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terça-feira, 24 de maio de 2016

Bons tempos aqueles...

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BONS TEMPOS AQUELES...


... em que sexo escandalizava. Revi hoje um filme de meus dias de juventude, Les Amants, de Louis Malle. O filme é de 1958, é obra das mais castas, mas causou repulsa no país todo, por uma cena na qual Jean-Marc Bory, no papel de Bernard, desce os lábios pelo corpo de Jeanne Moureau, a musa da época.

A cena é tão sutil que, nos dias de hoje, nin

guém pensaria em sexo oral. A única sugestão do gesto nefando é a cabeça de Bory que some da tela, enquanto a mão de La Moureau faz um leve gesto, que poderia significar tanto desconforto quanto prazer. Mas o público viu bem mais longe.

A cena terminava aí. Ao ser exibido em Porto Alegre, já nos anos 60, um grupo de espectadores criou a Turma do Apito. No momento da cena, a turma apitava em protesto ao gesto abominável. Isso que a câmera não descia nem mesmo até os seios! A Turma do Apito, talvez intuindo o próprio ridículo, se manteve sempre no anonimato. Soube-se mais tarde que era liderada por um ilustre jurista, o Dr. Rui Cirne Lima, diretor da Faculdade de Direito da URGS. Na época, apesar de séculos de literatura fescenina, sexo oral era tabu. Um criminalista como Washington de Barros Monteiro, por exemplo, em seus comentários ao Código Penal, falava do "asco indizível da felatio in ore". Se bem me lembro de minhas aulas de Direito, ele também afirmava que "mesmo no tálamo conjugal, a esposa guarda resquícios de pudor". Assim falavam os juristas há meio século.

Alguns anos depois, la Moreau novamente mexia com a moral vigente, com Jules et Jim, filme de François Truffaut, onde a personagem central, Catherine, vivia um tranqüilo triângulo com dois amigos, o Jules e o Jim do título. O ano de feitura do filme, 1962, é emblemático, foi quando chegou a pílula anticoncepcional no Brasil. O filme terá chegado alguns mais tarde, quando já se respirava melhor em termos de costumes. O idílico romance de Catherine - ambientado em Paris, em 1912, antes da primeira guerra - foi recebido sem escândalos e saudado como um hino à vida e ao prazer, que celebrava a amizade e a ternura.

Em 65, Luchino Visconti deu mais uma sacudida nas já complacentes estruturas do que então se chamava de família burguesa. Com Vagas Estrelas da Ursa, o conde cineasta abordava o incesto entre irmãos. A transgressão foi tranqüilamente absorvida. Que mais não fosse, não é fácil ter uma irmã como la Cardinale. Em 1968, Pier Paolo Pasolini faz mais uma investida contra a fortaleza assediada. Em Teorema, um estranho se hospeda na mansão do dono de uma fábrica e seduz a mãe, o pai, a filha, o filho e nem a empregada consegue escapar de seu fascínio.

Em 71, Visconti ataca de novo com A Morte em Veneza, onde narra a paixão senil do compositor Gustav Von Aschenbach pelo belo e quase imberbe Tadzio. O filme era baseado no livro homônimo de Thomas Mann, de 1912, mesmo ano em que se situa a trama de Jules et Jim. Hoje, não faltaria quem quisesse censurar o filme como apologia à pedofilia.

Em 76, Nagisha Oshima mostra, em O Império dos Sentidos - com direito a detalhes - o que Louis Malle apenas insinuara em Os Amantes. Proibido no Japão, o filme muito deve ter contribuído para a indústria turística... francesa. Excursões de japoneses - e japonesas, principalmente - invadiam Paris para ver o filme de Oshima. Eu o assisti em uma sala da Champs Élysées, em meio aos risos histéricos dos japas. Não que o filme fosse divertido. Rir, no Japão, é uma forma de expressar nervosismo.

No Ocidente, respirava-se bastante bem naqueles dias. Estes outros filmes não provocaram escândalo, mas apenas o burburinho que um bom filme provocava então. A família não morreu, como temiam os puritanos da época. Apenas tornou-se mais aberta ao prazer. As esposas haviam perdido seus resquícios de pudor no tálamo conjugal, como diziam os juristas. Naqueles tempos, ter um filho homossexual era uma desgraça. Hoje, um pai ou mãe respiram aliviados se o filho não tem Aids.

Ó tempora! O filme de Malle passou hoje na TV, às 5 da tarde, e duvido que qualquer adolescente sequer tenha percebido o significado da cena abominável. Nada como viver até os 60 para sentir o ridículo abissal de meio século atrás. Bons tempos aqueles, em que as pessoas se escandalizavam com uma pitada de sexo.

Sexo tornou-se banal. Com o intuito de chocar o público jovem – pois cinema hoje é feito para jovens – os produtores apelaram ao sadismo e aos borbotões de sangue, quando não cadáveres putrefatos: piranhas, serra elétrica, mortos-vivos. Os filmes viraram seriados. O gênero se tornou monótono, os jovens cansaram e passaram a rir de zumbis e rios de sangue.

Urgia renovar. Até mesmo cineastas de renome apelaram à escatologia e mutilações. Pasolini faz seus personagens comer fezes de colherinha em Salô. Em Anti-Cristo, Lars von Trier faz uma mulher cortar o clitóris com uma tesoura. E promete mais em seu último filme, Ninfomaníaca.

Otários é o que não falta para encher as salas.




Janer às 7:26 PM - 
https://www.facebook.com/berenice.ribeiro/posts/10209273090815442
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Maranhão 66 - Por Glauber Rocha

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Curta de Glauber Rocha, que originalmente fora encomendada por José Sarney em sua posse pelo governo do Estado do Maranhão em 1966 e que não foi utilizado para esse mesmo fim, por motivos óbvios.


O filme dentro do filme é imaginar o susto de Sarney quando o viu. Em vez de filmar uma celebração vitoriosa, Glauber usou e abusou da vaidade e do patrocínio de Sarney para fazer um devastador documentário sobre um arquetípico político brasileiro.


(http://www.youtube.com/watch?v=t0JJPFruhAA)
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Injustiça cinematográfica?

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"Lula, o filho do Brasil" está fora da disputa pelo Oscar de melhor filme de língua estrangeira, que será anunciado na próxima terça, em Los Angeles.


A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tirou filme sobre o grande mito brasileiro da lista com os nove pré-selecionados que disputam as cinco vagas da categoria.


Quem sabe, se a Globo Filmes fizer uma versão brasileira de O Poderoso Chefão, o Apedeuta não consegue uma nova chance de brilhar nas telas globalitárias?

(http://www.alertatotal.net/)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Indicação de “Lula, o Filho do Brasil” para o Oscar fez 130 mil internautas de bobos

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Amigos, vou voltar a um assunto vencido, mas que a meu ver não foi suficientemente discutido.

É sobre o filme Lula, o Filho do Brasil, que vai representar o cinema brasileiro na disputa do Oscar. (Péssimo filme, não tem a menor chance, só que isso não vem agora ao caso)

Muita gente não sabe, mas o Ministério da Cultura (Minc) realizou uma pesquisa com internautas em que perguntava qual filme brasileiro deveria ser escolhido para ser indicado a concorrer à estatueta. Entre quase 130 mil internautas que votaram, 70% votaram no filme Nossso Lar, do diretor Wagner de Assis, com Renato Prieto, Rosane Mulholland e Werner Schünemann, entre outros atores. (Tropa de Elite 2 não entrou na lista, porque não tinha sido lançado).

À LA CORÉIA DO NORTE

 Ignorando solenemente a consulta popular — que, claro, não tinha caráter deliberativo — a comissão responsável pela indicação escolheu, por unanimidade, Lula, o Filho do Brasil , conferindo tinturas de Coréia do Norte à decisão.

O engraçado é que o próprio site do Ministério da Cultura, orgulhosamente, mostrou os resultados da consulta no dia 21 de setembro.



Vejam o que dizia a página do Minc:

“Filme Nosso Lar é o vencedor de enquete

Por meio de uma enquete que ficou disponível no site do Ministério da Cultura entre os dias 8 e 20 de setembro, o público elegeu Nosso Lar como o filme brasileiro que gostaria de ver concorrendo ao Oscar 2011. No total, a enquete recebeu quase 130 mil votos. O filme preferido pelo público obteve quase 89 mil votos, o equivalente a 70% da votação.

O resultado será uma indicação para auxiliar a Comissão de Seleção (composta por membros indicados pelo MinC, pela Secretaria de Audiovisual, Ancine e Academia Brasileira de Cinema) na decisão de qual filme brasileiro recomendar para concorrer ao prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira, no Oscar 2011.”

O resultado, como se viu, não “auxiliou” em nada à indicação puxa-saco da Comissão de Seleção, com iniciais maiúsculas e tudo.
Fizeram 130 mil internautas de bobos.

(Ricardo Setti - Veja)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Lula na corrida do Oscar - Rubens Ewald Filho

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A primeira sensação que tive ao ouvir a notícia foi de vergonha. Não posso acreditar que um comitê de seleção, supostamente qualificado tenha cometido uma atrocidade dessas e ter escolhido Lula, o Filho do Brasil como o representante do país na competição do Oscar de filme em língua não inglesa. Depois, pensando melhor, achei que eram eles que deviam ficar envergonhados.


Este ano, na verdade, o comitê de seleção, com a desculpa de torná-lo mais democrático, mudou as regras e eu francamente nunca consegui entender direito quem e como votaram. Será teoria da conspiração de minha parte achar que houve manobra eleitoral e mais uma vez neste país se cometeu uma desonestidade?


É incrível que tenham insistido em nomear um filme que o próprio público rejeitou e detectou como uma propaganda descarada, deformando fatos, tenha sido escolhido o melhor num ano que tem 5 X Favela, Bróder, o simpático É Proibido Fumar. Qualquer um deles seria mais indicado para o prêmio.


Além de tudo, um filme já marcado pela tragédia do acidente que deixou seu diretor em coma, com sequelas infelizmente irreversíveis. Agora vai ser um vexame internacional. Vai ser um choque para as pessoas no exterior se derem conta de que estamos parecendo a Itália fascista de Mussolini, quando fazemos filmes de propaganda do nosso presidente, ou até pior, lembrando a máquina de divulgação mundial de Hitler. Talvez assim alguns mais perspicazes percebam o que povo não consegue ver: que há realmente algo de podre neste reino. 

(Rubens Ewald Filho - http://noticias.r7.com/blogs/rubens-ewald-filho/2010/09/24/lula-na-corrida-do-oscar)

terça-feira, 23 de junho de 2009

O triste fim de um cidadão fora de lugar

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O jovem brasileiro assassinado pela polícia britânica em 2005 transformou-se em Selton Mello. Jean Charles, que entra em cartaz no Brasil na sexta-feira 26, tira da própria personalidade do ator, o mais requisitado do cinema nacional, o espírito de seu personagem. O eletricista que deixou uma pequena cidade mineira para arriscar a sorte no cinza londrino ganhou, no filme, os trejeitos humorísticos e o olhar levemente triste de Mello.

O diretor Henrique Goldman, talvez pela pouca experiência na ficção, deixou-se levar pelo ator, que, apesar do inegável talento demonstrado em filmes como O Auto da Compadecida (2000) ou Lavoura Arcaica (2001), tende a repetir suas artes e manhas quando deixado à solta. É o que acontece em Jean Charles.

Exatamente por isso, o que o filme tem de mais interessante está, ironicamente, nas figuras e cenas que rodeiam o protagonista, e não no personagem de Jean. Para recuperar o episódio, Goldman, documentarista radicado em Londres há quase duas décadas, e o roteirista Marcelo Starobinas debruçaram-se sobre uma comunidade imensa e invisível: a dos brasileiros residentes da cidade.

Nas pequenas histórias que rodeiam a “grande história” fatal estão os acertos desse filme que, preso aos fatos amplamente divulgados, não alça o voo que se espera da ficção. Não por acaso, é das frestas documentais que ele tira seu frescor. Os imigrantes vivendo seus próprios papéis, como uma das primas e o ex-chefe do eletricista, e os detalhes cotidianos das ruas escapam aos lugares-comuns da história, em geral, narrada de forma linear, armada para dar dramaticidade ao desfecho.

Construído de forma a “celebrar a vida”, como têm dito os autores, o roteiro atinge o ponto alto após o brutal assassinato no metrô. A cena em que os primos de Jean (vividos por Vanessa Giácomo, muito bem, e Luis Miranda) são levados a uma sala da polícia londrina para receber a notícia é construída com uma mistura de frieza e emoção que, em segundos, capta o drama daqueles cidadãos pela metade, incapazes de entender o significado da palavra morgue, necrotério, em inglês.

Coproduzido por Stephen Frears, diretor de A Rainha, e Rebecca O’Brien, sócia de Ken Loach (de Terra e Liberdade), Jean Charles, em tese, inclui-se na vertente social do cinema britânico. Goldman, no entanto, ao contrário de Frears e Loach, não parece compreender, na plenitude, o drama dos homens que se sentem fora de lugar.

(Ana Paula Sousa - www.cartacapital.com.br)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mostra de cinema de São Paulo


O mundo filmado


Em 32 anos de existência, a Mostra de Cinema de São Paulo criou, entre parcela do público, um saudável hábito: o de visitar o mundo por meio de janelas e olhares que o circuito comercial desconhece. Entre 17 e 30 de outubro, estima-se que 200 mil espectadores (foi esse o número de 2007) circulem por vinte salas abertas para produções vindas de 75 países. Pelas telas correrão imagens capazes de nos fazer entender a quantas anda o mundo.

É que, para além da aventura cinematográfica, a Mostra oferece um mosaico dos tempos em que vivemos. Sintomático dessa vocação é o conjunto de filmes alinhados à questão da miséria que, não à toa, estão programados principalmente para o fim de semana do dia 17, o mesmo da mobilização mundial Stand Up and Take Action Against Poverty, que procura conscientizar para o tema por meio de um conjunto de ações.

Há títulos como O Fim da Pobreza, premiado na semana da crítica, em Cannes, O Que Estamos Fazendo Aqui, que percorre o continente africano, o coletivo Os Invisíveis, com um episódio de Wim Wenders (que virá a São Paulo), Garapa, de José Padilha, e até um documentário narrado e roteirizado por Madonna, Eu Sou Porque Nós Somos, sobre o Malaui.

Enquanto o pop se aproxima da pobreza por meio das imagens, diretores de antiga vocação política seguem investigando grandes episódios históricos a partir de seus cantos mais escondidos. Em Procedimento Operacional Padrão, por exemplo, o documentarista Errol Morris debruça-se sobre os doze retratos da prisão de Abu Ghraib, em Bagdá, que tiveram forte efeito sobre os EUA e a Guerra do Iraque. Também de pegada política, no sentido mais amplo do termo, são Terra Vermelha, co-produção entre Brasil e Itália, sobre os índios Guarani-Kaiowá, que causou burburinho no Festival de Veneza, e Gomorra, a respeito da máfia napolitana.

A mostra está repleta de iguarias outras. Há desde as retrospectivas de Ingmar Bergman (1918-2007) e do japonês Kihachi Okamoto (1923-2005) até a exibição, em cópias restauradas, da gigante série Berlin Alexanderplatz (1980), de Rainer Fassbinder (1945-1982), e de O Poderoso Chefão (1972), de Francis Ford Coppola. Na ala contemporânea, são especialmente apetitosas a homenagem ao argentino Pablo Trapero, de O Outro Lado da Lei (2002) e Família Rodante (2004), e a lista engendrada por Wenders, descobridor de jovens diretores.

Seguindo a tradição, as novas obras de cineastas sempre aguardados, como Woody Allen, os irmãos Coen e Steven Soderberg, também terão na mostra um tira-gosto. Como na lista de 454 títulos, curtas-metragens incluídos, há de tudo para todos os gostos, o mais recomendável é entrar no site http://www.mostra.org e, feito turista com guia de viagens à mão, escolher os lugares que desejamos visitar.

(Ana Paula Souza)