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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Monteiro Lobato novamente na berlinda

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Questão não é literária, diz advogado de entidade


Na opinião do advogado Humberto Adami, do Iara (Instituto de Advocacia Racial), a discussão sobre preconceito contra negros em "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, ultrapassa o âmbito da questão literária.

"Estamos discutindo o risco de reintrodução do racismo nas escolas. É preciso que haja programas de capacitação de professores antes de abordar o assunto, além da devida contextualização", diz ele que nega buscar a proibição da circulação da obra.

Opinião semelhante à do advogado Sinvaldo Firmo, do Instituto do Negro Padre Batista, de São Paulo. "Contextualizar ajuda a compreender as transformações históricas que nos permitem ter essa discussão aberta hoje."

O risco de medidas excessivas é uma preocupação de Chico Poli, diretor do sindicato de diretores de escolas públicas estaduais de SP.

"O politicamente correto leva a esse tipo de exagero. Ninguém ficou racista ou mais racista por causa de um livro de Monteiro Lobato. É um patrulhamento absurdo que não faz sentido em uma democracia."

Pensamento não muito distante do de Alcir Pécora, crítico e professor da Unicamp.

"Se formos fazer um expurgo por questões raciais e sexuais, não vai sobrar obra para ler. Literatura não é educação moral e cívica para elevar valores morais. O papel dela é confrontar as coisas."

Segundo Adami, o confronto que agora se abre é uma oportunidade de forçar o governo brasileiro a cumprir o seu dever, que é "zelar por uma educação livre de preconceitos".

Guiado por preocupação semelhante, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei do senador Paulo Paim (PT-RS) para criação de uma comissão nacional de avaliação de material didático, a fim de verificar possíveis excessos do tipo.

O projeto se deu por ocasião da proibição, no Distrito Federal, do livro "Banzo, Tronco e Senzala" (ed. Harbra), em 2003, acusado de depor contra a cultura negra.

Enquanto entidades e governo batem cabeça na Justiça, mantém-se a lacuna que, segundo a consultora em educação Maria Tereza Arruda Campos, é a mais grave.

"O MEC não tem a responsabilidade de preparar professores para tratar do preconceito do Lobato. Ele tem de preparar os professores como um todo."

Enquanto não sai do debate uma definição para as salas de aula, Adami diz que, caso o MEC insista em circular o livro sem os devidos aparatos, o Iara recorrerá a cortes internacionais.

"O Brasil é signatário de tratados e acordos que visam combater o racismo. Não é o nosso plano, mas não vamos nos esquivar dessa luta."

Adami diz ainda que o escritor Ziraldo e a Academia Brasileira de Letras devem desculpas por terem apoiado Monteiro Lobato sem ressalvas. "Não fosse uma questão de fato grave, não seríamos chamados ao STF para resolver". 


"Li todo o Lobato, nunca percebi nenhuma ideia racista", rebate Ziraldo.

segunda-feira, 5 de março de 2012

‘Heraldo, a cor e a alma’

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A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como “negro de alma branca” e escreveu que o jornalista “não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde”.

Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades ─ na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.

Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. “Negro de alma branca”, uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do “traidor da raça”. No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.

O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como “branco de alma negra”, pois uma “alma negra” não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua “raça”. Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como “branco de alma branca”, embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria “raça”, ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), “pai fundador” do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um “branco de alma branca”, pela promoção do “orgulho racial” dos arianos.

Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como “um negro da Casa Grande da Rede Globo”, que “não dignifica a sua ancestralidade e origem” pois “nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas”. No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.

O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos “desviantes”. O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista – mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de “negros de alma branca” pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.

A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais ─ e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos ─ efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.

Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da “raça branca” são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da “raça negra” dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus “líderes raciais”, os guardiões da “ancestralidade e origem”. Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.

(Demétrio Magnoli - Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/536531/)
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