domingo, 12 de agosto de 2018

TESTAMENTO DE UM IDOSO

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Um jovem advogado foi indicado para inventariar os pertences de um senhor recém falecido. 
Segundo o relatório do seguro social, o idoso não tinha herdeiros ou parentes vivos. Suas posses eram muito simples. O apartamento alugado, um carro velho, móveis baratos e roupas puídas. “Como alguém passa toda a vida e termina só com isso?” - pensou o advogado. 
Anotou todos os dados e ia deixando a residência, quando notou um porta-retratos sobre um criado mudo.
Na foto estava o velho. Ainda era jovem, sorridente, ao fundo um mar muito verde e uma praia repleta de coqueiros. À caneta escrito bem de leve no canto superior da imagem lia-se “sul da Tailândia”. 
Surpreso, o advogado abriu a gaveta do criado e encontrou um álbum repleto de fotografias. Lá estava o senhor, em diversos momentos da vida, em fotos em todo canto do mundo.
Em um tango na Argentina, na frente do Muro de Berlim, em um tuk tuk no Vietnã, sobre um camelo com as pirâmides ao fundo, tomando vinho em frente ao Coliseu, entre muitas outras. 
Na última página do álbum um mapa, quase todos os países do planeta marcados com um asterisco vermelho, indicando por onde o velho tinha passado. Escrito à mão no meio do Oceano Pacífico uma pequena poesia:

Não construí nada que me possam roubar.
Não há nada que eu possa perder.
Nada que eu possa tocar,
Nada que se possa vender.
Eu que decidi viajar,
Eu que escolhi conhecer,
Nada tenho a deixar
Porque aprendi a viver..
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(Desconheço o autor)
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O que significa “No frigir dos ovos”?

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Não é à toa que os estrangeiros acham nossa língua muito difícil. Como a língua portuguesa é rica em expressões!

Veja o quanto o vocabulário “alimentar” está presente nas nossas metáforas do dia-a-dia. Aí vai.


Pergunta:
– Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de linguagem, o que quer dizer a expressão “no frigir dos ovos”?


Resposta:

– Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar.
Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. 


Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa. E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. 

Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. 


Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos. 

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha, são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese… etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. 


O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. 

Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos,
literalmente. 


Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…

A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.

Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.


Entendeu o que significa “no frigir dos ovos” ?”




(desconheço o autor)
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Cinderela moderna

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Cinderela vivia com sua mãe num apartamento confortável perto da estação Santana do metrô.Suas únicas preocupações eram: ir ao colégio e pesquisar o que iria fazer no próximo final de semana.Toda noite quando a mãe chegava do trabalho perguntava o que ela tinha feito, e lá vinha ela com uma porção de reclamações.Era o barulho das crianças do prédio, era a falta de mesada para ir ao shopping, era reclamações e mais reclamações, a mãe já não suportava mais.

Tudo piorou num final de semana em que a mãe foi viajar. 

A jovem Cinderela, se achando dona do pedaço, convidou a turma para uma festinha no apê. Adivinha! Foi muito mais gente do que o previsto e a Cindy (assim as colegas a chamavam) perdeu o controle da situação e o apartamento foi praticamente destruído! 

Sofás manchados, armários quebrados, piso arranhado, cortinas e tapetes rasgados e manchados, um verdadeiro caos. Quando a mãe chegou de viagem ficou possessa e mandou que ela fosse morar com o pai.

Ela exultou! Era isso mesmo que ela queria , lá ela teria a liberdade sonhada.O pai meio a contragosto levou-a para a casa. Arrumou um quarto para ela nos fundos da casa, visto que os dormitórios já tinham donas que não queriam abrir mão deles, eram as filhas de sua madrasta, Isabel e Isadora.

A partir desse dia, Cinderela perdeu as regalias que tinha com sua mãe, passou a lavar e a passar a própria roupa e a cozinhar para si. As enteadas do seu pai não gostavam dela e não queriam a sua amizade, assim ela passou a conversar com o gato e o cachorro da casa.

Isabel e Isadora saiam todo dia para o shopping e compravam roupas finas e caras, enquanto Cinderela tinha que se arranjar com a mesada que seu pai lhe dava.

O pai não lhe fazia companhia, nunca estava presente, sempre trabalhando além do horário para sustentá-las 

Um dia o pai chegou com uma boa noticia: O filho do dono da empresa estava se formando em engenharia e iria dar uma festa para comemorar a formatura e também o seu aniversário.

As irmãs ficaram empolgadíssimas, pois era a oportunidade que esperavam para dar o golpe do baú e continuarem com suas vidas ociosas e sem perspectivas.

Correram logo para as compras , procurando por belas roupas e sapatos.

Cindy começou a pesquisar preços pois com sua mesada não iria poder comprar roupas de grife assim como as irmãs.

Reclamava ao gato:

-Não sei o que fazer, tenho que ir a essa festa e não tenho uma boa roupa, será que alguém pode ajudar-me?

O gato miava e lambia-se, não tinha noção do que a menina falava.

Uma senhora que passava pela rua, ouviu os lamentos de Cinderela e chamou-a.

_Tenho exatamente o que precisas, venha à minha casa.

Chegando lá a mulher lhe mostrou várias roupas lindas, pois era modista de uma famosa confecção.

_Posso emprestar-te uma destas roupas mas terás que devolvê-la antes da meia noite.

Cinderela dava pulinhos de alegria, pegou a mais bela roupa e foi para casa esperar a hora da festa.

Isabela e Isadora estavam todas emperiquitadas ao lado da madrasta, quando Cinderela chegou à festa num táxi que a trouxe e logo foi embora.

Todos olhavam para aquela bonita moça que chegara. Até o aniversariante ficou encantado com ela.

Todos dançaram e se divertiram muito, porém, perto da meia noite, o rapaz chamou a todos para anunciar que tinha achado a mulher de sua vida. 
Era uma amiga que havia conhecido na faculdade e que também estava se formando. Uma moça meiga, delicada, trabalhadora e eles pretendiam se casar em breve.

Ao ouvir isso, Cinderela percebeu que não iria tirar vantagem e como já estava chegando a meia noite, correu para devolver emprestada.

Ao passar ligeiro pela porta, enganchou a roupa na maçaneta e rasgou-a. Foi descer as escadas, torceu o pé e perdeu o sapato.

Conclusão, teve que trabalhar para a senhora da confecção até descontar o preço do sapato e das roupas. 

Suas irmãs preguiçosas também tiveram que ralar, pois sem o golpe do baú ficava difícil pagar as prestações das roupas de grife e a madrasta foi ser manicure num salão de beleza, já que o marido de tanto trabalhar para sustentar as preguiçosas, ficou doente e perdeu o emprego.

Moral da história: Arregace as mangas, estude, trabalhe e corra atrás do que deseja, pois até os contos de fada já não são mais os mesmos!



Wanda Wenceslau - Fonte: https://www.recantodasletras.com.br/contosdefantasia/1766272

Eu me lembro

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“Deus. Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno…” Os versos de Casemiro de Abreu ressoam em mim como os grossos pingos da chuva batendo na lata da única peça da casa que não era coberta com capim Santa Fé. Eu me lembro, eu me lembro, era pequeno, de tudo o que vivemos e que não sabíamos ser nosso destino. Um presente enraizado no passado do qual só conseguiríamos nos arrancar pela força dos livros. Eu me lembro da geada, do vento sibilando nas frestas, do fogo no galpão, das estradas encharcadas nos longos invernos, do barro vermelho no Alto Grande, dos muito pobres pedindo esmola num lugar onde todos tinham muito pouco a oferecer. Eu me lembro, era pequeno.

Sim, eu nunca esqueci. Eu me lembro, era pequeno, dos primeiros dias na cidade, do medo da novidade, de tantos “autos” passando sem parar. Eu me lembro da vida no campo, do latifúndio a perder de vista, da pobreza de quase todos, da luz da lamparina bruxuleando nas noites sobre as letras trêmulas das lendas do Sul, das madrugadas que prometiam uma vida nova e traziam a cada dia a velha desigualdade. Da janela, vendo a chuva que parecia eterna, eu via a nossa sorte selada. Era preciso se arrancar dali puxando-se pelos próprios cabelos. Só a passagem do trem a cada dia prometia outra vida, outra estação. O sonho era uma locomotiva vermelha abrindo algum caminho para o futuro.

Claro que eu me lembro, era pequeno, da inveja que sentíamos do dono do lugar, que passava solene na sua camioneta de motor ronronante. Éramos 301. Divididos em dois grupos: ele e nós. Meu bisavô fora estancieiro. Meu avô, dono de uma chácara. Meu pai, cabo da Brigada Militar, cujo grande sonho era ter um pedacinho de terra para chamar de seu. Eu me lembro, era pequeno, dos seus sonhos, dos “causos” que nos contava sobre assombrações, cavalos ligeiros, jogos de truco, tiroteios, do seu amor pelos animais, da sua luta cotidiana para abraçar o horizonte, que sempre se afastava como a enormidade das terras de tão poucos donos. Por que nunca paro de me lembrar? Não sei.

É do cair das noites que eu mais me lembro, era pequeno, trazendo medo e melancolia, fantasmas e desesperanças, mais frio e vento assobiando. Eu me lembro das nossas sombras desenhadas nas paredes, da minha japona nova, azul e sintética, pegando fogo da lamparina, comigo dentro, das caixas de lápis de cor, do terror que era sair à noite para ir à “patente” no fundo do pátio, do canto dos galos anunciando um novo dia de labuta e de esperança para todos. Mas eu me lembro também, felizmente, das noites de verão coalhadas de estrelas, da algaravia dos pássaros na primavera, dos pomares coloridos de frutas maduras, do arco-íris emendando coxilhas, das nossas pandorgas enfeitando o céu anil nas manhãs da Semana Santa.

Eu me lembro, era pequeno, dos velórios nas pequenas salas onde ninguém se sentava, com um pano branco na porta e o caixão saindo pela janela. Eu me lembro das carreiras de cancha reta, dos bailes de galpão, das campereadas antes do sol se incendiar no céu, das águas irisadas de frio nos açudes de beira de estrada, das bergamoteiras quase vergadas sob o peso das frutas, do cheiro de melão maduro nas lavouras, do coração vermelho das enormes melancias que vendíamos na BR. Quando um carro parava, vibrávamos como se fosse um gol do 14 de Julho, o Leão da Fronteira.

Por que nunca canso de me lembrar disso?

Sim, eu também me lembro dos políticos da ditadura arrebanhando homens e mulheres nas carrocerias abertas de camionetes para que votassem pela ARENA e não deixassem o comunismo tomar conta do país. E o comunismo vinha sempre junto com o nome de Jango, que, às vezes, era chamado de Jango Goulart ou de João Goulart, e de Leonel Brizola. Eu me lembro que para insultar alguém a primeira palavra que vinha era tupamaro. Eu me lembro, era pequeno, de um homem falando no pátio da escola sobre a natureza de todas as coisas. Cada um tinha na vida, segundo ele, o que o seu destino lhe reservara. Era preciso se conformar ou trabalhar muito para ter mais, mas nunca querer dividir as terras dos outros mesmo que elas fossem enormes e improdutivas.

Ele não dizia improdutiva. Eu me lembro, era pequeno, ele falava “mesmo que elas estejam em repouso por algum tempo”. Era um advogado. Eu me lembro do seu bigode aparado com esmero e de um lencinho azul num bolsinho frontal do seu casaco, que ele chamava de paletó. Tudo o que aprendo hoje, esqueço. A minha memória está abarrotada pelas lembranças obsessivas daqueles tempos. Do que eu mais me lembro? Do contraste entre pobreza e riqueza, que eu não entendia e não podia discutir. Eram tantos ranchinhos, tanta casinha pobre, tanto puxadinho e tanto campo num silêncio sepulcral. Só os livros me despertavam. Ciro Martins foi o primeiro a me cutucar: “Que paz naqueles campos!”

Confesso, eu me lembro, era pequeno, quando tudo se calcifica na memória, na alma e no imaginário, de tudo o que me confundia. Havia tanto ar, tanto pasto, tanto céu e tanta mão calejada sem colher à altura do que plantava para outros. Custei a compreender o que via. O que eu via? Aquilo que sonhava.


Juremir Machado da Silva - Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/03/10765/cronica-eu-me-lembro
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A MULHER FINGIDA

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“Do ponto de vista do homem, a grande mulher é a fingida. A mulher fingida tem sentimentos muito mais intensos e transbordantes que a mulher sincera.

A mulher sincera é sempre a mesma: ela é o que é. Já a mulher fingida é sempre o que o homem quer que ela seja.

Supondo-se que a mulher, assim afirmam os sexólogos, como o goleiro no futebol, só atinge o primeiro orgasmo aos 29 anos, a mulher sincera relata, até essa libertação, seu calvário, enquanto a fingida se comporta como se, desde as primícias da relação sexual, conseguisse êxtases retumbantes.

A mulher sincera é a que acorda o homem para a dura realidade. A mulher fingida é a que desperta o homem para o reino da fantasia. A mulher sincera encarrega-se sempre do pesadelo, a fingida catapulta o homem para o sonho.

A mulher sincera é aquela que, quando o homem chega em casa e pergunta se está tudo bem, responde ajeitando a camisola:”Agora vai ficar ainda melhor.”

A mulher sincera cobra, a mulher fingida promete. Da mulher sincera o homem só obtém muxoxos rançosos. Nos lábios da mulher fingida sibilam murmúrios de lascívia.

A mulher sincera faz sexo. A mulher fingida realiza uma apresentação. A mulher fingida tem orgasmo múltiplo. A mulher sincera, cosquinhas. A mulher sincera dá só vazão à queixa, à recriminação e à condenação. À mulher fingida passa sempre despercebido o deslize do homem. 

Para a mulher sincera, o homem, por mais que se esmere em provê-la, é um doador de esmolas. A fingida, por mais avarento que o homem lhe seja, considera-o um exemplo de prodigalidade.

A mais autêntica e atraente manifestação feminina é o fingimento. A mulher finge que é alta no salto do sapato e que seu rosto é sempre belo pela maquiagem. E seu corpo aromático pelo perfume e bem torneado pelas calças justas. E finge seios opulentos com o silicone.

A mulher sincera vive no médico e no dentista. A mulher fingida mora na sauna e no salão de beleza. A mulher sincera é lamurienta e pessimista. A fingida é afetada, coquete e otimista, profissional do sorriso e das carícias. A mulher sincera é um personagem, a fingida, uma atriz. 

Se está tudo bem na relação conjugal, tanto a mulher sincera quanto a mulher fingida se mostram realizadas. Mas a mulher fingida leva a vantagem de também se sentir realizada quando tudo se depara adverso ao casal. A mulher fingida aprimora a técnica de só se mostrar aborrecida quando está longe de seu homem. A sincera deixa para revelar o auge da melancolia e da irritação quando seu homem está presente.

De tanta admiração que ela tem pelo homem, as amigas da mulher fingida sentem-se invejosas dela. Para as amigas da mulher sincera chega a ser surpreendente que não se separe do marido, tantas são as críticas que ela lhe destina.

Eu amo a sinceridade da mulher fingida. E acho que é tão chata e exagerada a sinceridade da mulher sincera que ela só pode estar fingindo.”



Paulo Sant’Ana - Revista Época Nº121 (11/09/2000)
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Crônica de uma morte anunciada - Resumo

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O livro Crônica de uma morte anunciada, escrito por Gabriel García Márquez, publicado em 1981, conta, na forma de uma reconstrução jornalística, o último dia de vida de Santiago Nasar, num quebra-cabeças envolvente cujas peças vão se encaixando pouco a pouco através da superposição das versões de testemunhas que estiveram próximas ao protagonista. 

É a história do assassinato de Santiago Nasar pelos dois irmãos Vicario, sem chance de defesa. No romance, quase todos os habitantes do lugarejo onde vive Santiago, ficam sabendo do homicídio premeditado algumas horas antes (daí o título), mas não fazem nada de concreto para proteger a vítima ou impedir os algozes.

O objetivo da obra é o de criticar a mentalidade primitiva que permite que um assassínio premeditado tenha uma pena irrisória – independentemente da sua execução ter ou não sido pressionada pelo costume – e que uma jovem seja violentamente penalizada por não ter o comportamento sexual esperado para a época.

Por outro lado, a intenção é também a de demonstrar a consternação face à incrível quantidade de coincidências funestas acumuladas que deixam no ar a inquietante reflexão de que "a fatalidade torna-nos invisíveis".

O livro também trata do perdão e do tempo, da brevidade da vida e da eternidade dos sentimentos.

García Márquez em Crônica de uma morte anunciada, apesar de relatar os fatos de forma objetiva e sem grandes divagações, não deixa de recorrer aos sonhos premonitórios e aos presságios, como que para reforçar o caráter intuitivo quer do narrador/autor, quer das restantes personagens. O ambiente é mostrado como potenciador das emoções, sugerindo determinados estados de alma que, associados a uma capacidade de observação e de ligação de detalhes muito superior à média, se manifesta numa capacidade, também muito superior, de entendimento que muitos tendem a classificar como algo de sobrenatural ou mediúnico.

É deste modo que o autor descreve o dia da morte de Santiago como um dia em que fazia um tempo fúnebre e que no preciso instante da desgraça caía uma chuva miúda como a que Santiago Nasar vira no bosque, no sonho – chuva que era, na realidade, excremento de pássaro (segundo o autor, sonhar com pássaros é sinal aziago). Também a irmã do narrador – Margot – afirma que sentiu passar um anjo quando Santiago falou acerca do seu próprio casamento, fato que não se chegou a realizar.

Outro sinal de presença do incrível é a forma que García Márquez dá ao remorso como punição para o crime e a negligência. O cheiro de Santiago moribundo impregna-se de tal forma nas narinas daqueles que, de alguma forma tiveram o mais leve resquício de culpa, direta ou indireta, na sua morte atacando-lhes as consciências como o mais cruel dos fantasmas. O aguilhão do remorso cai, sobretudo, nos dois assassinos durante o relativamente curto espaço de tempo que passam na cadeia pagando pelo crime, perdendo, inclusive, a faculdade de controlar o próprio corpo, mas sempre sem perder a lucidez.

Apesar de tudo, é Bayardo quem, para a maioria da população, é visto como a maior vítima.

Para recontruir a estória da morte de Santiago Nasar, García Márquez recorreu não só à memória mas também a entrevista das pessoas envolvidas – aqueles que estavam, na altura, mais próximos não apenas da vítima mas também dos assassinos, tentando compor o puzzlle constituído pelos estilhaços da memória.

A partir da morte de Santiago Nasar, são desvendadas as perspectivas e as histórias de algumas pessoas que de uma forma ou de outra, estiveram ligadas à sua morte. Pois, como já citado, a morte de Santiago, foi anunciada por toda a vila de Riohacha, apenas ele, permaneceu na ignorância até ao momento em que foi esfaqueado à porta de casa.

Gabriel García Márquez retrocede e avança no tempo, fazendo do narrador participante o cronista da tal morte anunciada. Desde o talhante à empregada do café. Do padre ao delegado da polícia, todos sabiam muito antes de morrer, que Santiago tinha Pedro e Pablo à sua espera, com as facas afiadas dos porcos. No entanto, por medo, receio, covardia, comodismo, ou mero sadismo, ninguém avisou Santiago, preferindo antes observá-lo, inocente, ingênuo, caminhando impávido e sereno para a morte.

Personagens principais

Santiago Nasar, o protagonista, é filho de um rico emigrante árabe. Sedutor, culto, adepto da caça de altanaria, é apreciador de cavalos, armas e, claro, aves de presa. Já na aparência, Nasar assume o aspecto físico muito semelhante ao do autor – vestia um fato de linho lavado só com água por não suportar o estalar da goma em contacto com a pele, cabelos crespos e pálpebras árabes. 

Mas o que mais impressiona nesta personagem é a sua extrema solidão, característica comum a todos os heróis da ficção de García Márquez, tal como o próprio autor se encarrega de frisar em O Aroma da Goiaba

Nasar, apesar de sociável - tem amigos e um considerável número de pessoas que o estimam -, pauta a sua conduta por uma quase que excessiva reserva, uma independência de movimentos, constituída por um conjunto de atividades solitárias que levam a que as pessoas o deixem cultivar o prazer da sua solidão, da sua redoma, onde só cabe aquilo que comporta a sua imaginação. E é precisamente esta característica que o torna vulnerável e que faz com que passe ao lado de todas as tentativas levadas a cabo pelos outros para impedirem a sua morte: o seu alheamento, por um lado, e a indiferença dos menos íntimos a quem os mais chegados delegaram alguma tarefa no sentido de lhe fazerem chegar a informação.

Já Bayardo San Román, o anti-herói, é uma personagem que, desde o início, desperta a desconfiança de todos. Forasteiro e com um passado nebuloso envolto em mistério, provoca a curiosidade da população local e suscita a proliferação dos mais extravagantes boatos. 

Tem um aspecto algo efeminado, devido às roupas que usa – sempre muito justas e num tom amarelado. Os olhos são dourados – cor que García Márquez associa à vulgaridade e à corrupção por estar diretamente identificada com o ouro, ou seja, com o desejo de ostentação por um lado e com a avareza pelo outro. O seu comportamento extravagante na forma como exibe o poder de compra conquista a família de Angela – família que vê nele uma porta de saída de uma vida pautada pela penúria.

Curiosamente, Bayardo é o filho de Petronio San Román, o general conservador que derrotou o coronel Aureliano Buendía e disparou pelas costas contra Gerineldo Márquez em Cem Anos de Solidão – o que lhe granjeia forte impopularidade aquando da sua entrada na cidade, deixando entrever, também, um pouco o caráter do filho.

Os assassinos, Pedro e Pablo Vicario, segundo a opinião gera Tinham má catadura, mas eram de boa índole. Pedro e Pablo são os filhos típicos de uma sociedade onde os rapazes são criados para serem homens e as filhas educadas para casar e serem submissas.

Angela, a mais nova e bela das quatro irmãs de Pedro e Pablo Vicario, é uma personagem modelada. 

Inicialmente tida como bela e estúpida, até pelo próprio Santiago, a sua personalidade vai se afirmando à medida que amadurece, rebelando-se contra o comportamento ditatorial e repressor da mãe que a obriga a vestir de vermelho logo após a morte de Santiago Nasar para que não pensassem que estaria de luto pelo amante morto. 

Angela luta persistentemente pela sua paixão pelo marido, apesar da violência com que foi por ele tratada tecendo, ao longo dos anos, uma teia urdida com base na paciência, esperança e fé na ação do tempo, na erosão e sublimação do rancor de Bayardo. Angela é inspirada no arquétipo de Penélope, retirada da Odisseia de Homero e plantada diretamente na obra de García Márquez.

Victoria Guzmán, a cozinheira dos Nasar, vê na intenção dos irmãos Vicario a oportunidade de vingar os rancores acumulados do passado e eliminar a ameaça à possibilidade da filha fazer um bom casamento, evitando-lhe um destino semelhante ao de Angela Vicario. Victoria poderia ter prevenido Santiago e não o fez porque queria, na realidade que o matassem.

Na verdade, todas as personagens poderiam ter, efetivamente, feito alguma coisa para evitar a morte de Santiago, mas a maior parte tinha coisas mais importantes para fazer ou estavam, simplesmente, decididas a minimizar a capacidade dos irmãos Vicario em executar a vingança. Exceto Clotilde Armenta, que tenta avisar Victoria.

Há várias personagens na estória que fazem parte da própria vida do autor/narrador ou que são aparentadas com algumas personagens de Cem Anos de Solidão

Para além das que já foram referidas, aquelas que estão relacionadas com o autor, que na estória aparece como amigo de Santiago são a irmã – Margot –, a esposa – Mercedes – e a tia Wenefrida Márquez, todas elas personagens periféricas, incluídas para dar maior veracidade à estória.

Relacionadas com Cem anos de Solidão está, por exemplo, Dionísia Iguarán, parente de Úrsula que, no romance supracitado, é identificada com a avó do autor, Tranquilina.

Em Crônica de uma morte anunciada surgem, mais uma vez, as mulheres movimentando o destino da personagem principal. Sobretudo Clotilde e Victoria, uma como aliada e a outra como adversária.

Enredo

Angela Vicario casa com Bayardo San Román, um forasteiro que exibe arrogantemente o seu poder econômico, e é devolvida logo após a noite de núpcias, depois de o noivo constatar que Angela já não é virgem.

Pressionada pela família, a jovem denuncia Santiago Nasar como sendo o autor da façanha, julgando que a sua fortuna fará dele um intocável, numa terra onde segundo o costume, as dívidas de honra se pagam com a morte.

Angela engana-se. Pressionada pela mentalidade dominante, típica de uma sociedade patriarcal, a família Vicario é incapaz de aguentar o escárnio motivado pela honra manchada e sente-se compelida a matar o "infame", apesar da pouca vontade em fazê-lo.

Na realidade, os irmãos de Angela fazem tudo para dar a entender as suas intenções com o objetivo de que alguém os impeça e proporcione a Nasar a oportunidade para escapar a uma morte mais do que anunciada.

Apesar de todos os indícios serem facultados no sentido de evitar a morte de Santiago Nasar, o acesso à informação é bloqueado por uma série de imprevistos, contratempos e caprichos do destino.

A morte de Santiago, apesar de apregoadíssima, não é levada a sério pela maior parte das pessoas envolvidas que poderiam tê-la evitado.


Fonte: https://www.passeiweb.com/estudos/livros/cronica_de_uma_morte_anunciada
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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Um Apólogo

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Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!




Machado de Assis - Extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.
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OS AMANTES

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Nos dois primeiros dias, sempre que o telefone tocava, um de nós esboçava um movimento, um gesto de quem vai atender. Mas o movimento era cortado no ar. Ficávamos imóveis, ouvindo a campainha bater, silenciar, bater outra vez. Havia um certo susto, como se aquele trinado repetido fosse uma acusação, um gesto agudo nos apontando.

Era preciso que ficássemos imóveis, talvez respirando com mais cuidado, até que o aparelho silenciasse. Então tínhamos um suspiro de alívio. Havíamos vencido mais uma vez os nossos inimigos. Nossos inimigos eram toda a população da cidade imensa, que transitava lá fora nos veículos dos quais nos chegava apenas um ruído distante de motores, a sinfonia abafada das buzinas, às vezes o ruído do elevador.

Sabíamos quando alguém parava o elevador em nosso andar; tínhamos o ouvido apurado, pressentíamos os passos na escada antes que eles se aproximassem. A sala da frente estava sempre de luz apagada. Sentíamos, lá fora, o emissário do inimigo. Esperávamos quietos. Um segundo, dois – e a campainha da porta batia, alto, rascante. Ali, a dois metros, atrás da porta escura, estava respirando e esperando um inimigo. Se abríssemos, ele – fosse quem fosse – nos lançaria um olhar, diria alguma coisa – e então o nosso mundo seria invadido.

No segundo dia ainda hesitamos; mas resolvemos deixar que o pão e o leite ficassem lá fora; o jornal era remetido por baixo da porta, mas nenhum de nós o recolhia. Nossas provisões eram pequenas; no terceiro dia já tomávamos café sem açúcar, no quarto a despensa estava praticamente vazia. No apartamento mal iluminado íamos emagrecendo de felicidade. Devíamos estar ficando pálidos,e às vezes, unidos, olhos nos olhos, nos perguntávamos se tudo não era um sonho.

O relógio parara, havia apenas aquela tênue claridade que vinha das janelas sempre fechadas. Mais tarde essa luz do dia distante, do dia dos outros, ia se perdendo, e então era apenas uma pequena lâmpada no chão que projetava nossas sombras nas paredes do quarto e vagamente escoava pelo corredor, lançava ainda uma penumbra confusa na sala, onde não íamos mais. Pouco falávamos: se o inimigo estivesse escutando às nossas portas, mal ouviria vagos murmúrios; e a nossa felicidade imensa era ponteada de alegrias menores e inocentes, a água forte e grossa do chuveiro, a fartura festiva de toalhas limpas, de lençóis de linho.

O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós; o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Ah, nós tínhamos vindo de muito e muito amargor, muita hesitação, longa tortura e remorso; agora a vida era nós dois apenas. Sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar olhares, dizer coisas, ferir com maldade ou tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo que ainda podíamos defender um dia ou dois, nosso mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais haverá.

No sexto dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares edifícios – que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho? Entretanto, a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar.

O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar: e assim três, quatro vezes sucessivas. Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro.

Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante. Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se os meus cabelos já tivesse o cheiro de seus cabelos, como se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha.

Nosso corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez que, sentado de frente para a janela, por onde filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”. Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro; inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível como um lento bailado.

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me, lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam? Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos.

Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago. Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos, o homem fez um grande embrulho; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre se acabara; alguém viera e batera à porta e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo recibo de uma carta registrada e, quando o telefone bateu, foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre – senti que ela me disse isto num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo que não os via assim, em plena luz) um olhar de apelo e de tristeza, onde, entretanto, ainda havia uma inútil, resignada esperança.


Rubem Braga - Fonte: http://classico.velhosamigos.com.br/AutoresCelebres/Rubem%20Braga/Rubem%20Braga1.html#amantes
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Tô Só

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Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta

de azul

de berimbau

de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...

Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?

Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?

nave

ave

moinho

e tudo mais serei

para que seja leve

meu passo

em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.



Hilda Hilst - Fonte: "Correio Popular" de Campinas-SP
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