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domingo, 11 de agosto de 2019

Precisamos de menos Whatsapp e mais abraços!









Vivemos em uma era de tecnologia, temos ao nosso dispor todas as ferramentas necessárias para nos conectarmos com pessoas do mundo todo, redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas e de chamadas de vídeo e mais muitos outros. Isso é muito positivo, porque podemos nos manter próximos das pessoas que amamos, ainda que estivermos do outro lado do mundo.
No entanto, por outro lado, vemos cada vez mais pessoas presas no mundo virtual e isoladas daqueles que estão ao seu lado.

Isso é alarmante e nos mostra que é necessário discutirmos sobre a influência da tecnologia nos relacionamentos interpessoais físicos, no “mundo real”. É muito bom conhecer pessoas de diferentes nacionalidades e culturas e é ótimo manter contato com nossos amigos e familiares que moram longe através da internet, mas substituir ou negligenciar a presença física, os abraços, as conversas sinceras, os momentos de diversão não é saudável para nós. Somos seres sociais que prosperam no relacionamento com o outro, e por isso as mensagens de texto e emojis nunca serão a nossa verdadeira maneira de nos mostrarmos ao mundo.

As redes sociais, apesar de nos aproximarem de quem está longe, também nos afasta daqueles que estão perto, isso é um fato que se percebe mesmo na mais rápida análise da sociedade. As pessoas se falam cada vez menos, não se olham nos olhos e não sabem mais como criar relacionamentos ao vivo porque estão ocupadas demais olhando para as telas de seus celulares.
Precisamos simplificar nossas vidas novamente, estabelecendo um equilíbrio entre vida real e vida online.

Precisamos de mais abraços e menos Whatsapp, de mais momentos e menos mensagens, de mais intensidade, viver momentos com nossas almas, de uma conexão mais profunda com nós mesmos e com as pessoas ao nosso redor. Devemos aprender a nos aceitar mais como somos e dependermos menos de curtidas para reconhecermos nossa verdadeira beleza e dons.

Os benefícios da tecnologia são inegáveis e sua influência em nosso mundo tem a parte positiva, mas precisamos aprender como usá-la para nos alavancar e não limitar, para que seja um complemento positivo para as nossas vidas, mas para que não se torne nossas vidas.

A era digital nos abre um novo mundo, mas não deve substituir o que já temos, os relacionamentos, as conversas, os carinhos, o amor.

Um dispositivo eletrônico nunca será melhor do que uma verdadeira companhia, não devemos nos acostumar a viver atrás de uma tela, não quando temos um grande e maravilhoso mundo para habitar. Muitas coisas, apenas a vida real pode nos oferecer.

Por isso, acrescente mais realidade à sua vida! Saia do celular e celebre as pessoas que estão com você. Abrace, procure para conversar, viaje, sinta o máximo que puder com as pessoas em sua vida. Nada pode substituir a verdadeira felicidade proporcionada pelos bons momentos compartilhados ao lado de outra pessoa. Esse é um dos bens mais preciosos da vida!


Luiza Fletcher • 23 de novembro de 2018
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domingo, 9 de setembro de 2018

A Geração do Nada Pode e sua Hipocrisia Social

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O avanço da tecnologia, o amplo alcance das redes sociais e o predomínio de uma intensa hipocrisia social estão formando gerações de crianças e jovens que baseiam seus posicionamentos em meros achismos, que não respeitam os mais velhos, que menosprezam valores fundamentais e que acham que podem literalmente mandar em seus pais.

A chamada Geração Hipocrisia do século XXI está pronta para compartilhar tudo nas redes sociais, mas não está preparada para reflexões e para se comprometer com causas maiores. É uma geração que valoriza o número de visualizações no Youtube, que se importa com o poder da imagem e do culto ao corpo, mas é incapaz de se envolver com o próximo.

Vivemos um tempo repleto de contradições, no qual os pais temem educar seus filhos com rigor, são extremamente permissivos e, muitas vezes, não são capazes de transmitir valores importantes aos jovens, como tolerância, respeito, compaixão e amor ao próximo. Ao mesmo tempo, vivemos uma época onde o politicamente correto está forte, onde os paladinos da justiça social estão sempre prontos para atacar os outros atrás da tela de um computador e onde as relações sociais estão rasas, ou seja, sem profundidade. Falta empatia, sensibilidade e conhecimento.

A internet revela as hipocrisias diárias da sociedade. Tudo o que vemos nas redes é simplesmente um retrato fiel de uma sociedade que é incapaz de se sensibilizar com o sofrimento de quem está nas ruas, mas que está sempre pronta para julgar.

É como se passássemos por uma falência generalizada de nossos valores, fazendo reinar a desesperança e a violência. Vivemos a época da cegueira moral e da hipocrisia covarde.

Além disso, essa geração também é representada pela banalização, pela perda de boas referências, pela falta de leitura e senso crítico e pelo esvaziamento do pensamento. Basta analisar o significado da palavra hipocrisia para notar como a sociedade está em um caminho preocupante, marcado pela falsidade, pela dissimulação, pelo fingimento e pelo desvio de caráter.

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domingo, 12 de agosto de 2018

TESTAMENTO DE UM IDOSO

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Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. 
Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?” - pensou o advogado. 
Anotou todos os dados e ia deixando a residência, quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.
Na foto estava o velho. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. 
Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.
Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. 
Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.
Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver..
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(Desconheço o autor)
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domingo, 22 de julho de 2018

Três relatos ridículos

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Então, ela me diz, com voz abafada: "As festas na escola viraram um inferno para as meninas, como eu, que gostam de meninos". Eis o primeiro relato ridículo.

A escola pode ser tanto uma instituição de nível médio como superior. O tipo de inferno descrito é o mesmo. Descrever-se como pertencente a um grupo definido como "meninas que gostam de meninos" soa um tanto estranho para quem não convive com os jovens de hoje, esmagados entre todo tipo de modinha identitária que quer, a todo custo, dizer que "meninas que gostam de meninos" não são maioria.

Minha fonte (são muitas, na verdade) tem medo de ser identificada na escola como sendo aquela que denunciou o inferno em que se transformaram as festas. Que inferno é esse, afinal?

Um nova prática ocorre nessas festas. "Coletivos" vigiam o comportamento dos meninos que gostam de meninas.

Esses coletivos pretendem garantir que não haverá assédio. O clero medieval mais tarado não teria uma ideia tão diabólica em suas condenações ao pecado da carne. Como se vigia isso numa festa? Você fica olhando de perto os casais héteros possíveis? Você exigirá ouvir as conversas deles? Obrigará aos meninos fazer uma confissão de "intenção culposa" a priori?

Ou os beijos seriam supervisionados? Como passar as mãos, de forma privada, nos seios das meninas que gostam de meninos? Tanto os meninos quantos as meninas precisam ser detalhadamente escrutinados em seus comportamentos se quisermos ter certeza de que o "amasso" é politicamente correto. O velho ódio ao sexo está por detrás desses "coletivos".

Haverá, como havia na Cuba revolucionária, "métodos de analise de comportamento", nesse caso, para identificar como um menino que gosta de meninas paquera ou assedia? Na Cuba revolucionária, tais "métodos de análise de comportamento" eram dedicados a identificar o que os marxistas de raiz chamavam de "degeneração burguesa", a saber, o homossexualismo (termo fora de uso hoje).

Os meninos, então, tornam-se tímidos, temerosos de estarem cometendo algum "delito de comportamento" e, por consequência, afastam-se das meninas que gostam deles, inclusive, por temerem que, em algum momento, serão objeto de denúncia. Todo mundo que não é mentiroso sabe que a "caça às bruxas" em matéria de comportamento moral sempre deságua em taras inquisitoriais. Tais "coletivos", na verdade, nada mais são do que espíritos fascistas, com pautas novas de violência.

Um amigo europeu me conta, assustado, que lá, no continente perfeito, um movimento cresce, chamado "igualdade na aviação". Eis o segundo relato ridículo. E o que é essa "igualdade na aviação"?

Trata-se da pressão para acabar com a classe executiva e distribuir o espaço dentro do avião de forma igualitária. Risadas? Alguns milímetros a mais. E o mundo se dobraria à inveja, ao ressentimento e à raiva. Nunca mais uma pessoa teria o direito de trabalhar mais e pagar uma classe executiva para seduzir ainda mais sua namorada apaixonada.

Nunca mais, depois de anos de trabalho, alguém poderia pagar no cartão em cinco vezes sua viagem dos sonhos até o Japão de classe executiva, aos 70 anos.

Uma amiga, também da Europa, indignada, me conta que há um novo ativismo radical na França. Eis o terceiro relato ridículo. Não se trata de fundamentalismo islâmico matando ocidentais sujos, mas sim de fundamentalistas veganos ameaçando açougueiros franceses. Risadas?

Frases como "carne é assassinato" e "basta de especismo" são pintadas nas vitrines dos açougues. A raiz conceitual é o trabalho do filósofo Peter Singer. Segundo este utilitarista, animais são seres sencientes: podem não ter consciência da dor como nós, mas têm o bastante em termos de sensibilidade, logo, não podemos pensar neles como "comida", como se fossem objetos.

A analogia é com o racismo, que entendia que negros eram inferiores e, por isso, eram "feitos" para a escravidão. "Especismo" é achar que os animais seriam inferiores e, por isso mesmo, podem ser comidos.

A analogia é linda, mas a ideia é típica de quem fica muito tempo no escritório delirando. A natureza se devora. Alimentar crianças só com rúcula é coisa de torturador infantil. Modinha de riquinho entediado.

É tudo pecado para esses ridículos. Assim como nos outros relatos ridículos, o mundo avança, de novo, para viver sob o controle da mente inquisitorial que odeia tudo que não cabe na cabecinha e na vidinha dela.

Mundo feio este. Sem sexo, sem conforto e sem gosto.





Luiz Felipe Pondé - Imagem: Ricardo Cammarota/Folhapress
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/07/tres-relatos-ridiculos.shtml

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“Quem somos?”

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Neste início de ano, o noticiário nos impõe uma pergunta pouco confortável: quem somos?

Ninguém de nós responderia “eu sou um dos revoltosos do presídio Anísio Jobim”, assim como nenhum de nós contou as cabeças decepadas dos rivais, filmando a cena para exibi-la – ou exibir-se- nas redes sociais. Nós não somos os bárbaros.

Bárbaros são sempre os outros. Mas um bárbaro ou uma matilha de bárbaros ou hostes de bárbaros não aparecem por acaso, não têm geração espontânea. Sobretudo quando inseridos em uma sociedade que se pretende civilizada, os bárbaros são um produto.

Em geral, produto de uma barbárie menos aparente. Fabrica-se um bárbaro colocando três para viver onde só um caberia. Ajuda-se um bárbaro a tomar plena posse de sua barbárie colocando-o num ambiente propício. Bárbaros exercitam melhor sua barbárie quando armados e com acesso a celulares. Pode-se enxertar barbárie numa criança privando-a de proteção, educação e de um ambiente adequado ao seu crescimento. Bárbaros proliferam melhor sem esgotos do que postos em uma universidade. Bárbaros se alimentam e se multiplicam graças a exemplos de barbárie bem sucedida.

Quem somos? Nenhum de nós é aquele que viu os dois primos matando a socos o ambulante indefeso, cujo único crime havia sido defender uma travesti. Nenhum de nós é o que passou mais rápido e nada fez para impedir o assassinato. Muito menos somos aquele que, sorrateiro, aproximou-se do morto para roubar-lhe o celular que já não lhe serviria.

Nenhum de nós é um prefeito sumido do posto depois de ter sumido com outras coisas. Nenhum de nós, ao retirar-se do cargo público que exercia levou o computador ou a mesa. Nenhum de nós foi buscar o filho em um condomínio, na manhã de domingo, depois de uma festa de réveillon, a bordo de um helicóptero do estado. Nós não somos aquele que percorreu cerca de 300 quilômetros de carro, procurando o lugar melhor para desovar ou queimar o corpo do homem que havia assassinado e que levava na mala. Nós não somos sequer aqueles que escreveram “Fora Lésbica!”, sem esquecer o ponto de exclamação, em um quadro imantado destinado a atividades infantis.

O problema é que a pergunta não se pretende individual. Não se trata de saber quem sou eu ou quem é você. Trata-se de saber quem somos nós, os brasileiros, como sociedade. De como nos vemos e de como somos vistos.

O morticínio do presídio foi notícia no mundo inteiro. O olhar que se pousa sobre nós fez-se mais denso.

E aqui, o horror que sentimos diante do massacre de Manaus é o mesmo que sentimos diante dos repetidos massacres do EI? As cabeças cortadas, de um lado e do outro, têm para nós o mesmo peso? O fato de uns serem reféns inocentes e os outro serem bandidos faz diferença?

Ou estamos mais preocupados com os 80 e tantos que fugiram pelo túnel ameaçando a tranquilidade fora do presídio, do que com os que mataram ou foram mortos?

Na foto publicada na primeira página de O Globo de terça-feira, mostrando o lado de fora do Anísio Jobim há, entre os familiares, duas mulheres encapuzadas, só olhos de fora. Pode ser temor de um eventual gás lacrimogêneo, ou medo de ser reconhecida por elementos da facção rival à do seu parente. O enfrentamento não se limita ao recinto do presídio.

Nem se limita à luta entre uma facção de traficantes e outra. O enfrentamento mais amplo e mais fundo se situa, já faz tempo, entre a sociedade que somos e a que queremos ser.


Marina Colasanti - Fonte: https://www.pensarcontemporaneo.com/quem-somos/

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Martha Medeiros num texto perfeito!

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"Só quem atravessa ao menos cinco décadas de vida pode entender a bênção que é entrar na segunda juventude.

Claro que antes é preciso passar pelo purgatório.

Poucos chegam aos 50 anos sem fazer uma profunda reflexão sobre a finitude, e dá um frio na barriga, claro. Amedronta principalmente quem ainda não fez nem metade do que gostaria de já ter feito a essa altura. Será que vai dar tempo?
Passado o susto, a resposta: vai.

E se não der, não tem problema. Você não precisa morrer colecionando vontades não realizadas. Troque de vontades e siga em frente sem ruminar arrependimentos. Você finalmente atingiu o apogeu da sua juventude: é livre como nunca foi antes.

Então, não passe mais nem um dia ao lado de alguém que lhe esnoba, lhe provoca, que não se importa com seus sentimentos. Pare de inventar razões para manter seus infortúnios, você já fez sacrifícios suficientes, agora se permita um caminho mais fácil.

Se ainda dá trela a fantasmas, se ainda pensa em vingancinhas ordinárias, se ainda não perdoou seus pais e seu passado, se ainda perde tempo com vaidades e ambições desmedidas, se ainda está preocupado com o que os outros pensam sobre você, está pedindo: logo, logo virará um caco.

Para alcançar e merecer a segunda juventude, é preciso se desapegar de todas aquelas preocupações que havia na primeira. Quando essa Juventude Parte 2 terminar, não virá a Juventude Parte 3, mas o fim.

Ou seja, esta é a última e deliciosa oportunidade de abandonar os rancores, não perder mais tempo com besteiras e dar adeus à arrogância, à petulância, à agressividade, ou seja, adeus às armas, aquelas que você usava para se defender contra inimigos imaginários.

Agora ninguém mais lhe ataca, só o tempo – em vez de brigar contra ele, alie-se a ele, tome o tempo todo para si.

Eu sei que você teve problemas, e talvez ainda tenha – muitos. Eu também tive, talvez não tão graves, depende da perspectiva que se olha.

Mas isso não pode nos impedir a graça de sermos joviais como nunca fomos antes. Lembra quando você dizia que só gostaria de voltar à adolescência se pudesse ter a cabeça que tem hoje? Praticamente está acontecendo.

Essa é a diferença que tem que ser comemorada. Na primeira juventude, tudo vai acontecer. Na segunda, está acontecendo."

Namastê / Ubuntu!

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O desespero em busca de um relacionamento e a Síndrome do Sapo Fervido

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A primeira pergunta é: relacionamentos amorosos são necessários?Muitos têm a resposta fixa que sim, alguns, após inúmeras frustrações dizem que não, e poucos vêm relacionamento como um bônus ao atingir a maturidade.

As frustrações quando superadas e entendidas são boas, pois nos reaproximam de nós mesmos e concedem oportunidades para o autoconhecimento, que possivelmente foi relegado e por isso a escolha do parceiro não foi adequada.

Já os que vivem incansavelmente em busca de um companheiro, não conhecem a beleza da própria companhia e estão emocionalmente vulneráveis. A caçada incansável por uma companhia é a procura por não ficar sozinho consigo mesmo, pois a própria companhia é desagradável ou tem pouco ou quase nada a oferecer. Pessoas que não toleram a solidão acreditam que o outro é responsável pela sua felicidade. Palavras duras? Talvez, mas duro mesmo é o que as pessoas aceitam ou impõem aos outros quando são pedintes afetivos, e isso inclui inúmeras violências - psicológicas, físicas, morais, sexuais e patrimoniais. Sempre escrevo sobre o viés jurídico das relações afetivas e suas violências, mas o melhor é não precisar do Direito Penal para puni-las.

1. PESSOAS NÃO REALIZAM OS NOSSOS SONHOS

Um dos principais equívocos humanos é acreditar que o outro realizará os nossos sonhos, e depositar a própria felicidade nisso. Mas relacionamento não é sobre necessidade, sobre receber, ser complementado ou completar alguém, relacionamento é doação, é presentear o outro com a sua presença, mas só podemos nos doar quando estamos completos, e só doamos aquilo que temos.

2. PEDINTE AFETIVO

Quando se busca a felicidade - que é algo interno e pessoal, na companhia de outra pessoa - você desvaloriza o que você é, provavelmente porque não se conhece e desacredite de si. A dependência emocional te faz exigir do outro aquilo que você não faz e aquilo que você não é, assim como o aceite de tudo e qualquer tratamento, sentimento e pessoas.

Na busca incansável por companhia, você esquece que a principal, única e absoluta companhia é a sua, e somente ela resolverá os seus problemas e conflitos. Na busca desordenada pelo outro, esquece-se que relacionamento é negociação, mas principalmente, que existem “coisas” que são inegociáveis, entre elas a sua paz e a sua moral. Pela necessidade de parceiro negocia-se tudo em troca de afeto, mas afeto não se pede.

3. CASTRAÇÃO

O desespero para ter companhia ou permanecer ao lado de outra pessoa é imenso, e nessa imensidão a pessoa pratica a autocastração, se anula, abre mão da individualidade, abandona os prazeres, e vive em prol do outro. Transforma-se o relacionamento numa fusão, sem saber quem é quem e porque é; perde-se as próprias características, anula-se, e torna-se uma sombra do outro. Posteriormente atinge o estágio da cobrança, e exige que o outro também faça o mesmo e viva em prol da relação, afinal, a pessoa fez o sacrifício – tolo - e que ninguém pediu, do abandono de si mesmo, mas que já começou antes mesmo do relacionamento.

4. POSSE, INVASÃO E VIOLÊNCIAS

Após a anulação de si, o indivíduo que já começou o relacionamento buscando completar as próprias faltas através do outro, encontra-se ainda mais vulnerável e dependente. Pela ausência de amor próprio e pelo tempo livre, afinal, abandonou a própria vida então o tempo ocioso se estendeu, passa os dias e horas na expectativa de atenção, e quer a todo custo ser importante e presente, assim como o seu “objeto de amor” é na sua vida.

O lazer do outro, que até então não incomodava, passa a ser motivo de vigília constante, assim como os horários, companhias e quando não recebe convite para participar de alguma programação isso vira brigas, ciúmes e acusações de traição e todo tipo de situação que uma mente criativa e desocupada é capaz de criar.

As acusações constantes e cobranças por afeto desgastam o relacionamento e o outro vai embora (e a pessoa fica num vazio ainda maior, pois se fundiu a outrem); o outro não entende as agressões verbais e por vezes físicas e permanece sufocado, prestes a explodir ou o outro se aproveita dessa situação e retribui as acusações e violências – as vezes inconscientemente, pois muitos não compreendem a situação que vivem e vêm as agressões como defesa, e isso vira um ciclo, o pedinte afetivo sufoca e violenta o companheiro e o companheiro as vezes se defende retribuindo as agressões.

A verdade é que os nossos relacionamentos são iguais as relações que temos conosco, você se anula, não se respeita, não confia em você e não gosta da própria companhia, logo é exatamente isso que fará e receberá. Você é incompleto, logo encontrará alguém que também é; você está no relacionamento para saciar as suas necessidades e vampirizar o outro, então é isso que receberá. A solidão e ausência de autoconhecimento dá asas aos abusos e violências.

5. HOSTILIZAÇÃO E DISPUTA DE PODER

Hostilizar o outro também é comum, como forma de dominação e demonstração de poder, quando existe insegurança. A hostilização é uma das representações dos maus tratos, que é uma violência psicológica, naturalizada, sutil, aceita, difícil de provar, entretanto de danos superiores a violência física, pela capacidade lentamente destrutiva.

A violência psicológica diminui a autoestima, aumenta a dependência, promove a desvalorização pessoal, e o indivíduo que já entrou no relacionamento incompleto, passa a crer que é incapaz de viver sozinho e agride o outro para tentar dominá-lo e enfraquece-lo a ponto de se sentir impotente e que não merece outra pessoa. Consequentemente, meio a tanta agressão, o companheiro já com a autoestima baixa não se sente desejado, e aceita as relações sexuais por medo da perda; tem medo de tomar decisões e desagradar e se omite, pouco a pouco também se castra, mas a agressora continua a responsabilizar o outro pelas frustrações e pratica terrorismos constantes, como reflexo da sua insegurança, com cobranças desmedidas até que o outro acredite nisso e peça desculpas, se humilhe, porém nunca ficará satisfeita, pois ninguém soluciona o vazio alheio.

Pode ocorrer o contrário também, quando a pedinte afetiva se encontra em tamanha vulnerabilidade que aceita toda e qualquer agressão, sem retribuir, simplesmente por se achar incapaz.

6. INÍCIO DAS AGRESSÕES

A violência começa no namoro, porém é ignorada, aceita e gradativamente aumenta. O indivíduo, dependente afetivo, que se torna agressor, continua violento, pois o outro, também carente e incapaz de viver sozinho aceita; ou o dependente afetivo se torna presa fácil de quem detém o “poder” da relação, mas que também é inseguro, pois necessita de violência para se auto afirmar.

“Mas ela mudou de comportamento de uma hora para a outra”. NÃO!

“Mas ele nunca fez nada nem próximo disso”. NÃO!

“Mas ela estava na TPM”. NÃO!

“Mas ele bebeu um pouco”. NÃO!

“Mas foi só uma vez”. NÃO!

Não, não e não! A agressão não começa do nada, ela é paulatina. Não existe justificativa para tal, nem causas hormonais, que podem ser controladas, nem o uso de álcool e drogas, que apenas “libertam” o que a pessoa omite, e tampouco a agressão – independente da espécie – ocorrerá uma única vez. PARE DE SE ENGANAR E DE ENGANAR O OUTRO!

Mas as violências são relevadas, afinal o status quo de estar num relacionamento é melhor que estar só, segundo o pensamento da maioria.

A principal agressão ocorre quando se busca um relacionamento ausente de conhecimento, sem saber o que pode ou não oferecer, o que agrada ou desagrada e enxerga o outro como válvula de escape para os problemas não resolvidos. Isso é uma receita completa para a frustração, aumento de traumas, sofrimento e violências, sofridas ou perpetradas.

7. TIPOS DE VIOLÊNCIA

Erroneamente acredita-se que violência afetiva se restringe a violência física, todavia ela também é moral, patrimonial, sexual e psicológica. Culturalmente acredita-se ainda, que apenas a mulher é sujeito passivo da violência conjugal, entretanto, violência não tem gênero e tanto homens quanto mulheres podem e são vítimas – mas ao homem é negado o direito de fala, e proteção legal.

A violência psicológica, praticada massivamente pelo sexo feminino e naturalmente aceito na sociedade brasileira, envolve xingamento, agressões verbais, ameaças de infidelidade, humilhação, acusações, constrangimentos em público, desqualificação, privação de contato com a família e amigos, abusos, autoritarismos, chantagens emocionais, vigilâncias e perseguições (pessoalmente ou em redes sociais) e qualquer outra conduta danosa a autoestima ou que controle ações, para causar ciúmes e insegurança. A violência psicológica está contida nas demais formas de violência, e esta principalmente reduz a autoconfiança masculina.

Violência física é a agressão que ofende a saúde ou integridade física, como tapas, pontapés, socos, empurrões, chutes, queimaduras, agressões com instrumentos variados (entre eles, faca, ferro de passar roupa e vassoura), estigmas ungueais (ou arranhões de amor), arremesso de objetos (o preferido das mulheres).

Violência moral, calúnia (art. 138, Código Penal), injúria (art. 140, Código Penal) e difamação (art. 139, Código Penal), com o objetivo de destruir a reputação do outro.

Violência sexual, culturalmente definida como crime impossível a ser praticado por mulheres, essa ocorre com frequência, quando o homem é submetido contra a sua real vontade a tocar a companheira ou ter relações sexuais, tendo sua masculinidade a prova ou o descumprimento do dever conjugal, assim como parceiras que insistem que o companheiro use remédio para aumentar a duração das ereções, sem se importar com a saúde deste; bem como homens que insistem em relações sexuais com as esposas contra a sua vontade. Faz-se mister ressaltar, que a insistência por não usar preservativo, assim como práticas sexuais que desagradam o outro, também é violência sexual.

Violência patrimonial: quebra ou destruição de objetos, usualmente praticado pelas mulheres em estado de descontrole e fúria, celular, som, televisão, porta de carro, bem como a retenção de bens e gastos financeiros que seriam destinados ao pagamento das despesas do casal, utilizado para o deleite da mulher, como forma de punição ou exigência de algo almejado, material ou afetivo; e homens que impedem a parceira de trabalhar e ter independência financeira.

Permanecer na constante violência torna o indivíduo dependente, acostumado as agressões, naturalizando-as e retira-lhe a sensibilidade para o inaceitável e impraticável.

8. SÍNDROME DO SAPO FERVIDO

Muitos que vivem relacionamentos abusivos se perguntam porque permanecem nessa situação, e não conseguem um fim, ou sentem-se mal, mas ao mesmo tempo têm a sensação que já se adaptaram ás violências. Para esse tipo de pessoa existe uma metáfora conhecida como “Síndrome do Sapo Fervido”, que diz o seguinte:
“O Sapo quando é colocado numa panela com água quente não suporta aquela temperatura, salta imediatamente conseguindo sobreviver. Entretanto, quando o mesmo sapo é colocado numa panela com água fria e, gradualmente, essa água vai aquecendo, ele não percebe o calor. Fica parado e quieto. Morre, depois de algum tempo, inchado e feliz”.

Assim como o sapo fervido são as pessoas, que se acomodam com a situação destrutiva, não querem sair dela, acreditam em milagres ou creem que não há outra solução. O sapo fervido pode ter as suas necessidades primárias atendidas, mas em breve morrerá. O sapo suporta a temperatura da água durante muito tempo, até o seu limite, assim como as pessoas que se submetem a relacionamentos conturbados até serem completamente vampirizadas e ficarem sem nenhuma energia, correndo perigo constante, mas não viu necessidade de pular da panela, cuja água aquece cada vez mais e queima pouco a pouco, até que não exista energia e força para saltar.

Mas o que mata o sapo não é água fervendo, é a preguiça, medo ou comodismo em não pular, e a água agradável, naquele momento. Talvez seja hora de saltar da panela, enquanto é tempo; talvez você não deva entrar nela. A exploração psicológica, financeira, física e sexual não tem limites e é você que deve colocar um basta ou nem mesmo começar uma relação se está suscetível afetivamente e incompleto. As vezes a solução não é aguentar o desconforto e esperar, mas saltar, saltar enquanto há forças e vida dentro de você.

Assim como a água aumenta a sua temperatura, os ponteiros do relógio passam, e a vida é demasiadamente breve para aceitar o sofrimento, a violência e a própria incompletude. Você só é infeliz se quiser, a felicidade está nas suas mãos, não na presença do outro. Não é o outro que tem que mudar, é você que tem que ter a coragem de saltar; saltar dessa situação, saltar da inercia, saltar do comodismo, saltar das vulgaridades e saltar com todas as suas forças o mais alto que puder, para se conhecer e se completar com as próprias belezas que só você carrega e pode adubar.

9. OBSERVAÇÃO E AUTOCONHECIMENTO

Voltando a pergunta inicial: relacionamentos amorosos são necessários? Responderia que não e que são arriscados e danosos aos que não estão prontos para lidar com o mundo do outro, pois não sabem nem mesmo lidar consigo. Companhia é divertido, poder compartilhar momentos, mas relacionamento é para ser leve, e essa leveza só atingimos com maturidade – maturidade que não depende de idade, mas de autoconhecimento.

Relacionamentos são bônus que as vezes temos, as vezes não. Pessoas são coadjuvantes em nossa vida, cujo ator principal é você. Se você for completo, terá algo a oferecer, terá o que doar, e consequentemente será uma pessoa agradável, sem cobranças e pesos, e atrairá outra pessoa assim, disposta a doação e não a exigências, e que poderá dividir alguma época com você, mas quando resolver sair da sua vida, não se sentirá vazio, pois você permaneceu com sua individualidade, mundo, personalidade e diferente da maioria, não se castrou e fundiu ao outro.

O autoconhecimento te mostrará que não deve ser aberto e aceitar qualquer ideia e pessoa, pois isso leva a autodestruição. Você buscará o semelhante, afinal as divergências que eram divertidas no início, com o passar do tempo viram fardos. Você mesmo fará inteligentemente uma lista com as qualidades que gosta e as que repele numa pessoa. Você analisará os efeitos colaterais antes de tomar o remédio, ao invés de ingerir pela simples propaganda. Você terá a paciência de distinguir o que é publicidade do que é interno. Você terá a racionalidade de compreender não o que a pessoa diz de si mesma, mas o que ela combate. Você se reconciliará consigo mesmo ou se encontrará pela primeira vez. Você, quando estiver completo não aceitará menos que o merecido, pois terá paz e não irá se submeter a situações e pessoas que te retire algo tão precioso. Você não ficará numa disputa de poder e autoritarismos, mas delimitará o seu território, pautado no conhecimento de si e sua individualidade, com admiração, respeito e dignidade. Relacionamento demanda racionalidade, assim você não será vítima nem infratora, mas estará pronta para construir lentamente um relacionamento.

Se dê o presente de se conhecer, não peça nada, não cobre nada, doe sorriso, doe atenção. O sentido da vida não é cobrar, quando você se ama não precisa de nada, você está completo e assim pode acrescentar na vida do outro. Amor é ser um presente, e não alguém que usurpe a paz alheia. Amor é serenidade, afeto, ausência de medo, completude, sensatez e respeito, a si e ao mundo do outro, é uma construção gradativa.

Quando você se conhece identifica o que faz mal e as violências precocemente, se afasta e salva a sua vida. Não seja o sapo que espera a água ferver. Tempo é vida e relacionamento demanda autoconhecimento!

"Algum dia, em qualquer parte, em qualquer lugar, indefectivelmente, encontrar-te-ás a ti mesmo e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga das tuas horas." – Pablo Neruda


Publicado por Sara Próton - Fonte: http://www.pensarbemviverbem.com.br/o-desespero-em-busca-de-um-relacionamentoea-sindrome-do-sapo-fervido/

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quarta-feira, 4 de julho de 2018

O melhor "ISTA" é ser OTIMISTA!

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Todo ano a mesma peregrinação: mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista...

Mas, um dia, resolvi incluir um "ISTA" novo em minha odisséia... Um DERMATOLOGISTA.

Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos ENTA.

Na verdade, sentia-me espetacular. Tudo certo. Ninguém podia cantar para mim a ridícula frase da Adriana Calcanhoto, "nada ficou no lugar...." Mas, não sei o que deu no espelho lá de casa, que resolveu, do dia pra a noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, de bruxas. E deu de mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido (ou, antes, eu não havia notado!)

Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda... olheiras mais profundas...

Como assim???

Assim... Sem aviso prévio nem nada. De repente, o idiota resolveu mostrar e pronto.

Ah, não! Isso não vai ficar assim. Um "ista" novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os "istas"! Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro 'bem intencionado', daqueles em que a gente escolhe a roupa íntima com cuidado, que é pra não fazer feio, sem 
parecer que foi uma escolha proposital...sabe como é que é, não? 

Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e cutucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade... Assim, me armei de humildade. Disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando, através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto.

Depois de fazer uma ficha com meus dados, o 'doutor' me olhou finalmente nos olhos, e perguntou: Qual o motivo de sua consulta?

Fiquei vermelha como um tomate. E muda. Ele sorriu e esperou.

Quase de olhos fechados, desfiei minhas queixas...

Ele observou, 'in loco', cada uma delas, com uma luz de 200 watts e uma lupa... E começou o seu diagnóstico.

As pintinhas são sinais do sol, por todo o sol que já tomou na vida. Com a IDADE (tóin!), elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir inclusive. Braços, pernas e rosto e pescoço. 


E praia? Evite. Só das 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda-sol, óculos escuros e chapéu. Bronzear-se, nunca mais.'

-Ahmmm... (a turma só chega às 11 h!!!!)

-'Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo nos saltos altos.Evite. Use sapatos com solado anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica Kendall, para quando tiver que usar saltos altos. 

-Ahmmm... (Kendall??? E as minhas preciosas sandalinhas???) 

-'As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias que calças. Evite o jeans e as calcinhas de lycra. As de algodão puro são as melhores... E folgadas...' 

-Ahmnunght?? ?? (e pude 'ver' as "samba-canções" de minha mãe, enormes na cintura, de florzinhas cor de rosa..... vou cortar os pulsos!). 

-'As olheiras são de família. Não há muito que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir e procure não dormir tarde. 

Alimentação leve, com muitas frutas e verduras, pouca carne e muito peixe. Nada de cigarro, nem álcool... Nem café.'

E, então, a histérica aqui começou a rir descontroladamente... 
 
Agradeci, peguei suas receitinhas e saí rindo, rindo.... Me dobrando de tanto rir! 

No carro comecei a falar sozinha...
 
Tudo o que deveria ter dito ao médico e não disse: 

'Trabalho muito, doutor,... muitas noites vou dormir às 2 horas da matina, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio nas noites de boemia com os amigos e seus violões para as serenatas de lua cheia... E que noitadas!!!! 

Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossível a meia elástica (argh!!). Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas... E não abandono meu jeans nem sob ameaça de morte!!! É meu melhor amigo!!!! 

Dormir lambuzada? Nesse calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite? 

E nada de praia??? O senhor está louco é??? Endoidou de vez, foi??? Moro no Recife, com esse marzão e tudo...E tenho só 40 anos.... Meia vida inteira pela frente!!! 

Doutor Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito trinta anos em um!!! Até um dia desses tinha 39... E agora, em vez de 40, estou fazendo 70???

Inclua aí na sua lista de remédios... para as de 40 a 60, "média-luz"... Acho que é só disso que eu preciso.Um bom abajur com uma luz de 15 watts... 

E um namorado que use óculos... É isso... só isso!!! Entendeu????

Parei no sinal e olhei de lado... e um cara de uns 25 anos piscou o olhou para mim. Ah... e ele nem usava óculos!

Nunca fiz o que me recomendou o fulustreco "ista"... 

Minhas olheiras são parte de meu charme.. E valem o que faço pelas noites adentro... Ah!!! como valem! As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do 'bruxo mau'. Os sinaizinhos estão aqui... sem grandes alardes... e até que já acho bonitinho. 

O espelho é muito menor... o outro, eu doei à minha filha.

Meu namorado diz que estou cada dia mais linda! Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música.

É claro que ele usa óculos. Mas quando quero ficar fatal, tiro seus óculos... e acendo o abajur. 

Nora Borges - Fonte: http://carolina-carvalho.blogspot.com/2011/02/o-melhor-ista-e-ser-otimista.html

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terça-feira, 26 de junho de 2018

IDOSOS ÓRFÃOS DE FILHOS VIVOS – OS NOVOS DESVALIDOS.

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Este artigo é uma dura crítica ao modo com que pais e sogros, na atualidade, têm sido desprezados por seus filhos e agregados. Em especial, os pais de mais idade, que têm necessidades básicas: de atenção e carinho, que lhes têm sido negadas pela insensibilidade e egoísmo de seus filhos, que preferem entreter-se com as novas tecnologias, do que conversar com familiares. Este comportamento transmite aos netos, não a noção, mas a certeza de que bastam algumas poucas visitas, rápidas e ocasionais, alguns telefonemas semanais, um almoço ou jantar de vez em quando, um acompanhamento ao médico necessário, para cumprir o que lhes caberia fazer pela saúde e bem-estar dos mais velhos. Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Em tempos anteriores, quando vieram das áreas rurais para as cidades, tão logo estabilizadas, os migrantes de tudo fizeram para trazer seus pais para junto de si de modo a recompor a família esfacelada pelos movimentos migratórios. Estando em Brasília, certa, ouvi o relato emocionado de um senhor, analfabeto, que agradecia ao filho por tê-los, a ele e sua esposa, tirado do sertão para escapar à fome e sede do corpo e, à tristeza da solidão. A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças. Finalizou, o candango: - Hoje temos casa toda mobiliada e temos saúde. Não falta nada de nada. Nossos filhos foram maravilhosos. Nossos netos estudaram nas melhores escolas. Dois deles são doutores. Não conhecemos direito os bisnetos. Eu e minha esposa, que Deus a tenha, fomos muito pobres, de não ter sapato, de dormir embrulhados em folhas de jornal. Mas nunca sentimos uma coisa: falta de carinho, falta de respeito. Os meus filhos, sim, eles reclamam que os filhos deles não têm tempo nem para uma visitinha. Ficam o fim de semana todo lá sentados um olhando para o outro, enquanto os mais jovens da família fazem churrasco com os amigos e eles não são convidados. 

A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião. Separação e responsabilidade Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. 

Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam. 

São pais de mais idade que estão vivos, porém esvaziados de um lar pelo que tanto lutaram. Pode-se dizer, infelizmente, que pais idosos, com filhos presentes em suas vidas constituem-se numa crescente raridade. Os filhos se aproximam quando há doença grave a ser tratada. Pagam tratamento e cuidadores e, pela presença de muitos estranhos na vida dos seus pais idosos, pessoas que cumprem com suas funções, enquanto eles, os filhos trabalham, viajam, se divertem e se encerram em seus programas exclusivos de ‘só para adultos’ e ‘só para adolescentes’ de um lado, e ‘só para gente da sua idade’ de outro. Pais de mais idade que são visitados por filhos e netos com quem conversam e vez por outra passeiam, parecem se constituir numa minoria crescente. Tornaram-se eles, os pais, complacentes em relação aos filhos que não têm tempo para nada. Pais desvalidos.

Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. 

Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar. 

Disso sabem as mulheres cujo ex-marido abandonou os filhos do casal, as mulheres sobrecarregadas pelos afazeres que lhes pesam nos ombros pelas frequentes ausências de seus bem sucedidos maridos, os quais garantem alto padrão de vida, porém baixa quantidade e qualidade de relacionamento conjugal e familiar.

Sabem, também, as mulheres que se afirmaram longe de suas famílias, em busca de uma carreira brilhante e que não tiveram filhos. Como se tê-los fosse garantia de não estarem sozinhas em momentos importantes de suas vidas. 

Chama atenção que os aposentados se ressentem por não se sentirem mais úteis. Não falam em solidariedade, mas em utilidade, de significado intrinsicamente ligado à produtividade. O sucesso da atividade útil é mensurado pelo que as pessoas fazem e possuem e, não pelo que são, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos interpessoais. Dificilmente uma pessoa terá seu valor reconhecido se não for através da qualidade dos relacionamentos que tem com a família, com a sociedade e o mundo. É o olhar do outro que afirma o ser. Até mesmo o mendigo, o morador de rua mais maltrapilho, será bem visto, caso alimente um cachorro que o acompanhe. 

O ser humano é, por excelência, um ser de relações. De nada vale aos filhos, quando os pais cobrem-nos de presentes materiais, mas descuidam de dar-lhes sua presença autêntica. Filhos apreciam o conforto e os bens que seus pais lhes propiciam, mas entre o partilhar experiências e ganhar tudo que se deseja, os filhos sempre elegem a presença dos seus próprios pais. A necessidade da presença do outro na vida de relacionamentos é crucial. Presença atenta e, em sendo possível, amorosa. Se desejarmos ferir profundamente a alma de uma criança, basta ignorá-la. Ignorar, ironizar, desdenhar é um trio maldito de forças de ataque a qualquer ego, da infância à alta velhice. Começamos por apontar as necessidades básicas da infância. A verdade é que esta necessidade, de fundo cognitivo e emocional, é permanente ao longo da vida, mesmo que as distrações aconteçam. 

Crianças apartadas sem contato afetivo, sem presença nem conversa, podem resultar hipodotadas no futuro. E não se sabe o que é pior: tornar-se um adulto funcionalmente comprometido ou sem a menor capacidade empática. O contato humano, desde a mais tenra infância é primordial para a aprendizagem das habilidades sociais e aquisição de valores nobres, de caráter e de comportamento moral. O mesmo é válido para idosos excluídos da sociedade maior e, principalmente apartados do convívio com seus familiares. 

Por mais que se adote uma família de afeto, constituída por amigos leais, não somente pelos conhecidos sociais, as pessoas de mais idade que não podem contar com a proximidade física e emocional de quem lhes dê presença, são muito mais vulneráveis a doenças, estresses e, mesmo depressão. 

A filha de uma senhora a quem atendi por alguns meses contou-nos, com muito pesar, ter-se dado conta de ser a única pessoa da família a abraçava. Sua irmã não tinha a menor afinidade com ela. Seus irmãos passaram a trabalhar e residir no exterior. Suas tias, irmãs da senhora sua mãe, haviam falecido todas nos últimos dois anos. Era na residência de longa permanência que, vez por outra, era abraçada pelas atendentes. Gente estranha que tocava seus ombros e cabelos, passava creme nutritivo em suas costas, pernas e braços. Consequência: sua mãe havia emprestado seu cartão de crédito, claro que com senha e tudo, a uma manicure que quinzenalmente afagava suas mãos e dizia-lhe como ela era linda e querida. Em menos de 40 dias sua conta poupança fora zerada e a manicure sumida. 

A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. 

Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. 

Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis. Os filhos pouco admitem sua conduta descuidada para com seus pais mais velhos. E quando admitem, pouco ou nada fazem para mudar de atitude. Para atualizar o seu olhar em relação à orfandade de seus pais. São adultos para quem ‘ser bom filho’ consiste em não deixar faltar nada de básico: remédios, empregados e cuidadores, compras de açougue e supermercado. Um ou outro traje mais apropriado para uma ocasião social formal, quando é o caso. Levá-los à praia – algo de que, por razões óbvias, os de mais idade pouco usufruem. Ações que tratam, mas não cuidam. Comprar coisas para dar a seus pais, os filhos gostam. Fazer-lhes companhia sem tarefa a cumprir, isso é o que tem estado em falta. Melhora quando a televisão está ligada num jogo ou novela, noticiário, qualquer coisa ou programa em que conversar não se faz necessário. Os pais de mais idade evitam o enfrentamento direto, enquanto pouco a pouco os filhos se tornam cada vez mais críticos em relação a seus pais. Os velhos têm-se calado, têm-se aberto tão somente com estranhos ou com seus poucos amigos: - Meus filhos?! Eles não têm tempo para nada! Passam seus sábados, domingos e grandes feriados sem que seus telefones toquem para saber de si. Quando os filhos respondem às ligações de seus pais, o mais frequente é adiar a conversa: - Posso ligar mais tarde? Estou no meio de uma reunião, agora. 

Doenças e medicações merecem atenções. Dores agudas alarmam. Nada se conversa, porém, sobre o que uns e outros têm vivido. O fracasso dos filhos que abandonam seus pais é reputado à correria da vida. Há pouca sinceridade. De modo geral os mais velhos são vistos como chatos e manipuladores. Estes, por sua vez, veem seus filhos como egoístas, superficiais e autoritários. Assemelham-se a duas tribos que mal se toleram, onde então, uma distância prudente e prolongada, far-se-ia mais do que necessária para manter o armistício. De onde surge esta intolerância dos filhos à inclusão dos pais em suas vidas? Não afirmo que não haja intolerância, também, de pais para com filhos adolescentes e, mesmo, para com seus filhos pequenos, extremamente demandantes. 

Vivemos uma cultura de reprovação mútua: os mais velhos julgam os mais jovens, que julgam os mais novos. Trata-se de uma pseudoliberdade de falar e de quase ausência de respeito mútuo a praticar. As reprovações e intolerâncias mútuas, represadas pelas ausências, pela excludências, pelas impaciências, magoam a uns e outros. A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz. 

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. 

As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. 

Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade. Ainda que não se possa afirmar que este estado de distanciamento afetivo e cognitivo entre pais e filhos nunca tenha sido, anteriormente tão profundo e gritante, pode-se afirmar que a nossa educação, ao longo do século XX, especialmente depois da Segunda Grande Guerra, criou altas expectativas de que, mais atentos, estudados e civilizados, não viéssemos a sofrer deste afastamento. Pensamos haver conquistado definitivamente a convivência amorosa entre pais e filhos a partir dos modelos românticos veiculados pelas propagandas de todos juntos, felizes e bem arrumados, em torno de uma farta mesa já posta para o café da manhã numa cozinha limpa e iluminada, antes de todos saírem para o trabalho e para as escolas. 

Incluam-se os eventos comerciais patrocinados por inspiração da moderna pedagogia e pediatria, dos manuais de pais e filhos, das reuniões escolares e presença nas festinhas de fim de ano, dia das mães, dos pais, das crianças, dos avós, sem que o público fosse alertado: quanto mais se procura determinar um único dia para reforçar o amor e o carinho de uns para com outros, através de presentes materiais, mais isso denuncia que não há trocas espontâneas de carinho, substância imaterial, em todos os dias. 

Ainda que sentimentos não mudem, muda a aprendizagem do que se deve esperar de um relacionamento e, quando e quanto uma pessoa ‘deve se alegrar ou sofrer’ por este ou aquele fato. Ou pelo não-acontecimento. O império das identidades pessoais sobrepujou o valor das experiências de comunidade e comunhão. O modo de educar e viver em família não era melhor. Provável que fosse até mais limitante, com maior rigidez em muitos aspectos. No entanto, as definições mais precisas sobre direitos e deveres em família, a autoridade dos pais e a subordinação dos filhos, ainda que excessos fossem cometidos, tornavam a convivência mais segura e moderavam as expectativas mútuas. Os pais não precisavam ser simpáticos e compreensivos. As mães não precisavam ser amigas e companheiras de seus filhos. Nem guiar carro, nem saber matemática para sentarem-se com seus filhos para ensinar o que não conseguiram apreender nas escolas, durante as aulas. Os papéis não se intercambiavam, também. 

Pais e mães não sabem mais exercer sua autoridade, nem sabem de que, exatamente, seus filhos precisam. A maioria dos jovens de hoje afirmam o fato de que seus pais não os conhecem bem, mas pensam que sim. E que, portanto, insistem em dar conselhos que não se aplicam. As ausências tinham uma denotação, enquanto hoje em dia elas têm infinitas conotações. Hoje o excesso é de frustração das expectativas de uns e de outros. Há, na verdade, uma verdadeira lacuna de solidariedade intergeracional e, mesmo, intrageracional. A família comete, na pós-modernidade, um excesso de autoritarismo – pela dureza das críticas mútuas – e padece de grande escassez de presença e acolhimento. Os pais de mais idade não conseguem aprovar, nem conviver, com o modo atual de educar os filhos. Pais e filhos que se xingam e competem de igual para igual pela ocupação dos quartos, dos aparelhos, dos assentos à mesa, pelo uso do carro da família e pelo dinheiro, quando há. E competem, da mesma forma, pelo mesmo posto no mercado de trabalho. 

Filhos adultos são arrogantes com seus pais de mais idade. Irmãos são arrogantes entre si. A inflação dos egos está presente em praticamente todas as transações familiares. O modelo pobre e insuficiente, do ponto de vista do conforto moral e afetivo de toda a família, insufla a postura narcísica: - Se eu fiz, você pode fazer também, a qual tem por corolário o faça você mesmo. Essa brutalidade emocional com que pais, filhos e irmãos se tratam, leva-os a ser intransigentes com os erros e falhas de uns e de outros e, por demais complacentes para com suas próprias. 

As famílias vêm cultivando um estilo famélico de reconhecimento, atenção e carinho. A insistência na autossuficiência conduz quase todos os membros de uma mesma família à sensação de insuficiência. e todos padecem da síndrome da solidão no seio da própria família. E o terror de se envolver mais profundamente com outro alguém, pois já que na família não se encontra respaldo, nem guarida, o que esperar de quem? A desconfiança está, epigeneticamente, instalada na cultura familiar. 

A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional. 

Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. 

Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato. De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? 

É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educá-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje - que justa, porém indevidamente - cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. 

Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. 

O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos. 

Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. 

É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. 

O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo. Qualidade e quantidade de tempo e de presença na vida do outro. 

Até o momento, nas áreas da pedagogia, do ensino e da psicologia estivemos discutindo a suposta importância da quantidade versus a qualidade do tempo dedicado ao filho para justificar, ou não justificar, uma ausência paterna e, mais recentemente, materna. Mas, o que é qualidade de tempo numa relação autêntica? É oportuno reiterar que não se alcança um tempo de qualidade sem um tempo alocado, primeiramente, à quantidade. Qualquer coisa, em qualquer trabalho que se realize é sabido que a pessoa precisa se comprometer e se dedicar à exaustão, para tornar-se experiente e exímio naquilo que faz. Cunhou-se, inclusive, o termo ‘tempo de qualidade’. Uma falácia, porque aquilo que pode ser de qualidade para um pai pode não o ser para um filho. As perspectivas são absolutamente diferentes e não equivalentes. Os pais já foram crianças, mas as crianças não têm a menor noção do que é ser adulto. Da mesma forma, mais tarde, os filhos adultos não têm a menor noção do que é ser velho ou idoso, conforme se queira denominar. 

Muitos de nós não têm liberdade de escolher os melhores horários para si próprios, quando precisam fazer suas coisas. Os tempos biológicos, sociais e existenciais não batem ponto a ponto com os tempos cronológicos. Este já é um drama vivido no cotidiano. A preguiça bate à hora. As responsabilidades obrigam a todos fazerem suas escolhas. Serão, porém, todas elas ‘obrigatórias’? E ‘têm que’ ser desempenhadas exatamente naquela hora? Ah, fica mais um pouco. Vamos conversar mais. Você vem tão pouco aqui. São estas as falas às despedidas. As crianças choramingam ‘não sai, fica comigo, conta outra história, pega um copo d’água’, como que ‘obrigando-os’ a lhes conceder mais de sua presença antes de dormir. Sentem-se seguras ao lado de seus pais. 

Os idosos também pranteiam a solidão de suas vidas e, publicamente, oferecem almoços, lanches e jantares em troca de uma supérflua visitinha, uma quase ‘inspeção’ do estado de coisas em que eles vivem. Ou sobrevivem. Por que romper com laços familiares, deixar para lá e não fazer questão, atenta contra a saúde física e mental Honrar pai e mãe – ter o privilégio de fazer o que merece ser bem feito. Seria possível dividir melhor o tempo dedicado ao trabalho, ao lazer, aos afazeres domésticos, ao casamento e à convivência entre pais e filhos, irmãos e irmãs? 

Assim como os pais não compreendem perfeitamente as necessidades de seus filhos, os filhos não captam, nem de longe as necessidades de seus pais idosos. A atenção é quase toda orientada para a saúde física. Aqui, porém, focalizamos a necessidade básica, primordial de conviver intimamente com aqueles que são queridos e, que podem cuidar dos mais idosos. E que deveriam fazê-lo mais amiúde. Não porque seja um dever imposto pela Lei, mas por consciência e abnegação, em honra aos pais. 

Assim como agradecemos pela bênção de ter e de educar um filho, deveríamos ser aptos a reconhecer a honra de cuidar dos pais de mais idade. Mas não somente quando a ‘mais idade’ chegar e se instalar definitivamente, mas ao longo de toda uma vida, porque sempre os pais têm mais idade que seus filhos. O que tem sido um pesado fardo, pode ser visto como um privilégio. 

Idosos não têm que ser entretidos com visitas e passeios. Levar mamãe ao cinema é diferente de sair junto para assistir o mesmo filme. Vencer a impaciência e a arrogância de criticar os pais requer, minimamente, uma boa dose de reflexão e autocrítica.

Num tempo em que às mesas dos restaurantes e nas casas de família todos se entretêm mais com as novas tecnologias, que com as conversas olho no olho, é preciso repensar a sociedade e os valores que estamos compartilhando. Nos perguntarmos, com seriedade e coragem, onde estamos todos errando. No que estamos nos excedendo e do que estamos padecendo.

As novas tecnologias podem nos conectar e ao mesmo tempo nos afastar uns dos outros. Estar conectado não significa estar em comunicação. Participar – de uma rede – não significa pertencer a um grupo, a uma família. Dar opinião não é conversar. E conversar não implica em ser verdadeiro e íntimo. As tecnologias nos conectam e nos tornam menos comunicativos e, de certa forma, inacessíveis. O mundo virtualizado não atende aos apelos de afeto e atenção. Pais, filhos e irmãos são sócios: não podem se separar, nem se negar a compartilhar da vida em comum, a não ser pagando com a saúde e a descrença. A família precisa ser solidária e cooperativa, senão todos os seus membros padecem. 

Pais, filhos e irmãos são seres sensíveis e, não clientes para serem atendidos, agradados e fidelizados. A casa da família não é um parque de diversões. As casas de longa permanência não são creches de idosos, nem shoppings onde comprar afetos e cobrar obrigações. 

Filhos não fazem as vezes de pai e mãe. Pai e mãe têm por pressuposto básico educar seus filhos. Filhos de idosos têm por pressuposto cuidar deles, sem querer educá-los. Uma geração zela pela integridade física, moral e, emocional da outra, desde que esta esteja em condição de maior vulnerabilidade. E cuida da própria geração quando as fragilidades e fragilizações ocorrem. Cada qual pode e deve assumir suas escolhas e se aproximar ou se afastar. Mas não é correto nem justo se enganar. Não há como delegar a estranhos sentir afeto pelos nossos filhos, pelos nossos pais, pelos nossos irmãos. 

Delegam-se tarefas, não deveres morais, escolhas que se fazem pela nossa honra e pela honra da família. O falecimento ou adoecimento grave de alguém, deixa uma lacuna que jamais será preenchida Não há lugares vagos a ocupar, há perdas e ausências a prantear e datas para voltar a lembrar e celebrar. Os mortos permanecem vivos na memória de seus familiares. Pais e filhos que não respeitam as leis morais e espirituais ensinam aos seus descendentes a não respeitar sequer a si próprios. Ser pai e mãe decorre de uma escolha nada fácil, porque a partir dela o homem e a mulher buscam fazer a coisa certa. Muitas vezes, porém, sabendo com muito mais clareza o que é errado fazer, do que é o certo a ser feito. 

Abdicamos muito da nossa identidade pessoal, para validar os valores mais profundos da nossa sensibilidade moral e afetiva. Ninguém é ético sem aprender as artes da abnegação e da suspensão dos julgamentos. Ser filho, tanto quanto ser pai, é assumir responsabilidades sobre a vida de outras pessoas. 

Uma vida cheia de exigências, em que as respostas não surgem sem maiores sacrifícios. Mas só há um modo perfeito de viver em família: é convivendo. É estando presente, é compartilhando as graças e as desgraças. Errar, desculpar, perdoar e, se perdoar. Aprender a considerar uns aos outros e fazer toda uma série de movimentos do corpo e do espírito. 

Trata-se de um vasto campo de aprendizagem, para todos que vivem em família e contribuem para compor uma pequena história em comum, que adquire um grande significado para cada um. Reparar erros, mudar condutas, ser gentil e atencioso, desafiar as exigências do próprio ego, cair de cansaço e, encontrar bons motivos e alentos que dificultam e facilitam a luta pela vida com significado. 

Sem significado, a vida não passa de um grande movimento pela sobrevivência. E, mesmo assim, o espírito da espécie agradece. 

Se fosse fácil não precisaria ser um Pronunciamento. Bastaria ser uma lei. Não há soluções fáceis para todos os conflitos familiares. Nem sabemos como realizar mudanças imprevistas e indesejadas sem sofrer, sem reclamar, sem querer desistir. Algumas soluções, porém, não devem ser descartadas. Especialmente as soluções ditadas pelo amor incondicional. E, não havendo amor, buscar as soluções possíveis em nome da honra a que pais e filhos se obrigam e por onde todos desenvolvem seus mais elevados valores de caráter. 

Se fosse fácil honrar pai, não haveria de ser um Pronunciamento. Bastaria promulgar uma lei dos homens. Mas, não. É uma lei imposta pelo Criador, uma autoridade maior do que qualquer um de nós, mais gigante que todos nós que habitamos e, convivemos em várias dimensões, neste nosso multiverso. 

Estar presente. Mostrar-se presente. Significar a presença. Honrar pai e mãe significa: honrar os papéis e os consequentes deveres que assumimos ao trazer uma vida a este mundo. Tornarmo-nos uma pessoa honrada, em nome dos nossos filhos. E, também, significa honrar nossos pais, por eles terem nos trazido até aqui. 

Honrar não significa gostar, nem concordar, nem esquecer as muitas dores que eles possam ter-nos causado. Mas é fazer a parte de que nos cabe, gostando ou não. E fazê-la com nobreza e espírito elevado, porque – assim como cada filho é um filho - pai e mãe só temos um em nossas vidas. Podemos ser outros pais: de afeto, por afinidade. Fazem a vez de pai: os mentores, os apoiadores, os que cuidam de nós e nos colocam no bom caminho. Fazem a vez de mãe: as nutrizes, as que alimentam e, que nos conduzem ao longo do bom caminho. Existem pais adotivos. Existem pais por afinidade. Existem pais por afinidade e identificação. Existem pais amorosos e, também os terríveis, que são pessoas ‘que não valem um tostão’, como diriam os antigos. Alguns pais e mães são tão adoráveis e desagradáveis, quanto temíveis. 

Pais, filhos e irmãos formam uma unidade que pode ser rompida e se mostrar disfuncional, mas que não pode ser dissolvida. Pais não são o problema. Filhos não são o problema. E irmãos não são o problema. Não há problema. Há algo maior a ser desenvolvido e cultivado: o cuidado com a família sempre. Existe a experiência de doar e de se doar para quem, talvez e, muito provavelmente, não nos dará de volta o que recebe ou recebeu de cada um de nós. Mas o retorno sempre advirá em relação às atitudes e condutas que tomamos. Não se faz isso porque o outro nos fez aquilo. Não, essa não é a resposta de uma alma livre. Honra-se pai e mãe só porque eles existem. E devemos honrá-los até depois deles já não estarem mais vivos e presentes. A eles e a seus pais e pais dos seus pais, nossos ancestrais. 

Uma comunidade é tanto mais estável e confiável, quanto mais presta honrarias aos antepassados, celebrando datas de acontecimentos, espacialmente as datas de chegada e de partida. Honramos com as nossas atitudes e com a nossa palavra: por meio das admoestações quando nossos filhos fazem coisas erradas. E, também, quando lhes damos nossas bendições. 

A honra não é vivida em segredo. Ela exige uma manifestação pública e uma concretude que seja percebida pela própria pessoa e por todos os demais. Estar presente em um momento de júbilo, bem como estar presente numa hora de amargor. Estar presente e existir, de fato, na vida uns dos outros: pais, filhos e irmãos. Mesmo na ocorrência de brigas inevitáveis, saber que podemos contar com a nossa família. 

A vida é de mão única e flui num único sentido: primeiro os avós, depois os filhos e depois os netos. A inversão dessa ordem é impraticável, por isso sentimos tanto pesar quando ela se inverte. Os privilégios devem, portanto, ser conferidos aos que aqui primeiro chegaram. Honrar pai e mãe é outra concessão de privilégio que agora cabe aos filhos e netos praticar, primeiro passo para a aprendizagem da devoção, a expressão de um amor incondicional. 

Na infância não precisamos provar nosso amor aos nossos pais. A nossa simples existência já lhes basta. Conforme nossos pais e avós envelhecem, o amor que é natural se converte, futuramente, em uma sábia escolha existencial: fazemos, então, a tradução deste amor em palavras e gestos de gratidão e honra, para com eles, fontes primordiais, por onde fluem todas as vidas. 


Ana Fraiman, abril de 2016. Fonte: https://www.revistapazes.com/5440-2/
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