sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Luz pulsada conserva frutas (pesquisa UFC)

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A verdade dividida – Carlos Drummond de Andrade

.











A porta da verdade estava aberta
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só conseguia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia os seus fogos.
Era dividida em duas metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era perfeitamente bela.
E era preciso optar. Cada um optou
conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


(Carlos Drummond de Andrade, in Contos Plausíveis)
.

domingo, 9 de setembro de 2018

A Geração do Nada Pode e sua Hipocrisia Social

.










O avanço da tecnologia, o amplo alcance das redes sociais e o predomínio de uma intensa hipocrisia social estão formando gerações de crianças e jovens que baseiam seus posicionamentos em meros achismos, que não respeitam os mais velhos, que menosprezam valores fundamentais e que acham que podem literalmente mandar em seus pais.

A chamada Geração Hipocrisia do século XXI está pronta para compartilhar tudo nas redes sociais, mas não está preparada para reflexões e para se comprometer com causas maiores. É uma geração que valoriza o número de visualizações no Youtube, que se importa com o poder da imagem e do culto ao corpo, mas é incapaz de se envolver com o próximo.

Vivemos um tempo repleto de contradições, no qual os pais temem educar seus filhos com rigor, são extremamente permissivos e, muitas vezes, não são capazes de transmitir valores importantes aos jovens, como tolerância, respeito, compaixão e amor ao próximo. Ao mesmo tempo, vivemos uma época onde o politicamente correto está forte, onde os paladinos da justiça social estão sempre prontos para atacar os outros atrás da tela de um computador e onde as relações sociais estão rasas, ou seja, sem profundidade. Falta empatia, sensibilidade e conhecimento.

A internet revela as hipocrisias diárias da sociedade. Tudo o que vemos nas redes é simplesmente um retrato fiel de uma sociedade que é incapaz de se sensibilizar com o sofrimento de quem está nas ruas, mas que está sempre pronta para julgar.

É como se passássemos por uma falência generalizada de nossos valores, fazendo reinar a desesperança e a violência. Vivemos a época da cegueira moral e da hipocrisia covarde.

Além disso, essa geração também é representada pela banalização, pela perda de boas referências, pela falta de leitura e senso crítico e pelo esvaziamento do pensamento. Basta analisar o significado da palavra hipocrisia para notar como a sociedade está em um caminho preocupante, marcado pela falsidade, pela dissimulação, pelo fingimento e pelo desvio de caráter.

.

domingo, 26 de agosto de 2018

Mentiras

.








Tu julgas que eu não sei que tu me mentes 
Quando o teu doce olhar pousa no meu? 
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes? 
Qual a imagem que alberga o peito meu? 

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo 
O bom sonho da feroz realidade... 
Não palpita d´amor, um coração 
Que anda vogando em ondas de saudade! 

Embora mintas bem, não te acredito; 
Perpassa nos teus olhos desleais 
O gelo do teu peito de granito... 

Mas finjo-me enganada, meu encanto, 
Que um engano feliz vale bem mais 
Que um desengano que nos custa tanto! 



Florbela Espanca - "A Mensageira das Violetas" 
.

domingo, 12 de agosto de 2018

TESTAMENTO DE UM IDOSO

.




Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. 
Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?” - pensou o advogado. 
Anotou todos os dados e ia deixando a residência, quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.
Na foto estava o velho. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. 
Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.
Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. 
Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.
Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver..
.

(Desconheço o autor)
.