segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cultura x educação

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Fala-se muito da educação como tábua de salvação para o Brasil. É natural que sem educação um povo jamais pode almejar posição de destaque no concerto internacional nem ter um sistema político e econômico eficaz, mas a educação não é um fim em si, apenas um meio. A educação tem potencial reformador quando serve para capacitar as pessoas a refletir sobre si mesmas e sobre a sociedade, em si nada faz.

Um conceito muito confundido com o de educação é o de cultural, em especial os políticos não são muito capazes de diferenciar um do outro, talvez porque a rigor não tem nenhuma das duas ou no máximo apenas a primeira. Enquanto a educação tem um certo caráter conservador, afinal reproduz conhecimentos – e ideologias de contrabando – a cultura tem forte potencial revolucionário pois estimula o senso crítico e enxerga a sociedade de forma não convencional.

Uma boa ilustração disto é o estereótipo do professor e do artista. 
Com todas as limitações que os estereótipos tem, mesmo eles não deixam de ter forte potencial descritivo (quantos personagens da literatura não foram mais que estereótipos bem desenhados?). O professor normalmente é associado a uma posição mantenedora do status que, enquanto o artista é identificado com a rebeldia. É claro que existem professores revolucionários e artistas reacionários (embora de certa forma o segundo é menos provável), mas isto não invalida o conceito mais geral.

Em sua antológica História Social da Literatura e da Arte, Hauser já aponta lá na Grécia Clássica uma tentativa de controlar a cultura tornando-a oficial ou patrocinada por Mecenas. Para ele tal tipo de atitude tenta manipular o potencial revolucionário da cultura aprisionando-a. Assim a cultura só pode ser livre quando o próprio público escolhe o que quer assistir sendo a distribuição gratuita de cultura na verdade uma anti-cultura.

A sociedade capitalista aprimorou o mecenato criando a indústria cultural. Enquanto na Grécia os aristocratas pagavam para que o povo fosse assistir as peças que ideologicamente lhes convinham os capitalistas espalham seu lixo ideológico (mal) disfarçado de cultura e ainda cobram por isto ganhando rios de dinheiro. É lugar comum dizer que os poderosos não querem que o povo estude e aprenda. Isto talvez até possa ter sido verdade no Brasil e em outros países incivilizados controlados por uma elite ralé. Mas de forma alguma é uma verdade histórica. A educação pública, gratuita e universal sempre foi uma bandeira burguesa. As elites européias e americanas – e mais recentemente as dos Tigres Asiáticos – sempre apostou na educação como um eficaz instrumento para atingir dois principais objetivos: preparar a mão-de-obra capacitando-a para avanços técnicos cada vez maiores e doutrinar o povo de acordo com suas ideologias.

As elites civilizadas sempre tiveram a preocupação de como educar seus filhos sem tirar deles o senso crítico, as tentativas de educar sem doutrinas sempre nasceram em berços de ouro, ainda que algumas tenham se proletarizado posteriormente. Já num pais grotesco como o Brasil nem este potencial da educação jamais foi percebido pelas elites, e não interessa de forma alguma à elite política (que ao contrário do que dizem os marxistas de carteirinha e até outros nem tão fanáticos assim, não se confunde com a elite econômica). A conseqüência disto foi que praticamente todo o magistério perdeu seu antigo status e se viu relegado a um dos últimos planos da escala social, situação propícia – em especial a quem tem certa formação intelectual – a coloca-nos na posição de contestadores. Assim os estereótipos do professor e do artista podem ser perfeitamente explicados mesmo em suas exceções. É certo que as elites políticas e econômicas já estão em franca disputa pela recuperação ou não da educação. Já a simples menção de cultura faz muitos, como aquele personagem inspirado em Goebbels, sacarem o revólver.


(Alexandre Gomes é editorialista do Jornal Primeira Página – São Carlos/SP)