terça-feira, 24 de novembro de 2015

Por que devemos acolher os refugiados?

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Por que devemos acolher os refugiados





Um debate sobre a globalização da fraternidade.


Muito já se falou sobre os atentados em Paris e sobre o terrorismo; é evidente que muita coisa ainda pode ser dita e haverá de ser, mas este artigo não é sobre isto. Vamos falar sobre os refugiados, pois são vítimas do terrorismo e se colocam como um “grande problema” que devemos (aprender a) lidar - coloquei “grande problema”, entre aspas, porque não quero repetir a estupidez de certo deputado que disse que os refugiados eram escórias. Não! O problema não são os refugiados, mas a forma de sociedade que construímos que não é preparada para receber pessoas diferentes.

Recentemente o filósofo Slavoj Žižek publicou um artigo chamado “In the wake of Paris attacks the left must embrace its radical western roots”

Neste artigo o Žižek trata dos ataques em Paris, do problema dos refugiados e da função da esquerda mundial nesta onda toda. Segundo ele, a questão de regras e normas precisa ser levada a sério, pois a cultura da maioria dos refugiados é incompatível com as noções de cultura que o Ocidente tem. Assim, a solução para a crise dos refugiados passa pelo problema da tolerância.

Žižek vê um problema sério aqui, porque a tolerância significa respeitar a sensibilidade de cada um. Acontece que os muçulmanos acham que é impossível suportar nossas imagens blasfemas e nosso humor imprudente - coisas que consideramos parte de nossa liberdade; da mesma forma que nós ocidentais não conseguimos suportar muitas práticas da cultura muçulmana que eles consideram parte da liberdade deles.

Resumo? O bicho sempre pega quando membros de uma comunidade religiosa considera como blasfemo ou prejudicial – ao ponto de atrair a ira de Deus - o estilo de vida de outra comunidade.

Então o Žižek dá conselhos interessantes para sabermos lidar com a vinda de refugiados:

Primeiro, o que tem que ser feito é construir um conjunto mínimo de normas, obrigatório, onde esteja inclusa a liberdade religiosa, a proteção da liberdade individual, os direitos das mulheres, etc., e tudo isto tem que ser feito sem o medo de parecer "ocidental demais".

Segundo, devemos insistir na tolerância. Na aceitação de diferentes formas de vida. Aceitar que o mundo é composto de infinitas formas de ser e viver nele.


Aceitá-los não é só trazê-los, mas dar a todos a oportunidade de um lugar digno para viver. Fácil? Não! A questão toda é que não devemos, sob o risco de estarmos perdendo a nossa humanidade se fizermos diferente, rejeitar os refugiados. Também não podemos abrir mão de nossa cultura e costumes para os receber. E por fim não podemos exigir que eles mudem o estilo de vida deles. Aliás, este erro a França cometeu quando em 2011 proibiu os mulçumanos de rezarem em público.

Estamos diante de um exercício gigantesco de tolerância - e de aceitação de que nós, com a nossa cultura, não passamos de um pequeno ponto no infinito universo. Estamos vivenciando um momento excelente para exercitamos a solidariedade que nos dá coragem para aceitar pessoas que estão sendo vítimas e, por isto, fugindo de guerras em seus países. Mas aceitar sem mudar nosso jeito de ser e sem mudar quem eles são.

Fácil? Não! Mas podemos começar pensando como Žižek:

Eu acho que nós deveríamos nos opor totalmente a esta chantagem liberal de que temos que nos entender uns aos outros. Não, o mundo é demasiado complexo, não podemos. Detesto pessoas. Não quero entender as pessoas. Quero ter um certo código em que eu não entendo o teu estilo de vida e tu não entendes o meu, mas podemos coexistir.



Por fim, mas não menos importante, não podemos esquecer da Religião. Grande parte de conflitos passam pela religião: quando não é pela luta para ver qual a religião verdadeira, é pelo sentimento religioso presente em toda paixão ideológica.

Nietzsche dizia com acerto no livro “Humano, Demasiado Humano” que:

A pressuposição de todo crente de qualquer tendência é não poder ser refutado; se os contra-argumentos se mostrarem muito fortes, sempre lhes restava ainda a possibilidade de difamar a razão e até mesmo levantar o credo quia absurdum est [creio porque é absurdo] como bandeira do extremado fanatismo. Não foi o conflito de opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções.

Precisamos abandonar a convicção de que estamos no continente mais evoluído, com a cultura mais evoluída e de posse de outras evoluções melhores... E também não sou muito simpático às hashtags #oremospor. Ora, quase todo ataque que qualquer Estado faz, para a aprovação da opinião pública, se reza para que “Deus esteja conosco”. Além do mais, orar por alguém traz consigo sempre a ideia de que o nosso Deus é melhor e mais protetor. Não gosto, mas estejam à vontade para orar – e de coração aberto para aceitar quem não deseja as orações

Eu compreendo que a coisa está no ponto em que o teólogo Huns Kung falou há algum tempo: "ou temos paz entre as religiões/ideologias ou não haverá paz no mundo". E precisamos aceitar, urgentemente, a ideia de que nenhuma barreira ideológica ou política pode apequenar a capacidade que nós temos de acolher qualquer tipo de pessoa, crença ou ideologia no seio de nossa comunidade.


(Wagner Francesco)

Fonte: http://wagnerfrancesco.jusbrasil.com.br/artigos/259249432/por-que-devemos-acolher-os-refugiados?utm_campaign=newsletter-daily_20151124_2336&utm_medium=email&utm_source=newsletter