. Pesquisa do AUCCCD ; 1-188
Este artigo foi publicado originariamente no site Rincón de la Psicología
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sábado, 6 de janeiro de 2018

Tenham filhos

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“Se eu pudesse dar só um conselho para os meus amigos, seria esse: tenham filhos. Pelo menos um. Mas se possível, tenham 2, 3, 4… Irmãos são a nossa ponte com o passado e o porto seguro para o futuro. Mas tenham filhos.
Filhos nos fazem seres humanos melhores.
O que um filho faz por você nenhuma outra experiência faz. Viajar o mundo te transforma, uma carreira de sucesso é gratificante, independência é delicioso. Ainda assim, nada te modificará de forma tão permanente como um filho.
Esqueça aquela história de que filhos são gastos. Filhos te tornam uma pessoa com consumo consciente e econômica: você passa a comprar roupas na Renner e não na Calvin Klein, porque no fim, são só roupas. E o tênis do ano passado, que ainda tá novinho e confortável, dura 5 anos… Você tem outras prioridades e só um par de pés.
Você passa a trabalhar com mais vontade e dedicação, afinal, existe um pequeno ser totalmente dependente de você, e isso te torna um profissional com uma garra que nenhuma outra situação te daria. Filhos nos fazem superar todos os limites.
Você começa a se preocupar em fazer algo pelo mundo. Separar o lixo, trabalho comunitário, produtos que usam menos plástico… Você é o exemplo de ser humano do seu filho, e nada pode ser mais grandioso que isso.
Sua alimentação passa a importar. Não dá pra comer chocolate com coca-cola e oferecer banana e água pra ele. Você passa a cuidar melhor da sua saúde: come o resto das frutas do prato dele, planta uma horta pra ter temperos frescos, extermina o refrigerante durante a semana. Um filho te dá uns 25 anos a mais de longevidade.
Você passa a acreditar em Deus e aprende como orar. Na primeira doença do seu filho você, quase como instinto, dobra os joelhos e pede a Deus que olhe por ele. E assim, seu filho te ensina sobre fé e gratidão como nenhum padre/pastor/líder religioso jamais foi capaz.
Você confronta sua sombra. Um filho traz a tona seu pior lado quando ele se joga no chão do mercado porque quer um pacote de biscoito. Você tem vontade de gritar, de bater, de sair correndo. Você se vê agressivo, impaciente e autoritário. E assim você descobre que é só pelo amor e com amor que se educa. Você aprende a respirar fundo, se agachar, estender a mão para o seu filho e ver a situação através de seus pequenos olhinhos.
Um filho faz você ser uma pessoa mais prudente. Você nunca mais irá dirigir sem cinto, ultrapassar de forma arriscada ou beber e assumir a direção, pelo simples fato de que você não pode morrer (não tão cedo)… Quem é que criaria e amaria seus filhos da mesma forma na sua ausência?! Um filho te faz mais do que nunca querer estar vivo.
Mas, se ainda assim, você não achar que esses motivos valem a pena, que seja pelo indecifrável que os filhos têm.
Tenha filhos para sentir o cheiro dos seus cabelos sempre perfumados, para ter o prazer de pequenos bracinhos ao redor do seu pescoço, para ouvir seu nome (que passará a ser mãmã ou pápá) sendo falado cantado naquela vozinha estridente.
Tenha filhos para receber aquele sorriso e abraço apertado quando você chegar em casa e sentir que você é a pessoa mais importante do mundo inteirinho pra aquele pequeno ser. Tenha filhos para ganhar beijos babados com um hálito que Listerine nenhum proporciona. Tenha filhos para vê-los sorrirem como você e caminharem como o pai, e entenda a preciosidade de se ter uma parte sua solta pelo mundo. Tenha filhos para re-aprender a delícia de um banho cheio de espuma, de uma bacia de água no calor, de rolar com o cachorro, de comer manga sem se limpar.
Tenha filhos.
Sabendo que muito pouco você ensinará. Tenha filhos justamente porque você tem muito a aprender. Tenha filhos porque o mundo precisa que nós sejamos pessoas melhores ainda nessa vida.”



Por Bruna Estrela
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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O psiquiatra Lyle Rossiter nos comprova que o esquerdismo é uma doença mental




Geralmente vemos esquerdistas se referirem a quem é da direita como um “louco da direita”, e daí por diante. O problema é que a crença da direita é coerente até com o que a teoria da evolução tem a nos dizer. Enquanto isso, a crença esquerdista é baseada em quê? É isso que começamos a investigar de uma forma mais clínica a partir do livro The Liberal Mind: The Psychological Causes of Political Madness, de Lyle Rossiter, lançado em 2011.
Conforme a review da Amazon, já notamos a paulada que será dada nos esquerdistas:
Liberal Mind traz o primeiro exame profundo da loucura política mais relevante em nosso tempo: os esforços da esquerda radical para regular as pessoas desde o berço até o túmulo. Para salvar-nos de nossas vidas turbulentas, a agenda esquerdista recomenda a negação da responsabilidade pessoal, incentiva a auto-piedade e outro-comiseração, promove a dependência do governo, assim como a indulgência sexual, racionaliza a violência, pede desculpas pela obrigação financeira, justifica o roubo, ignora a grosseria, prescreve reclamação e imputação de culpa, denigre o matrimônio e a família, legaliza todos os abortos, desafia a tradição social e religiosa, declara a injustiça da desigualdade, e se rebela contra os deveres da cidadania. Através de direitos múltiplos para bens, serviços e status social não adquiridos, o político de esquerda promete garantir o bem-estar material de todos, fornecendo saúde para todos, protegendo a auto-estima de todos, corrigindo todas as desvantagens sociais e políticas, educando cada cidadão, assim como eliminando todas as distinções de classe. O esquerdismo radical, assim, ataca os fundamentos da liberdade civilizada. Dadas as suas metas irracionais, métodos coercitivos e fracassos históricos, juntamente aos seus efeitos perversos sobre o desenvolvimento do caráter, não pode haver dúvida da loucura contida na agenda radical. Só uma agenda irracional defenderia uma destruição sistemática dos fundamentos que garantem a liberdade organizada. Apenas um homem irracional iria desejar o Estado decidindo sua vida por ele, ao invés e criar condições de segurança para ele poder executar sua própria vida. Só uma agenda irracional tentaria deliberadamente prejudicar o crescimento do cidadão em direção à competência, através da adoção dele pelo Estado. Apenas o pensamento irracional trocaria a liberdade individual pela coerção do governo, sacrificando o orgulho da auto-suficiência para a dependência do bem-estar. Só um louco iria visualizar uma comunidade de pessoas livres cooperando e ver nela uma sociedade de vítimas exploradas pelos vilões.
O que temos aqui, na obra de Rossiter, é o tratamento do esquerdismo de forma clínica, por um psiquiatra forense. (Um pouco mais no site do autor do livro, e um pouco mais sobre sua prática profissional)
O modelo de mente esquerdista
O livro é bastante analítico, e, por vezes, até chato de se ler. Quem está acostumado a livros de fácil leitura de autores conservadores de direita, como Glenn Beck e Ann Coulter, pode até se incomodar. Outro livro que fala do mesmo tema é Liberalism Is a Mental Disorder: Savage Solution, de Michael Savage. Mas o livro de Savage é também uma leitura informal, embora séria. O livro de Rossiter é acadêmico, de leitura até difícil, sem muitas concessões comerciais, e de um rigor analítico simplesmente impressionante. Se não é sua leitura típica para curar insônia, ao menos o conteúdo poderoso compensa o tratamento seco e acadêmico dado ao tema.
Segundo Rossiter, a mente esquerdista tem um padrão, que se reflete tanto em um padrão comportamental, quanto um padrão de crenças e alegações. Portanto, é possível “modelar” a mente do esquerdista a partir de uma série de padrões. A partir daí, Rossiter investiga uma larga base de conhecimento de desordens de personalidade, e usa-as para modelar os padrões de comportamento dos esquerdistas. Segundo Rossiter, basta observar o comportamento de um esquerdista, mapear suas crenças e ações, e compará-los com os dados científicos a respeito de algumas patologias da mente. A mente esquerdista pode ser classificada como um distúrbio de personalidade por que as crenças e ações resultantes deste tipo de mentalidade se encaixam com exatidão no modelo psiquiátrico do distúrbio de personalidade. As análises de Rossiter são feitas tanto nos contextos individuais (a crença do cidadão esquerdista em relação ao mundo), como nos contextos corporativos (ação de grupo, endosso a políticos profissionais, etc.).
Rossiter nos lembra que a personalidade é socializada pelos pais e pela família, como uma parte do desenvolvimento infantil. Mesmo com a influência do ambiente escolar, são os pais que preparam a criança para o futuro. A partir disso, ele avalia o que é um desenvolvimento sadio, para desenvolver uma personalidade apta a viver em um mundo orientado a valorização da competência, dentro do qual essa personalidade deverá reagir. Uma personalidade sadia reagiria bem a esse mundo já sem a presença dos pais, enquanto uma personalidade com distúrbio não conseguiria o mesmo sucesso. Em cima disso, Rossiter avalia a personalidade desenvolvida com os itens da agenda esquerdista, demonstrando que muitos itens dessa agenda estão em oposição ao desenvolvimento sadio da personalidade.
Para o seu trabalho, Rossiter classifica os esquerdistas em dois tipos: benignos e radicais. Os radicais são aqueles cujas ações (agenda) causam dano a outros indivíduos. De qualquer forma, os esquerdistas benignos (seriam os moderados) dão sustentação aos esquerdistas radicais.
Rossiter define o homem como uma fonte autônoma de ação, ao mesmo tempo em que está envolvido em relações, como as econômicas, sociais e políticas. Isto é definido por Rossiter como a Natureza Bipolar do Homem, pois mesmo que ele seja capaz de ação independente, também é restrito pelo contexto social, na cooperação com os outros. A partir dessa constatação, tudo o mais flui. Para permitir que o homem seja capaz de operar com sucesso em seu ambiente natural, deve existir um desenvolvimento adequado da personalidade. Este desenvolvimento da personalidade surge a partir dos outros, idealmente a mãe e a família.
Outro ponto central: toda a análise de Rossiter é feita no contexto de uma sociedade livre, não de uma sociedade totalitária. Portanto, ele avalia o quão alguém é sadio em termos de personalidade para viver em uma sociedade democrática, e não em uma sociedade formalmente totalitária, como Coréia do Norte, Cuba ou China, por exemplo.
Competência em uma sociedade livre
Fica claro que não devemos esperar de Rossiter avaliação sobre um modelo de personalidade para toda e qualquer sociedade, pois ele é bem claro em seu intuito: desenvolver e estudar personalidades competentes para a vida em uma sociedade livre. A manutenção de tal sociedade requer regras para existir, que devem ser codificadas em leis, hipóteses, assim como regras do senso comum.
Nesse contexto, as habilidades a seguir são aquelas de um adulto competente em uma sociedade com liberdade organizada:
  • Iniciativa – Fazer as coisas acontecerem.
  • Atuação – Agir com propósito.
  • Autonomia – Agir independentemente.
  • Soberania-  Viver independentemente, através da tomada de decisão competente.
Rossiter define os direitos naturais do homem, para uma pessoa adulta vivendo em uma sociedade de liberdade organizada. Estes compreendem o exercício, conforme qualquer um escolher, das habilidades selecionadas acima, todas elas sujeitas às restrições necessárias para uma sociedade com paz e ordem. Assim, direitos naturais resultam da combinação de natureza humana e liberdade humana. Natureza humana significa viver como alguém quiser, sujeito as restrições necessárias para paz e ordem.
Considerando estes atributos humanos, Rossiter define como uma ordem social adequada, aquela que possui os seguintes aspectos:
  1. Honra a soberania do indivíduo
  2. Respeita a liberdade do indivíduo.
  3. Respeita a posse de propriedade e integridade dos contratos.
  4. Respeita o princípio da igualdade sob a lei.
  5. Requer limites constitucionais, para evitar que o governo viole os direitos naturais.
Os aspectos acima são avaliados na perspectiva do indivíduo, não de grupos ou classes, em um processo relacionado à individuação, conceito originado em Jung. Neste processo, o ser humano evolui de um estado infantil de identificação para um estado de maior diferenciação, o que implicará necessariamente em uma ampliação da consciência. A partir daí, surge cada vez mais o conhecimento de si-mesmo, em detrimento das influências externas. Eventuais resistências à individuação são causas de sofrimento e distúrbios psiquícos.
Segundo Rossiter, o indivíduo adulto que passou adequadamente pelo processo de individuação assume de forma coerente seu direito a vida, liberdade e busca da felicidade. Mesmo assim, isso não significa que ele pode fazer o que quiser, pois deve respeitar o individualismo dos outros e interagir com eles através da cooperação voluntária. Assim, o individualismo deve ser associado com mutualidade, para o desenvolvimento de um adulto competente para viver em uma sociedade de liberdade organizada.
Rossiter estuda com afinco as características de desenvolvimento do invidíduo, de acordo com regras pelas quais ele pode viver em uma sociedade de liberdade organizada, e lista sete direitos individuais do cidadão comum, dentro dos quais ele pode exercitar sua autonomia, livre da interferência do governo:
  1. Direito de auto-propriedade (autonomia)
  2. Direito de primeira posse (para controlar propriedade que não tenha sido de posse de ninguém antes)
  3. Direito de posse e troca (manter, trocar ou comercializar)
  4. Direito de auto-defesa (proteção de si próprio e da proriedade)
  5. Direito de compensação justa pela retirada (a partir do governo)
  6. Direito a acesso limitado (a propriedade dos outros em emergências)
  7. Direito a restituição (por danos a si próprio ou propriedade)
Estes são normalmente chamados de direitos naturais, direitos de liberdade ou direitos negativos. O governo deve ser estruturado para proteger estes direitos, e precisa ser estruturado de forma que não infrinja-os.  A obrigação do governo em uma sociedade de liberdade organizada envolve implementar e sustentar estas regras para proteger o cidadão de infrações cometidas tanto por outros como pelo próprio governo.
Eis que surge o problema da mente esquerdista, que quer atacar basicamente todos os pilares acima. Em cima disso, Rossiter levanta as crenças da mente esquerdista, que, juntas, dão um fundamento do modelo da mente deles:
  1. Modelos sociais ideais tradicionais estão ultrapassados e não se aplicam mais.
  2. A direção do governo é melhor do que ter os cidadãos tomando conta de si próprios.
  3. A melhor fundação política de uma sociedade organizada ocorre através de um governo centralizado.
  4. O objetivo principal da política é alcançar uma sociedade ideal na visão coletiva.
  5. A significância política do invidíduo é medida a partir de sua adequação à coletividade.
  6. Altruísmo é uma virtude do estado, embutida nos programas do estado.
  7. A soberania dos indivíduos é diminuída em favor do estado.
  8. Direitos a vida, liberdade e propriedade são submetidos aos direitos coletivos determinados pelo estado.
  9. Cidadãos são como crianças de um governo parental.
  10. A relação do indivíduo em relação ao governo deve lembrar aquela que a criança possui com os pais.
  11. As instituições sociais tradicionais de matrimônio e família não são muito importantes.
  12. O governo inchado é necessário para garantir justiça social.
  13. Conceitos tradicionais de justiça são inválidos.
  14. O conceito coletivista de justiça social requer distribuição de riqueza.
  15. Frutos de trabalho individual pertencem à população como um todo.
  16. O indivíduo deve ter direito a apenas uma parte do resultado de seu trabalho, e esta porção deve ser especificada pelo governo.
  17. O estado deve julgar quais grupos merecem benefícios a partir do governo.
  18. A atividade econômica deve ser cuidadosamente controlada pelo governo.
  19. As prescrições do governo surgem a partir de intelectuais da esquerda, não da história.
  20. Os elaboradores de políticas da esquerda são intelectualmente superiores aos conservadores.
  21. A boa vida é um direito dado pelo estado, independentemente do esforço do cidadão.
  22. Tradições estabelecidas de decência e cortesia são indevidamente restritivas.
  23. Códigos morais, éticos e legais tradicionais são construções políticas.
  24. Ações destrutivas do indivíduo são causadas por influências culturais negativas.
  25. O julgamento das ações não deve ser baseado em padrões éticos ou morais.
  26. O mesmo vale para julgar o que ocorre entre nações, grupos éticos e grupos religiosos.
Como tudo na vida, o aceite de crenças tem consequências. No caso do aceite das crenças esquerdistas, consequências incluem:
  1. Dependência do governo, ao invés de auto-confiança.
  2. Direção a partir do governo, ao invés da auto-determinação.
  3. Indulgência e relativismo moral, ao invés de retidão moral.
  4. Coletivismo contra o individualismo cooperativo.
  5. Trabalho escravo contra o altruísmo genuíno.
  6. Deslocamento do indivíduo como a principal unidade social econômica, social e política.
  7. A santidade do casamento e coesão da família prejudicada.
  8. A harmonia entre a família e a comunidade prejudicada.
  9. Obrigações de promessas, contratos e direitos de propriedade enfraquecidos.
  10. Falta de conexão entre premiações por mérito e justificativa para estas premiações.
  11. Corrupção da base moral e ética para a vida civilizada.
  12. População polarizada em guerras de classes através de falsas alegações de vitimização e demandas artificiais de resgate político.
  13. A criação de um estado parental e administrativo idealizado, dotado de vastos poderes regulatórios.
  14. Liberdade invididual e coordenação pacífica da ação humana severamente comprometida.
Aliás, eu acho que Rossiter esqueceu de consequências adicionais como: (15) Aumento do crime, devido a tolerância ao crime, e (16) Incapacidade de uma base lógica para que a sociedade sequer tenha condição de julgar o status em que se encontra.
Por que a mente esquerdista é uma patologia?
Para Rossiter, a melhor forma de avaliar a mente do esquerdista é a através dos valores que ele tem, e os que ele rejeita. Mais:
Como todos os outros seres humanos, o esquerdista moderno revela seu verdadeiro caráter, incluindo sua loucura, nos valores que possui e que descarta. De especial interesse, no entanto, são os muitos valores sobre os quais a mente esquerdista não é apaixonada: sua agenda não insiste em que o invidívuo é a principal unidade econômica, social e política, ele não idealiza a liberdade individual em uma estrutura de lei e ordem, não defende os direitos básicos de propriedade e contrato, não aspira a ideais de autonomia e reciprocidade autênticas. Ele não defende a retidão moral ou sequer compreende o papel crítico da moralidade no relacionamento humano. A agenda esquerdista não compreende uma identidade de competência, nem aprecia sua importância, e muito menos avalia as condições e instituições sociais que permitam seu desenvolvimento ou que promovam sua realização. A agenda esquerdista não compreende nem reconhece a soberania, portanto não se importa em impor limites estritos de coerção pelo estado. Ele não celebra o altruísmo genuíno da caridade privada. Ele não aprende as lições da história sobre os males do coletivismo.
Rossiter diz que as crianças não nascem com este “programa”, que é adquirido especialmente durante o aprendizado escolar. Em resumo: um adulto, competente para operar em uma sociedade de liberdade organizada, na maior parte das vezes adquire estes valores dos pais e da família, mas um esquerdista radical não.
Basicamente, o esquerdismo pode ser caracterizado como uma neurose, baseada nos traumas do relacionamento com a família durante o desenvolvimento da personalidade. Sendo uma neurose de transferência, ela compreende as projeções inconscientes das psicodinâmicas da infância nas arenas políticas da vida adulta. É o resultado de uma falha no treino da criança nos elementos psicodinâmicos básicos de um adulto, competente para viver em uma sociedade de liberdade organizada. (Obviamente, um esquerdista jamais irá reconhecer as “fendas” em seu desenvolvimento de criança até um adulto)
Rossiter nos diz mais:
Sua neurose é evidente em seus ideais e fantasias, em sua auto-justiça, arrogância e grandiosidade, na sua auto-piedade, em suas exigências de indulgência e isenção de prestação de contas, em suas reivindicações de direitos, em que ele dá e retém, e em seus protestos de que nada feito voluntariamente é suficiente para satisfazê-lo. Mais notadamente, nas demandas do esquerdista radical, em seus protestos furiosos contra a liberdade econômica, em seu arrogante desprezo pela moralidade, em seu desafio repleto de ódio contra a civilidade, em seus ataques amargos à liberdade de associação, em seu ataque agressivo à liberdade individual. E, em última análise, a irracionalidade do esquerdista radical é mais aparente na defesa do uso cruel da força para controlar a vida dos outros.
Agora fica mais fácil entender por que os esquerdistas são tão frustrados e raivosinhos em suas interações, não?
Os cinco déficits principais do esquerdista
Um esquerdista apresenta, segundo Rossiter, cinco principais déficits, cada um mais evidente nas diversas fases do desenvolvimento, desde os primeiros meses após o nascimento, até a entrada da fase adulta.
Confiança básica: O primeiro déficit relaciona-se a confiança básica. Isto é, a falta de confiança nos relacionamentos entre pessoas por consentimento mútuo. Por isso, o esquerdista age como se as pessoas não conseguissem criar boas vidas por si próprios através da cooperação voluntária e iniciativa individual. Por isso, colocam toda essa coordenação nas mãos do estado, que funciona como um substituto para os pais. Se a criança não consegue conviver com os irmãos, precisa de pais como árbitros. Este déficit inicia-se no primeiro ano de vida. As interações positivas de uma criança com a mãe o introduzem a um mundo de relacionamento seguro, agradável, mutuamente satisfatório e a partir do “consentimento” entre ambas as partes. Mas caso exista um relacionamento anormal e abusivo na infância, algo de errado ocorre, e essa aquisição de confiança básica é profundamente comprometida. Lembremos que a ingenuidade é problemática, mas o esquerdista é ingênuo perante o governo, que tem mais poder de coerção, enquanto suspeita dos relacionamentos humanos não abitrados pelo governo.
Autonomia: Após os primeiros 15 meses, uma criança começa a incorporar os fundamentos de autonomia, auto-realização, assim como fundamentos de mutualidade, ou auto-realização (assim como realização dos outros). A partir dessa fase, a criança começa a agir por si própria para ter suas necessidades satisfeitas, de acordo com aqueles que cuidam dela. Junto com a ideia de autonomia, surgem ideias como auto-confiança, auto-direção e auto-regulação. A criança “mimada”, que cresce dependente do excesso de indulgência dos pais é privada das virtudes de auto-confiança e auto-controle e de atitudes necessárias para cooperação com os outros.
Iniciativa: No desenvolvimento normal, esta é a capacidade de se iniciar bons trabalhos para bons propósitos, sendo desenvolvida nos primeiros quatro ou cinco anos da vida de uma criança. No caso da falta de iniciativa, há falta de auto-direção, vontade e propósito, geralmente buscando relacionamentos com os outros de forma infantil, sempre pedindo por condescendência, ao invés de lutar para ser respeitado. Pessoas como esta personalidade normalmente assumem um papel infantil em relação ao governo, votando para aqueles que prometem segurança material através da obrigação coletiva, ao invés de votar naqueles comprometidos com a proteção da liberdade individual. A inibição da iniciativa pode ocorrer por culpa excessiva adquirida na infância, surgindo, por instância, do completo de Édipo.
Diligência: Assim como a iniciativa é a habilidade de iniciar atos com boas metas, diligência é a habilidade para completá-los. A criança, no seu desenvolvimento escolar, se torna apta a completar suas ações de forma cada vez mais competente. Na fase da diligência, a criança aprende a fazer e realizar coisas e se relacionar de formas mais complexas com pessoas fora de seu núcleo familiar. A meta desta fase é o desenvolvimento da competência adulta. É a era da aquisição da competência econômica e da socialização. Nessa fase, se aprende a convivência de acordo com códigos aceitos de conduta, de acordo com as possibilidades culturais de seu tempo, de forma a canalizar seus interesses na direção da cooperação mútua. Quando as coisas não vão muito bem, surgem desordens comportamentais, uso de drogas, ou delinquência, assim como o surgimento de ações que sabotam a cooperação. A tendência é a geração de um senso de inferioridade, assim como déficits nas habilidades sociais, de aprendizado e identificações construtivas, que deveriam ser a porta de entrada para a aquisição da competência adulta. Atitudes que surgem destas emoções patológicas podem promover uma dependência passiva comportamental como uma defesa contra o medo diante das relações humanas, vergonha, ou ódio.
Identidade: O senso de identidade do adolescente é alterado assim que ele explora várias personas, múltiplas e as vezes contraditórias, na construção de seu self. Ele deve se confrontar com novos desafios em relação ao balanço já estabelecido entre confiança e desconfiança, autonomia e vergonha, iniciativa e culpa, diligência e inferioridade. Esta fase testa a estabilidade emocional que foi desenvolvida pela criança, assim como sua racionalidade, sendo de adequação e aceitabilidade, superação de obstáculos, e o aprofundamento das habilidades relacionais. O desenvolvimento desta identidade adulta envolve o risco percebido de acreditar nas instituições sociais. O adulto quer uma visão do mundo na qual possa acreditar. Isto é especialmente importante se ele sofreu formas de abuso anteriormente. Sua consciência ampliada de quem ele é facilita uma integração entre suas identidades do passado e do presente com sua identidade do futuro. Nesta fase do desenvolvimento o jovem pode ser vítima das ofertas ilusórias do esquerdismo. É a fase “final” da escolha.
Uma cura para o esquerdismo?
Com uma identidade mantida por uma série de neuroses, o esquerdista não consegue mais assumir responsabilidades pelos seus atos, e muito menos pelas consequências de suas ações. Tende a se fazer de vítima para conseguir o que quer, e não se furta em mentir para conseguir seus objetivos. É quando podemos questionar: há uma cura para isso tudo? Possivelmente, mas a questão é que o esquerdista deve buscar ajuda por si próprio, mas quanto mais ele estiver recebendo reforço de seus grupos, menos vontade ele terá para fazê-lo. Ao contrário, mesmo com tantos déficits e tamanhos delírios, ele sempre julgará estar com a razão.
Diante disso, quem pode fazer algo pelos esquerdistas são os direitistas, mas isso só pode acontecer pela via da refutação e do desmascaramento de suas ações. Incapazes de julgarem seus próprios atos, jamais se deve confiar no auto-julgamento de um esquerdista. Todas as auto-rotulagens e outro-rotulagens tendem a ser mentirosas, assim como seus argumentos. A refutação de uma parte externa, não contaminada pela ideologia esquerdista, é a única alternativa que pode dar um fio de esperança ao esquerdista.
Entretanto, mesmo que ainda exista esperança para o esquerdista, os maiores afetados são os não-esquerdistas, que possuem suas vidas impactadas por suas crenças. Por isso, as nossas ações não devem ser realizadas primeiramente em prol de salvar os esquerdistas de suas patologias (envergonhando-o, por suas mentiras, assim como denunciando suas chantagens emocionais) , mas sim por salvar-nos das consequências de suas neuroses e psicoses.
Nesse intento, entender por que eles achem assim, como eles se sentem, e o que os tornou assim, passa a ser essencial. Neste ponto, a obra de Lyle Rossiter é simplesmente um achado.
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Fonte: https://ceticismopolitico.com/2013/02/26/o-psiquiatra-lyle-rossiter-nos-comprova-que-o-esquerdismo-e-uma-doenca-mental/
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