sábado, 16 de janeiro de 2016

Um pouco de História não faz mal a ninguém

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Um pouco de História não faz mal a ninguém. É preciso saber:


- que no governo João Goulart algumas organizações de esquerda condenavam a luta pela reforma agrária, porque seu triunfo daria origem a um campesinato conservador e anti-socialista?


Isso está escrito na página 40 do livro “Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender, que foi dirigente do PCB e um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, em 1967.

- que no governo João Goulart já existiam campos de treinamento de guerrilha no Brasil? Em 4 de dezembro de 1962, o jornal ”O Estado de São Paulo” noticiou a prisão de diversos membros das famosas Ligas Camponesas, fundadas por Francisco Julião, num campo de treinamento de guerrilhas, em Dianópolis, Goiás.

- que afora o PCB, por seu apego ao ortodoxo “caminho pacífico” para a tomada do Poder, foram os trotskistas o único segmento da esquerda brasileira que não pegou em armas nos anos 60 e 70?

- que o primeiro grupo de 10 membros do Partido Comunista do Brasil - então partidário da chamada linha chinesa de “guerra popular prolongada” para a tomada do poder - viajou para a China ainda no governo João Goulart, em 29 de março de 1964, a fim de receber treinamento na Academia Militar de Pequim? E que até 1966 mais duas turmas foram a Pequim com o mesmo objetivo? (livro “Combate nas Trevas”, de Jacob Gorender).

- que no regresso da China esses militantes, e outros, foram mandados, a partir de 1966, para a selva amazônica com o objetivo de criarem o embrião da “guerra popular prolongada”, que resultou naquilo que ficou conhecido como Guerrilha do Araguaia, somente descoberto pelas Forças Armadas em abril de 1972, graças à prisão de um casal, no Ceará, que havia abandonado a área, desertando?

- que mais da metade dos cerca de 60 jovens que morreram no Araguaia, para onde foram mandados pela direção do PC do B, eram estudantes universitários, secundaristas ou recém-formados, segundo as profissões descritas na Lei que, em 1995, constituiu a Comissão de Desaparecidos Políticos?

- que a expressão “socialismo democrático” - hoje largamente utilizada por alguns partidos e candidatos - “induz a um duplo erro: o de apontar no rumo de um hipotético socialismo que prescindirá do Estado da Ditadura do Proletariado, acontecimento nunca visto no mundo, e o de introduzir a idéia de que o Estado mais democrático que o mundo já conheceu, o Estado Proletário não é democrático”? (livro “História da Ação Popular”, página 63, de autoria dos atuais dirigentes do Partido Comunista do Brasil, Aldo Arantes e Haroldo Rodrigues Lima).

- que no início de 1964, antes da Revolução de Março, Herbert José de Souza, o “Betinho”, já pertencia à Coordenação Nacional da Ação Popular? (livro “No Fio da Navalha”, dele próprio, páginas 41 e 42).

- que em 31 de março de 1964, quando da Revolução, “Betinho” era o coordenador da assessoria do Ministro da Educação, Paulo de Tarso, em Brasília? (livro “No Fio da Navalha”, páginas 46 e 47).

- que pouco tempo antes da Revolução de Março de 1964, o coordenador nacional do Grupo dos Onze, constituídos por Leonel Brizola (agora elevado à condição de “Herói Nacional”, por decreto de Dilma Roussef(), era “Betinho”, designado pelo próprio Brizola? (livro “No Fio da Navalha”, páginas 49 a 51).

- que em março de 1964 o esquema armado por João Goulart “era uma piada”; e que “o comandante Aragão, comandante dos Fuzileiros Navais, “era um alucinado e eu nunca vi figura como aquela? (livro “No Fio da Navalha”, página 51).

- que já em 1935 Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, era um assalariado do Komintern (3ª Internacional)? Isso está escrito e comprovado no livro “Camaradas”, do jornalista William Waak, que teve acesso aos arquivos da 3ª Internacional, em Moscou, após o desmanche do comunismo.

- que Luiz Carlos Prestes foi Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro por 37 anos, ou seja, até maio de 1980, uma vez que foi eleito em setembro de 1943, quando ainda cumpria pena por sua atuação na Intentona Comunista? (livro “Giocondo Dias, uma Vida na Clandestinidade”, de Ivan Alves Filho, cujo pai, Ivan Alves, foi militante do partido).

- que 4 ex-militares dirigiram o PCB desde antes de 1943 até 1992: Miranda, Prestes, Giocondo Dias e Salomão Malina? Ou seja, dirigiram - ou melhor, comandaram - o PCB por cerca de 50 anos?

- que após o desmantelamento do socialismo real, que começou pela queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, foi considerado que “o marxismo-leninismo deixou de ser uma ferramenta de transformação da História para tornar-se uma espécie de religião secularizada, defendida em sua ortodoxia pelos sacerdotes das escolas do partido e cujos princípios eram ensinados como dogmas inquestionáveis; que, em suma, ensinava-se a não pensar”? (livro “Nos Bastidores do Socialismo”, de autoria de Frei Beto).

- veja esta frase altamente edificante: “Quero deixar claro que admito a pena de morte em uma única exceção: no decorrer da guerra de guerrilhas”.Quem a escreveu? Frei Beto, em seu livro “NosBastidores do Socialismo”, página 404.

- que em fins de agosto de 1995 - 16 anos após a anistia - o governo enviou ao Congresso Nacional um projeto, logo transformado em lei, dispondo sobre “o reconhecimento das pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”?


Que esse projeto definiu que deveria ser criada uma Comissão Especial, composta por 7 membros, com a atribuição de proceder ao reconhecimento de pessoas que tivessem falecido de causas não naturais “em dependências policiais ou assemelhadas”?

Que da relação de pessoas desaparecidas que acompanhou o projeto constavam os nomes de 136 militantes da esquerda considerados desaparecidos políticos, que, por opção própria, pegaram em armas para instalar em nosso país uma República Democrática Popular semelhante àquelas que o povo, nas ruas do Leste Europeu, derrubou, nos anos de 1989 e 1990?

Que entre esses nomes, estavam os de 59 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, quando tentavam implantar o embrião do modelo chinês de “guerra popular prolongada”?

Que as famílias de todos esses guerrilheiros do Araguaia já foram indenizadas com quantias que variam de 100 mil a 150 mil reais?

Que, por conseguinte, à vista do que está escrito na Lei, para que essa indenização fosse concedida, a área de selva de cerca de 7 mil quilômetros quadrados em que a guerrilha se instalou, foi considerada uma “dependência policial ou assemelhada”?

Que duas senhoras, integrantes da Comissão, que representam as famílias dos desaparecidos, Iara Xavier Pereira e Suzana Kiniger (ou Suzana Lisboa) foram militantes da ALN e receberam treinamento militar em Cuba?

Que Iara Xavier Pereira participou de diversas “ações” armadas, conforme ela própria revela, na página 297, do livro “Mulheres que Foram à Luta Armada”, de autoria de Luiz Maklouf?

Que essas senhoras ou suas famílias foram indenizadas pela morte de 4 pessoas? Iuri Xavier Pereira, Alex de Paula Xavier Pereira e Arnaldo Cardoso Rocha (todos membros do Grupo Tático Armado da ALN, com treinamento militar em Cuba, mortos nas ruas de São Paulo em tiroteio com a polícia), irmãos e marido de Iara Xavier Pereira, que também recebeu treinamento militar em Cuba, e Luiz Eurico Tejera Lisboa (também treinado em Cuba), marido de Suzana Lisboa, que como ele também recebeu treinamento na paradisíaca ilha da liberdade? Que, no total, 600.000 mil reais, foi quanto os contribuintes pagaram a essas duas senhoras?

Que a mídia, a famosa mídia, que faz a cabeça das pessoas, jovens e adultos, nunca registrou esse pequeno trecho altamente edificante da História recente de nosso país?

Mas, há mais, muito mais. VOCÊ SABIA que o guerrilheiro do Araguaia, Rosalino Cruz Souza, conhecido na guerrilha como “Mundico”, incluído na relação de “desaparecidos políticos”, sabidamente “justiçado”, no Araguaia, pela também guerrilheira “Dina” (Dinalva Conceição Teixeira) - cujos familiares foram também indenizados - teve sua família indenizada? Não pelo Partido, que o mandou para lá, mas por nós, contribuintes?

VOCÊ SABIA que a família do coronel aviador Alfeu Alcântara Monteiro, morto em 2 de abril de 1964 - cuja esposa, desde sua morte, recebe pensão militar - foi também aquinhoada com os tais 150 mil reais, com o voto favorável do general que, na Comissão, representava as Forças Armadas? Que, depois, esse mesmo general, em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo”, buscando justificar seu voto, disse que no processo organizado pela Comissão constava que o coronel havia sido morto com “19 tiros pelas costas”? E, diz o general: “depois vim a saber que ele foi morto com um único tiro”.


Caso tivesse, antes de dar seu voto, consultado o Inquérito Policial Militar instaurado na época, para apurar o fato, teria constatado a versão real: dia 2 de abril de 1964, o brigadeiro Nelson Freire Lavanère Wanderley foi nomeado para receber o comando da então Quinta Zona Aérea, em Porto Alegre, do mais antigo oficial presente, que era o coronel Alfeu Alcântara Monteiro, reconhecidamente janguista. O coronel recusou-se a transmitir o comando e reagiu, atirando e ferindo o brigadeiro Wanderley, sendo morto com um tiro de pistola 45 pelo também coronel aviador Roberto Hipólito da Costa, que acompanhava o brigadeiro. Ou seja, o coronel Hipólito matou em legítima defesa de outrém, conforme concluiu o Inquérito Policial Militar, sendo absolvido pela Justiça Militar. Esse Inquérito acha-se arquivado no STM.

- que Carlos Marighela, morto nas ruas de São Paulo, delatado voluntária ou involuntariamente por seus companheiros do Convento dos Dominicanos, e Carlos Lamarca, morto no sertão da Bahia, tiveram seus familiares indenizados, embora a esposa de Carlos Lamarca já recebesse pensão militar? Ou seja, as ruas de São Paulo e o sertão baiano foram considerados, também, pela Comissão, “dependências policiais ou assemelhadas”.

Mas não terminou, eles querem mais, muito mais. VOCÊ SABIA que, após tudo isso, membros da Comissão passaram a reivindicar a promoção de Lamarca a general?

- que amplos setores da mídia e toda a esquerda vêm difundindo por todos esses anos a versão de que “a resistência armada à ditadura” no Brasil dos anos 60 e 70, foi uma resposta ao Ato Institucional nº 5, que “fechou” o regime?


- que isso não é verdade, pois o Ato Institucional nº 5 foi assinado em 13 de dezembro de 1968?


- que, antes disso, a esquerda armada já havia atirado uma bomba no Aeroporto dos Guararapes, em 25 de julho de 1966, matando um jornalista e um Almirante e ferindo um General?


- que já havia atirado um carro-bomba contra o Quartel-General do II Exército, em São Paulo, matando o soldado sentinela Mario Kosel Filho, em 26 de junho de 1968?


- que já havia assassinado, ao sair de casa, na frente de seus filhos, o capitão do Exército dos EUA Charles Rodney Chandler, tachado nos panfletos deixados sobre seu corpo, de “agente da CIA”?


- que um dos assassinos - um sargento expulso da Polícia Militar de São Paulo pela Revolução de 1964 - várias vezes entrevistado, vive hoje, tranqüilamente, em São José dos Campos, após ter sido anistiado pela ditadura militar fascista e reintegrado à PM, como reformado?

- que em 1968, antes, bem antes, do Ato Institucional nº 5, o major do Exército da Alemanha Edward Von Westernhagen, que cursava a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, foi morto na rua por um grupo do Comando de Libertação Nacional (COLINA), constituído por dois ex-sargentos (João Lucas Alves e Severino Viana Calou), um da Aeronáutica e outro da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e um professor universitário (Amilcar Bayard), sendo o crime, na época, atribuído a marginais? Que João Lucas Alves residia, em Belo Horizonte, na mesma casa em que também residia a então militante do COLINA, Dilma Vana Roussef, que se escondia por trás dos codinomes de “Vanda”, “Estela”, “Luiza” e “Patrícia”?


Que ele foi morto por ter sido confundido com o capitão do Exército boliviano Gary Prado, que participou da caçada a Che Guevara, no ano anterior, em seu país, e que, por isso, deveria ser “justiçado”, que também cursava a Escola de Comando e Estado-Maior? (livros “A Esquerda Armada no Brasil”, e “Memórias do Esquecimento”, de Flávio Tavares).

- que era essa a tática utilizada pela esquerda armada para instalar no Brasil um pleonasmo (uma República Popular Democrática): matar, matar e matar?

- que a alucinada esquerda armada não matava apenas seus “inimigos”, mas também os amigos e companheiros?

Veja a relação dos companheiros assassinados, a título de “justiçamento”, sob a alegação de que sabiam demais, demonstravam desejo de pensar com suas próprias cabeças e que, por isso, representavam um perigo em potencial. Não que tenham traído, mas porque poderiam (futuro do pretérito) trair:


- Márcio Leite Toledo (ALN) em 23 de março de 1971;


- Carlos Alberto Maciel Cardoso (ALN) em 13 de novembro de 1971;


- Francisco Jacques Alvarenga (RAN-Resistência Armada Nacionalista) em 28 de junho de 1973;


- Salatiel Teixeira Rolins (PCBR) em 22 de julho de 1973;

- que o militante da Resistência Armada Nacionalista, Francisco Jacques Alvarenga, “justiçado” dentro do Colégio em que era professor, no Rio de Janeiro, por um Comando da ALN, teve seus passos previamente levantados por Maria do Amparo Almeida Araújo, também militante da ALN?


Que foi ela própria quem revelou esse detalhe no livro “Mulheres que Foram à Luta Armada”, de Luiz Maklouf ?


Que Maria do Amparo Almeida Araújo é atualmente a presidente do “Grupo Tortura Nunca Mais” de Pernambuco, entidade criada para denunciar as “torturas e assassinatos” da chamada “repressão”?

- Finalmente, leia este trecho, altamente significativo, considerando a identidade de seu autor: “No curso de Estado-Maior, em Cuba, esmiuço a história da revolução cubana e constato evidentes contradições entre o real e a versão divulgada pela América Latina afora (...) Muitas ilusões foram estimuladas em nossa juventude pelo mito do punhado de barbudos que, graças ao domínio das táticas guerrilheiras e à vontade inquebrantável de seus líderes, tomou o poder numa ilha localizada a 90 milhas de distância de Miami. Balelas, falsificações (...) O poder socialista instituiu a censura, impediu a livre circulação de idéias e impôs a versão oficial. Os textos encontrados sobre a revolução cubana são meros panfletos de propaganda ou relatos fatuais, carentes de honestidade e aprofundamento teórico (...) O Partido Comunista é o único permitido, e em seus postos importantes reinam os combatentes de Sierra Maestra ou gente de sua confiança, em detrimento dos quadros oriundos do movimento operário (...)


Os contatos com as organizações de luta armada (de toda a América Latina) são feitos através do S2 (Inteligência) ,conseqüência das deturpações do regime. A revolução na América Latina não seria uma questão política e sim, usando as palavras do caricato Totem, “de mandar bala”. Nos relacionamos com os agentes secretos, que tentam influenciar na escolha de nossos comandantes, fortalecem uns companheiros em detrimento de outros, isolam alguns para criar uma situação de dependência psicológica que facilite a aproximação, influência e recrutamento; alimentam melhor os que aderem à sua linha e fornecem informações da nossa Organização, concedem status que vão desde a localização e qualidade da moradia à presença em palanques nos atos oficiais; não respeitam nossas questões políticas e desconsideram nosso direito à autodeterminação”.


Totem, acima mencionado, é o general Arnaldo Uchoa, comandante do Exército em Havana, no início dos anos 70, fuzilado nos anos 80, sob a acusação de ser narcotraficante.

O que acima foi transcrito está nas páginas 178 a 181 do livro “Nas Trilhas da ALN”, de autoria de Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz (“Clemente”), um dos “comandantes” da Ação Libertadora Nacional, que recebeu treinamento militar em Cuba. “Clemente” foi autor de vários assaltos a bancos, estabelecimentos comerciais, assassinatos e “justiçamentos”, como o do seu próprio companheiro Márcio Leite Toledo e do presidente da Ultragaz em São Paulo, Henning Albert Boilesen.

Ao concluir o curso em Cuba, nos idos de 1973, “Clemente” desertou da luta armada e foi viver em Paris, somente regressando ao Brasil após ter sido um dos anistiados pelo presidente Figueiredo, derrubando outro mito até hoje difundido pelas esquerdas de todos os matizes: o de que a Anistia não foi Ampla, Geral e Irrestrita Hoje, vive no Rio de Janeiro. Dá aulas de violão para crianças e participa de eventos culturais organizados pelo Movimento dos Sem-Terra.


Carlos I. S. Azambuja - Fonte: http://www.alertatotal.net/2016/01/um-pouco-de-historia-nao-faz-mal-ninguem.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+AlertaTotal+%28Alerta+Total%29
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O árduo caminho rumo ao poder

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Um Estado sem poder é um Estado submisso ao poder de outros. O prestígio auxilia a destravar o caminho para o poder, ao mesmo tempo em que a busca de uma posição de hegemon confere prestígio.

Triste é reconhecer que a idéia que se fez do Estado nos círculos intelectuais brasileiros com influência política contribuiu e contribui ainda hoje para diminuir, se não destruir, qualquer iniciativa do Estado em que ele apareça como sujeito ativo e, principalmente, altivo. A busca pelo poder do Brasil é, assim, uma jornada em que o prestígio já não mais é um ponto de partida. E não apenas o prestígio deixou de ser ponto de partida porque já o perdemos, como também até mesmo um órgão dos meios de comunicação internacional, a revista Economist – refletindo a opinião dos que pensam política internacional em termos de poder nacional e com base nos fatos, não em frases que exaltam as utopias -, desmoralizou internacionalmente a empáfia brasileira por completo.

A pequena reação à assinatura do TNP e o Acordo internacional sobre mísseis já demonstrava aos que poderiam estar preocupados com o crescimento do Brasil como potência que essa preocupação não tinha qualquer razão de ser. E não tinha pelo simples fato de que a idéia de Estado se alterara internamente e o novo grupo dirigente estava mais preocupado com o juízo dos intelectuais engajados na construção de uma idílica nova ordem internacional do que com a afirmação do poder nacional.

O Brasil não perdeu potencial, mas perdeu meios de se impor após um processo político ilusoriamente “democratizante” que não só levou à redução do papel das FFAA no Estado, como desvirtuou o papel da Diplomacia, que cedeu a cuidar preferencialmente de assuntos comerciais. O Mercado passava a ser mais importante que o Estado. Abrindo-se o Mercado sem qualquer cuidado, foi aberto o caminho da desindustrialização. Nem Estado nem Mercado foram levados a sério. Porque a nova política não era séria.

A busca por poder deve apoiar-se em uma idéia firme de Estado. Também na vontade de afirmá-lo como ideal a ser atingido. E na recusa consciente e pública a que seja ele tratado como um Estado sipaio ou sendo com isso confundido para chefiar missões de paz.

Apenas um Estado economicamente forte poderá aspirar a uma posição capaz de influenciar a política de outros Estados. Essa proposição indica que o crescimento econômico deverá ser preocupação constante de sucessivos governos. O grupo que no Estado brasileiro se dispuser a conduzir o processo de transição da situação do Brasil como um país sem prestígio à de um País com poder não poderá deixar de ter essa idéia como guia. A crise em que o Brasil se debate não mais poderá se repetir, sob pena de o Estado brasileiro perder as condições que lhe permitiriam postular a posição de hegemon. Em outros termos, o desenvolvimento econômico sustentável é a condição para que se possa iniciar a longa e penosa caminhada do prestígio ao poder.

A transição deverá dar-se de maneira sensível no plano interno e no das relações exteriores. É uma operação complexa com várias fases, muitas focando os vizinhos da América do Sul como objeto da ação e outras o Brasil propriamente dito.

Essa passagem significará uma ampliação do poder do Estado brasileiro na sua relação com os vizinhos, além da afirmação de um objetivo que poderá facilmente ser entendido como busca de um status de hegemon no quadro das relações internacionais na América como um todo. A ação do Itamaraty será essencial para combater e desmistificar campanhas contra o Brasil sob pretexto de que o aumento no poder nacional é a emergência do imperialismo ou um retorno aos tempos em que se fazia propaganda contra um suposto sub-imperalismo brasileiro a serviço do imperialismo norte-americano.

Não será difícil ao MREx demonstrar o absurdo da proposição atuando junto às Universidades e a Mídia nos países sul-americanos, embora a ideologia que permitiu a idéia do sub-imperialismo tenha sido forte o suficiente para perturbar as relações do Brasil com seus vizinhos, já prejudicadas pelo fato de que o Presidente Nixon, ao saudar o Presidente Médici, tivesse dito que o Brasil tinha a hegemonia na América Latina.

Não devemos nos esquecer, em hipótese alguma, de que a passagem de prestígio a poder exigirá resolver os problemas ideológicos que impedem a afirmação do Estado brasileiro, internamente, como dirigente do processo de transformação e, nas relações exteriores, como um candidato a hegemon, disputando tal posição com os EUA e/ou qualquer outro Estado que possa ter condições de oferecer uma saída aos diferentes problemas de, pelo menos, a América do Sul.

Isso significa que o MREx terá um papel importante ao longo de todo o processo e que será necessário definir um órgão do governo para exercer a um tempo as funções controle das fronteiras e orientação do quase certo tumulto social que poderia suceder a um aumento descontrolado da imigração.

Esse órgão poderia ser o Conselho de Segurança Nacional – se a cega hostilidade às FFAA não o tivesse substituído por um inócuo Conselho da República e um ineficiente Ministério da Defesa. Ele não deve desempenhar o papel que o Politiburo da Comissão Central do PC da URSS teve ao controlar a Internacional, cuja ação era voltada a defender a política interna no tempo de Stálin. Sua função seria defender o Estado.

O temor contra a presença ostensiva das FFAA como defensoras do interesse nacional não é o de que se retroceda no campo das ditas conquistas democráticas, mas sim que o País se afirme internacionalmente como um polo de poder e não apenas como uma grande fábrica à maneira chinesa, um grande mercado consumidor ou uma chave para fazer negócios de empreiteiras na periferia do sistema.



Oliveiros S. Ferreira é Historiador, Cientista Político e Jornalista. Professor Emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Originalmente publicado no site “Pensar e Repensar”. Fonte: Alerta Total – www.alertatotal.net
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O legado de Shakespeare

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O quarto centenário da morte de William Shakespeare não é apenas uma oportunidade para celebrar um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. É um momento para enaltecer a influência extraordinária de um homem que, tomando emprestada sua própria descrição de Júlio César, "cavalga o mundo estreito como um Colosso".

O legado de Shakespeare não tem paralelo: suas obras foram traduzidas para mais de cem idiomas e estudadas por metade dos alunos do mundo. Nas palavras de Ben Jonson, um de seus contemporâneos, "Shakespeare não pertence a uma era, mas a todos os tempos".

Shakespeare desempenhou um papel fundamental na formação do inglês moderno, ajudando a torná-lo a língua do mundo. Três mil novas palavras e frases foram impressas pela primeira vez em suas peças.

O bardo inglês também foi pioneiro no uso inovador de estruturas gramaticais, incluindo versos sem rimas, superlativos e conexões para formar novas palavras, como "bloodstained" (manchado de sangue). Além disso, a excelência de sua obra ajudou na padronização da ortografia e da gramática.

A influência de Shakespeare, todavia, vai além do idioma. Suas palavras, tramas e personagens continuam a inspirar grande parte da nossa sociedade. Enquanto era prisioneiro, Nelson Mandela acalentava uma citação de "Júlio César": "Os covardes morrem muitas vezes antes de sua verdadeira morte; os valentes provam a morte só uma vez".

A influência do dramaturgo está em toda parte, de Dickens e Goethe a Verdi e Brahms; de "A Ratoeira", peça de Agatha Christie inspirada em "Hamlet", ao musical "Amor, Sublime Amor". Os espetáculos do bardo continuam a entreter milhões –de escolas em todo o mundo às sessões teatrais noturnas.

Mas talvez o legado mais emocionante de Shakespeare seja sua capacidade de educar. Como podemos ver pelo trabalho da Royal Shakespeare Company e do Shakespeare's Globe, estudar seus textos pode ajudar a melhorar a alfabetização e confiança na aprendizagem.

Ao longo de 2016, o Reino Unido convida você a fazer parte da celebração desse legado. Em 5 de janeiro, data em que se passa a peça "Noite de Reis", lançamos o William Shakespeare Lives –programa mundial de atividades para destacar sua influência e ampliar o uso de sua obra como um recurso para a educação.

O programa acontecerá em mais de 70 países, liderado pelo British Council e pela campanha Great Britain. Nele, o público poderá compartilhar o seu momento favorito da obra de Shakespeare nas mídias sociais; assistir performances; visitar exposições; participar de workshops e debates; acessar novos recursos educacionais.

A Royal Shakespeare fará uma turnê pela China e o Shakespeare's Globe realizará performances em todo o mundo.

A campanha #PlayYourPart irá estimular a produção de tributos digitais ao bardo. Em parceria com a Voluntary Services Overseas, vamos conscientizar as pessoas sobre o combate ao analfabetismo e usar Shakespeare para criar oportunidades educacionais.

Além do grande dom da linguagem, de trazer à vida a nossa história, de sua influência em nossa cultura e de sua capacidade de educar, existe ainda o imenso poder de Shakespeare de inspirar.

Ele criou a mais famosa história de amor e a maior tragédia; a mais poderosa fantasia e a mais espirituosa comédia; os discursos mais memoráveis e seus vários personagens lendários.

A vasta imaginação, a criatividade sem limites e o instinto para a humanidade de Shakespeare abrangem a totalidade da experiência humana como ninguém jamais conseguiu, antes ou depois.



DAVID CAMERON, 49, é primeiro-ministro do Reino Unido - Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/01/1727637-o-legado-de-shakespeare.shtml?cmpid=newseditor

O meu país

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Um país que crianças elimina,
Que não ouve o clamor dos esquecidos,
Onde nunca os humildes são ouvidos,
E uma elite sem Deus é quem domina,
Que permite um estupro em cada esquina,
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão baixa cerviz,
E massacram-se o negro e a mulher,
Pode ser um país de quem quiser,
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos,
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis,
Um país onde os homens confiáveis
Não tem voz, não tem vez, nem diretriz,
Mas corruptos tem vez, voz e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser um país de qualquer um
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que seus índios discrimina
E a ciência e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina;
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de Raio-X
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol,
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir na noite escura;
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil “brasis”
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz de conta
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que dizima sua flora
Ensejando o avanço do deserto
Pois não salva o riacho descoberto
Que no leito precário se estertora;
Um país que cantou e hoje chora
Pelo bico do último codorniz,
Que florestas destrói pela raiz
E a grileiros de fora entrega o chão
Pode ser que ainda seja uma nação
Mas não é, com certeza, o meu país.


Orlando Tejo

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domingo, 10 de janeiro de 2016

Guinada, mas para onde?

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O estupor com que as declarações de ontem da presidente Dilma foram recebidas pelos movimentos de esquerda e pelos blogueiros chapa-branca não tem preço. A presidente que chegou para o café da manhã com jornalistas parecia outra pessoa: defendeu o equilíbrio fiscal, a inflação dentro da meta, reforma da Previdência, uma série de pontos que são opostos ao que PT e o ex-presidente Lula pretendem. E negou que tenha em algum momento tratado de uma “guinada à esquerda” na economia.

Está ficando cada vez mais clara essa distância entre os dois. O que é surpreendente é que a presidente Dilma esteja defendendo pontos de vista corretos, mas fica a pergunta: Por que nunca fez isso? Por que passou todo o primeiro mandato fazendo o contrário? Por que colocou o país nessa situação, a troco de quê, se está convencida de que o equilíbrio fiscal é fundamental?

Pelo jeito fez uma experiência, que deu errado, e agora tenta consertar retomando o rumo de uma política econômica que seus parceiros classificam de “neoliberal”, a mesma que ela tanto criticou durante a campanha eleitoral. Antes tarde do que nunca, mas o problema vai ser ter apoio no Congresso.

O PT e as centrais sindicais vão recusar apoio à reforma da Previdência nos termos anunciados por Dilma, a fixação de uma idade mínima para a aposentadoria. Ontem mesmo João Pedro Stedile, do MST, já se levantou contra Dilma, prometendo manifestações pelo país se os direitos dos trabalhadores do campo forem afetados. Também Boulos, do movimento dos Sem Teto, ameaçou um levante popular contra o governo. E a CUT já havia anunciado que não aceitará mudanças na aposentadoria dos trabalhadores.

A presidente vai ter que buscar apoio no PMDB e na oposição, e não creio que tenha condições para refazer sua base partidária assim de repente. No limite, ela teria que fazer um movimento brusco seguindo o conselho de Cid Gomes: sair do PT. Não creio que possa fazer isso. Mas quando Dilma fala que o governo não responde a um partido apenas, mas à sociedade, esta dizendo que o que o PT exige não se coaduna com o que a sociedade pretende.
Um recado claro da presidente, que enfatizou que nunca discutiu com o PT uma “guinada à esquerda”. Essas declarações foram feitas no dia seguinte a uma reunião com o ex-presidente Lula, que defendeu mais crédito, menos juros, para retomada rápida do crescimento econômico.

A presidente repetiu seu ministro Jaques Wagner, dizendo que não há coelho na cartola, que não se resolve com mágica a situação econômica, e o ex-presidente Lula deve ter entendido que já não tem condições de ditar as regras como antigamente. Os tempos mudaram, e nada mais exemplar dessa mudança do que as cinco horas em que Lula passou depondo na quarta-feira na Polícia Federal sobre a Operação Zelotes.

A presidente Dilma não parece preocupada com os arroubos de sua base social, mas em tentar fazer a coisa certa, finalmente. Mas vai ser muito difícil essa mudança de rumo, e não se vislumbra o que a fez ser tão assertiva quando era óbvio que as reações viriam de todos os lados que ainda a apoiam.

O dilema da presidente é que esse apoio, inclusive o de Lula, exige dela uma subserviência que ela parece não estar disposta a dar. E, diante do quadro de instabilidade política que a cerca, com o impeachment que, bem lembrou Lula, “ainda não está enterrado”, é difícil entender a guinada de Dilma, um salto sem rede de proteção.
Ela acabará dando motivos ao PT para se afastar de seu governo, romper politicamente a pretexto de defender os “interesses do povo”. Ir para o PDT, voltando às suas raízes brizolistas, conforme diversos sinais que surgiram nos últimos dias, não seria uma saída política brilhante, pois o brizolismo não é exatamente uma força política que possa sustentar um governo tão fragilizado quanto o de Dilma.

E a fixação de uma idade mínima é importante, sem dúvida, para a saúde financeira da própria Previdência e, por conseguinte, para o país, mas não é nem de longe um tema popular que dê respaldo político a um governante.


Fonte: http://blogs.oglobo.globo.com/merval-pereira/post/guinada-mas-para-onde.html
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Carta a um amigo petista

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Caro amigo, li sua missiva com alegria e tristeza. Alegre por vê-lo ainda crente e sempre disposto a lutar por um mundo justo. Triste porque tenho a impressão que o seu combate não tem muito fôlego, não vai muito longe.

Tenho o sentimento de que você defende uma proposta do passado, que não tem mais o mesmo vigor de antes, nem a capacidade de mudança que você imagina. Você defende um partido que perdeu sua hora. Não morreu, nem morrerá. Terá sua importância no cenário nacional, mas se transformou em partido convencional, sem utopia e sem capacidade de erguer uma bandeira que atraia a juventude e nos traga esperança. Seus líderes e sua base social mudam, caminham para a trajetória de conquistar o poder para fazer benesses aos seus eleitores, e, sobretudo, servir aos seus membros, mas não para mudar uma Nação.

Se é que de fato este desejo e esta possibilidade existiram um dia, além de nossa imaginação. Nós que nos conhecemos lutando contra a ditadura e enfrentando o frio do exílio europeu e do frio ainda mais árduo, da saudade. No meu caso conheci também a África, para onde me dirigi com a esperança de criar um novo socialismo.

Minhas considerações não têm como alvo suas ideias e menos ainda seus ideais, que respeito muito. Elas abordam questões que você suscita, mas referem-se ao ambiente que vivemos atualmente.

Tento compreender o que se passa, mas me incomodam as avaliações circunstanciais. O que chamo de análises de conveniência, pois elas não me ajudam a compreender o que se passa.

Dou alguns poucos exemplos.

1.Quando o Nordeste, nos anos 1980, estava nas mãos do antigo PFL, era porque os nordestinos eram atrasados, diziam os petistas, em particular sua vertente hegemônica, no caso, os paulistas. Quando o Nordeste na primeira década deste século fechou com Lula, transformou-se na vanguarda.

2. Quando os votos mais pobres, denominados de descamisados, elegeram Collor era porque eram ignorantes. Agora que votam em Lula, são clarividentes.

3. Quando a classe média estava com o PT, nos anos de 1980 a 2010, era o segmento intelectual e avançado do País. Agora que deu as costas para o PT viraram elite conservadora e racista.

4. A imprensa que nós temos é a mesma da fase áurea do Lula, quando sua popularidade chegava aos 80%, e ninguém reclamava. Agora a mídia virou instrumento da elite reacionário e dos agentes do imperialismo. Reclamam que a imprensa não diz o que Dilma está fazendo de bom. Mas imprensa nunca deu notícia do avião que chegou bem, apenas o avião que caiu. Porque as pessoas se interessam é por este e não por aquele.

Em resumo, a análise de quem está conosco é bom e quem está contra é ruim é pobre e não permite compreender o que se passa. Ajuda aos que querem se convencer que estão certos e os outros errados, são argumentos, no mau sentido, ideológico porque aludem à realidade, iludindo-a.

Veja a questão da intolerância que se manifesta ultimamente em vários pequenos incidentes amargos, condenáveis. Não há dúvida que se deve repudiar. São execráveis.

Você me fala de um ódio, de uma intolerância, antes desconhecida, e agora manifesta com força nas redes sociais e vez ou outra em nossos restaurantes ou aeroportos. Quais suas raízes?

Tem um componente de classe? É provável. Mas, não podemos esquecer que no governo Lula quem mais ganhou foram os bancos e não os pobres, que ganharam, claro, mas menos. E os banqueiros e grandes empresários industriais pressionaram o PT em 2014 para que Lula fosse o candidato e não Dilma. Portanto, o capital também se beneficiou e apoiou Lula por um bom tempo, e alguns ainda o fazem hoje. Lula conseguiu, e ainda consegue, colocar junto capital e trabalho. E apenas no imaginário de alguns de nossos amigos persiste a ideia de que o capital está contra o governo do PT e o proletariado a seu favor.

Há setores empresariais e de classe média que têm e sempre tiveram ódio do PT, e de qualquer força política que se coloque efetivamente contra a desigualdade social, porque são empedernidos na defesa de seus privilégios. E não aceitam viver em uma República. São monarquistas enrustidos.

Contudo, não podemos desconhecer que o PT tem uma história de intolerância. Expulsou três de seus deputados quando votaram em Tancredo. Pediu o impeachment de todos os presidentes desde 1989, incluindo Itamar. Expulsou Erundina porque ingressou neste governo. Interveio nas executivas estaduais toda vez que não estavam de acordo com a corrente hegemônica do partido, desde o Rio de Janeiro de Wladimir Palmeiras, até o Maranhão, humilhando o bravo resistente à ditadura, Manoel da Conceição, pois obrigou o PT a ser base de apoio da família Sarney. Não teve coragem de intervir em MG, quando alguns de seus quadros aliou-se com o PSDB na prefeitura de Belo Horizonte. Como nunca o fez no RS. Por uma razão simples, eram os dois polos que disputavam a hegemonia com os paulistas, e, portanto, tinham força. Os mais fracos, inclusive meu Pernambuco, não teve a mesma sorte. E estou citando apenas alguns exemplos.

Caro amigo, não podemos esquecer que foi o PT quem inventou o slogan: nós e eles.

O PT conviveu sempre mal com a ideia e o ideário democrático. Em grande parte, porque em sua trajetória a hegemonia foi ganha pela vertente dos sindicalistas, com apoio de alguns quadros da esquerda que lutaram contra a ditadura. As comunidades de base, e militantes mais democráticos, foram deixando o partido. Ora, o que menos sindicalistas conhecem e gostam é democracia: conheço bem o ambiente porque já fui um deles. Já vi professor sendo literalmente chutado para não subir no palanque porque era de corrente contrária. Os sindicatos brasileiros lembram os trade unionistas criticados por Lenine na passagem do século XIX ao XX: sabem defender seus interesses corporativos, mas são incapazes de lutar pelas mudanças estruturais. No governo Cristovam no DF, o atual senador concebeu um plano para universalizar as creches no DF. Os recursos proveriam de um fundo composto de três partes: do governo federal, com Ruth Cardoso, do governo do Cristovam no DF e dos servidores distritais que abririam mão da ajuda que recebem, prevista em lei. As crianças dos não servidores não puderam ter creches porque o sindicato travou as negociações. De um instrumento de inclusão social os sindicatos, em muitas situações, funcionam como instrumento de apartação.

Mas, não são apenas os sindicalistas que têm dificuldades em conviver com a ideia de democracia, sempre olhada como uma herança burguesa a ser suportada. Esta ideia era reinante e predominante nas esquerdas brasileiras dos anos 1960/1970 da qual participamos. Queríamos substituir a ditadura militar por outra ditadura, a do proletariado.

Talvez um componente não desprezível nesta questão da intolerância resida em um sentimento de traição que uma parte da classe média, em geral escolarizada, sente em relação ao PT, e a Dilma em particular. Ela que ingressou no partido em 2001 e dez anos depois era eleita para a Presidência por este mesmo partido. Classe média que apoiou o PT desde os anos 1980/1990. Lembremo-nos que o PT nasceu como o partido da ética e da mudança e se tornou um partido igual aos outros. Lula mesmo já disse várias vezes: um partido convencional. Mesmo o combate a pobreza que era um trunfo dos governos petistas – e meritório – está em vias de ser destruído com a recessão por três anos (2014/2015 e 2016), e o desemprego que ameaça chegar a casa dos dois milhões.

O PT atual traiu a ética e as propostas de mudanças das suas origens. E teve muitas chances de fazer estas mudanças, em particular a reforma política, que poderia reduzir drasticamente o custo das eleições e retirar as empresas deste meio, e não o fizeram.

Foram cometidos muitos erros. Os mais notórios estão presentes na condução desastrosa da economia no primeiro mandato de Dilma que nos levou a atual situação, com a invenção da “nova matriz econômica”. Uma piada…. de mau gosto. Os resultados estão aí. E não adianta dizer que a culpa é da economia mundial que se retraiu, pois enquanto entramos em recessão econômica outros países tem crescimento de 3 a 5% ao ano. Sem falar da China, com 7%. Mas, ela sempre ocupou um lugar a parte nesta matéria.

E no primeiro ano de governo, os erros continuaram, um atrás do outro. Começando por chamar Levy – independentemente de sua competência ou da justeza de suas posições ou não – que Dilma falava, seria a atitude do Aécio e da Marina: entregar a economia a um banqueiro. Continuando na desastrosa eleição do presidente da Câmara dos Deputados, fruto da arrogância de sua entourage. E, muitos outros, como o de propor para 2016 um orçamento deficitário. Ridículo. O resultado foi a queda do prestígio brasileiro no mundo das finanças internacionais.

Todos esses erros nos levaram a esta situação de recessão perto de 4%, inflação superior a 10%, déficit governamental de mais de 120 bilhões e desempregados acima de um milhão.

Mas, você me fala de defender o governo Dilma e o PT para barrar o crescimento da direita. Foi na base dos erros do primeiro mandato que a direita começou a se reorganizar e crescer. E ao invés de enfrentá-los corretamente, reconhecendo os erros e adotando uma política consistente, agravamos o quadro com uma campanha eleitoral em que a Dilma ganhou, mas não levou. Foi uma campanha imunda, para um partido que se pretendia o paladino da ética.

O PT, e com ele a esquerda, definha e a direita conservadora tende a assumir o poder, cedo ou tarde. Um retrocesso. Mas o que fazer? Defender o PT? Se houvesse possibilidade de mudança seria o primeiro a me inscrever na defesa. Mas com esta arrogância, com a política adotada, é indefensável.

Creio que estamos em um beco sem saída. Adoraria que o PT fizesse sua autocrítica, mudasse, e o governo da Dilma deslanchasse. Todos apoiaríamos. Seria ótimo, mas não tenho esperança.

Vivenciamos no momento atual um beco sem saída, como bem definiu Eliane Brum: “Duas coisas são hoje indefensáveis neste País, o impeachment e o governo Dilma”.

Caro amigo, se encontrar a luz no fim do túnel, por favor, nos fale. De toda forma, lhe falo que não estou pessimista, nem rancoroso. Por mil razões. Duas em particular. O mundo político não se divide entre esquerda petista e direita reacionária. Outras forças políticas existem e estão se movimentando para ocupar o vazio político deixado pelo PT. Em segundo, acho que a esquerda – se vai continuar a ser um termo de referência no futuro não sei – tem e deve se redefinir, rever seu ideário, perder seus preconceitos. Reler as ideias liberais e socialistas, refletir sobre as derrotas do socialismo e suas razões, repensar o papel do Estado, valorizar a autonomia dos indivíduos.

Finalmente, no médio e longo prazos tenho a esperança que conseguiremos vencer a maré e recriar uma força política tolerante, visceralmente democrática, comprometida com a sustentabilidade, sem arrogância, e consistente; acolhedora e sem pretensões de hegemonia forte e autoritária. E, sobretudo, aberta ao entendimento das mudanças que o mundo moderno conhece com uma velocidade atroz. Creio que seremos capazes de jogar as ideias velhas e sem sentido, os discursos sem respaldo empírico, na lata do lixo, e renovar nossa compreensão do mundo e nosso ideário. Mas é difícil e exige coragem, pois muitos, inclusive muitos amigos, ficarão contra, e me execrarão. Espero que você não seja um desses. E continuemos o debate. Se formos democráticos, ambos teremos mudado depois de um tempo. E, provavelmente, para melhor. Com uma compreensão mais fina do que se passa ao nosso redor.

Feliz 2016.

Elimar Pinheiro do Nascimento


Elimar Nascimento é Sociólogo, professor da UnB.
Fonte: http://revistasera.info/carta-a-um-amigo-petista-elimar-pinheiro-do-nascimento/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A defesa do Palácio Guanabara contra os comunistas em 1964.

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O FRONT DO GUANABARA – Por Sérgio Pinto Monteiro*


A revolução de 31 de março de 1964 tem sido objeto das atenções de inúmeros historiadores. Suas causas, motivações, desdobramentos, consequências, erros e acertos, são bem conhecidos dos analistas, principalmente os mais isentos, que buscam as verdades daquele período num emaranhado de informações, quase sempre sob forte influência de componentes ideológicos. A chamada esquerda brasileira, derrotada no passado e hoje no poder, mantém a sua estratégia de reescrever a história ao sabor de interesses políticos e eleitoreiros. Cabe-nos, como verdadeiros democratas, repetir à exaustão os fatos históricos que há 48 anos evitaram que o nosso país fosse lançado numa aventura comuno-sindicalista, incompatível com os valores e princípios que forjaram a nacionalidade.

Texto completo, fotos e audio do Lacerda capturado por radio amador de Minas Gerais.

Um dos episódios daquele contexto que merece destaque é o da defesa do Palácio Guanabara - sede do governo estadual - nas quarenta e oito horas que redundaram no afastamento e fuga do Presidente da República.

Naqueles dias conturbados do início de 1964, o recém criado Estado da Guanabara era governado por Carlos Frederico Werneck de Lacerda, opositor ferrenho do governo do Presidente João Belchior Marques Goulart. Orador inflamado, grande administrador, Lacerda era um dos mais importantes líderes da resistência democrática brasileira contra o avanço do totalitarismo de esquerda que ameaçava levar o nosso país para bloco soviético. O relato que se segue é uma tentativa de resumir a história da defesa do Palácio Guanabara contra possíveis ataques desesperados de um governo agonizante. As fontes utilizadas são depoimentos, relatos, entrevistas, documentos e noticiário da imprensa. Ao mesmo tempo, como partícipe do dispositivo militar montado para rechaçar um eventual - mas esperado - ataque à sede do governo estadual, procurei descrever o que a minha memória reteve, tanto tempo já decorrido. O objetivo maior deste texto é a preservação da história de um importante episódio daquele dias, onde se misturam emoções, patriotismo, desprendimento, coragem, solidariedade, lealdade e companheirismo.




O plano de defesa do Palácio Guanabara começou a se delinear no segundo semestre de 1963. O cenário político de então já mostrava, claramente, a disposição do governo federal em retaliar o Estado da Guanabara por sua oposição radical ao sistema dominante. O governador Lacerda, ao lado de importantes lideranças civis e militares, defendia, ostensivamente, a queda do presidente João Goulart. Odiado pela esquerda brasileira, principalmente pelos comunistas, Lacerda - que na sua juventude renegara o marxismo-leninismo - sabia dos riscos a que o seu governo estava exposto numa situação de confronto com o governo de Jango, especialmente se houvesse o envolvimento das Forças Armadas. Valendo-se da antiga amizade desenvolvida com um grupo de Oficiais da Força Aérea Brasileira quando do episódio do atentado que, em 1954, vitimou o Major Aviador Rubens Florentino Vaz, no qual ele próprio foi também atingido, o governador Lacerda nomeou para Secretário de Segurança do Estado o Coronel Aviador Gustavo Eugênio de Oliveira Borges, e incumbiu-o de elaborar um plano de segurança e defesa para a sede do governo estadual, no Palácio Guanabara.




No documento foram priorizados investimentos em três setores dos organismos policiais do Estado: comunicações (em especial via rádio), transportes (inclusive viaturas do tipo “choque”) e armamento (especialmente metralhadoras). Como resultante do aperfeiçoamento nas comunicações, as “patrulhinhas” da Polícia Militar tiveram ação relevante no acompanhamento da movimentação das forças hostis nos dias 30/31 de março e 1º de abril de 1964. Postadas, sem chamar a atenção, em locais estratégicos, mantiveram o centro de controle abastecido de informações via rádio, em tempo real. Outra relevante providência adotada nessa área foi o estabelecimento de um centro de controle móvel, com três viaturas equipadas e prontas para, rapidamente, se deslocarem com destino a qualquer ponto do Estado. Esse dispositivo de comunicações foi acionado com ótimos resultados, tendo sido fundamental a participação de um elemento civil, um rádio-amador voluntário que teve marcante atuação, assegurando ao governador um canal permanente com Minas Gerais, apesar do bloqueio imposto ao Palácio. 




O planejamento da defesa do Palácio Guanabara pretendia atingir três objetivos principais: 
“o aspecto moral e psicológico da manutenção em nosso poder daquilo que simboliza a defesa da democracia na Guanabara; o aspecto concreto da preservação da vida do governador; e finalmente proporcionar os meios para o governador proclamar, via rádio para todo o Brasil, a agressão sofrida, denunciando o golpe comunista e conclamando o restante do país à resistência.”

O PLANO DE DEFESA
O plano de defesa do Palácio Guanabara, resumidamente, previa cinco linhas de defesa:

1ª linha - cinco batalhões da Polícia Militar, dispostos em arco, desde o Hotel Glória até uma posição ao norte do Palácio. Elementos da polícia civil, descaracterizados, fariam rápidos ataques de inquietação. Esta primeira linha de defesa foi apenas parcialmente acionada.

2ª linha - grupamento formado por militares e civis voluntários, sob o comando do Cel Av João Paulo Burnier, equipados com armas automáticas, anti-tanques, coquetéis molotov e dinamite. Esses elementos, formando pequenos grupos de combate, ficariam dispersos tanto nas vias de acesso ao Palácio como em apartamentos cedidos por moradores, preferencialmente entre o 4º e 6º andar. O posto de comando do Cel Burnier foi instalado na Escola Anne Frank. Esta linha de defesa foi ativada no início da tarde do dia 31. Desse contingente de voluntários fazia parte o ex-combatente da FEB Cel Osnelli Martinelli que comandava o grupo nº 22, cuja missão era proteger as entradas do túnel Catumbi-Laranjeiras.



3ª linha - formada pelo 2º Batalhão da Polícia Militar (quartel da rua São Clemente) que ficaria entrincheirado em sucessivas linhas de caminhões pesados da frota do Estado (a maioria da COMLURB) posicionados de modo a dificultar o acesso de carros de combate e demais viaturas inimigas. Esta linha entrou em operação na manhã do dia 31.

4ª linha - constituída por voluntários “especiais” com armas anti-tanque mais pesadas. Algumas viaturas (jipes e caminhonetes) foram adaptadas para esse tipo de armamento e certamente se constituiriam num fator de grande surpresa para as forças hostis. Ficariam em reserva e entrariam em ação quando as três linhas anteriores já tivessem retraído e concentrado seus elementos nas quatro vias de acesso à rua Pinheiro Machado. Esses voluntários “especiais”, em sua maioria militares com experiência no manejo daquele armamento, estavam sob o comando direto do Cel Burnier.



5ª linha - formada pela 1ª Cia Independente da PM, sediada no Palácio, por vários choques da Polícia de Vigilância e reforçada, eventualmente, por elementos remanescentes das linhas anteriores. A resistência final seria na própria sede do governo, prevendo-se a retirada pelo maciço do Sumaré. A tática seria trocar espaço por tempo. Para o governador e outras autoridades estava planejada uma evasão com destino às lanchas do Corpo Marítimo de Salvamento, colocadas em pontos estratégicos da praia. Essa última linha de defesa seria comandada pelo General (ex-integrante da FEB) Salvador Gonçalves Mandin, Secretário de Serviços Públicos do governo do Estado.




No plano de defesa do Palácio - cujo dispositivo ficou pronto na segunda-feira, dia 30 de março - foram também incluídos serviços de intendência (com suprimentos diversos), geradores de energia (dois grupos) e serviços médicos. Nas encostas à retaguarda do Palácio (morro Novo Mundo) foram derramados mais de mil litros de óleo diesel com a finalidade de dificultar qualquer tentativa de progressão do inimigo com mais armamento pesado. Também foram acionadas viaturas do Corpo de Bombeiros. O plano previu até mesmo um dispositivo para o enterro dos mortos.

OS ACONTECIMENTOS
Dia 31 de março de 1964

04:30 horas - chega ao Palácio Guanabara a notícia de que o comandante da 4ª Região Militar, General Olímpio Mourão Filho e o governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, se declararam rebelados, não mais obedecendo ao poder central. Era o desencadeamento da Operação Popeye, planejada de há muito pelo Gen Mourão. Em consequência, estava formado o “Destacamento Tiradentes”, com tropas do Exército e da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, que marcharia para o Rio de Janeiro sob o comando do General Antonio Carlos da Silva Murici.
O governador Lacerda está no palácio desde o domingo, dia 29. Na noite anterior assiste até tarde ao filme “O PT-109”, sobre a participação do presidente Kennedy na II Guerra Mundial. Com as notícias vindas de Minas Gerais, o governador é imediatamente acordado pelo seu secretário particular, Hugo Levy, e assume o comando das ações. Chegam informações das Rádio-Patrulhas da PM que tropas da Vila Militar já se deslocam 
para enfrentar as forças do Grupamento Tiradentes, a caminho do Rio de Janeiro. 





As linhas de defesa do Guanabara entram em alerta. Caminhões pesados do Departamento de Limpeza Urbana, atravessados nas ruas Pinheiro Machado, Paissandu, Ipiranga, Coelho Neto e Farani, formam barricadas que isolam o Guanabara. Voluntários fortemente armados assumem suas posições, inclusive nos terraços de edifícios próximos. Uma metralhadora pesada Hotchkiss é colocada pela PM junto à porta do salão nobre onde se encontra o governador. Há um clima de expectativa e vibração entre os militares e civis que integram o dispositivo. Pouco dias antes, um grupo de marinheiros apoiados por fuzileiros navais comandados pelo Almirante Cândido da Costa Aragão foram protagonistas de um triste episódio de desordem e quebra de hierarquia. Na ocasião, o governador Lacerda fez violentos pronunciamentos em defesa da honra da Marinha e contra as atitudes aqueles militares. Temia-se uma ação violenta do Alte Aragão contra a sede do governo do Estado.




16:00 horas - uma RP da PM estacionada nas proximidades do então Regimento de Reconhecimento Mecanizado comunica que uma formação de cinco carros de combate M-41 (recém chegados dos Estados Unidos) deixa o quartel no Campinho em alta velocidade. Outras RP assinalam o trajeto dos blindados: Piedade, Méier, Maracanã, Mangue, Ministério da Guerra. Em seguida, novas notícias de sucessivas saídas de mais carros de combate, seguindo o mesmo itinerário. Entretanto, os cinco últimos blindados não estacionam no Ministério. Seguem pela rua Uruguaiana, em direção ao Catete. Pode ser uma investida contra o palácio. O Cel Burnier, entretanto, raciocina diferente: diante do forte dispositivo de proteção montado em torno do Guanabara, com apenas cinco carros de combate e sem tropa de infantaria, certamente não haveria intenção do “inimigo” de atacar a sede do governo estadual. Apesar disso, a 3ª e 4ª linhas de defesa são colocadas em alerta máximo. Os blindados , entretanto, se dirigem ao Palácio das Laranjeiras onde se encontra o presidente Jango e numerosos membros do seu governo.




16:10 - aviões da FAB fazem voos rasantes sobre o Guanabara. Apesar do temor de um ataque aéreo, há uma impressão geral de que a FAB não atacaria o Palácio em virtude da presença de inúmeros Oficiais da Aeronáutica entre os seus defensores, inclusive, do Marechal do Ar Eduardo Gomes, lenda viva da Aeronáutica e que em 1984 viria a ser declarado Patrono da Força Aérea Brasileira.

20:00 - o governador Lacerda inicia uma das muitas reuniões do Secretariado. Identifico várias figuras conhecidas: Deputado Abreu Sodré, General Salvador Mandin, Profª Sandra Cavalcante, Radialista Raul Brunini, Rafael de Almeida Magalhães, Deputado Cel Costa Cavalcanti, Deputado Nina Ribeiro, Cel Av Américo Fontenelle, Deputado Cel Danilo Nunes, Coronel PM Edson de Moura Freitas, Coronel Av Gustavo Borges, Coronel Gervásio Deschamps, Sebastião 
Lacerda (filho do governador), Jornalistas Hélio Fernandes e Sebastião Nery, Deputado Mac Dowell Leite de Castro, entre muitos outros. Ao final da reunião, todos assistem a uma missa na capela de Santa Terezinha, nos jardins do Palácio, celebrada por um capelão.



22:00 - as RP informam que os fuzileiros navais do Batalhão Riachuelo deixam o quartel da Ilha do Governador. Essa notícia gera inquietação entre nós. Sabíamos que era muito provável um ataque de fuzileiros navais. Decorrido algum tempo, veio a confirmação das RP: quatro caminhões tendo à frente uma viatura de assalto, com fuzileiros fortemente armados, passam pela Cinelândia, tomam a direção da Glória e dirigem-se à rua Farani. Todos nos preparamos para o confronto. O governador Lacerda recebe uma metralhadora INA e, junto com o Gen Mandin, passa em revista os postos de combate, cumprimentando e agradecendo o apoio dos militares e voluntários. No entanto, a movimentação dos fuzileiros era uma ação psicológica que haveria de se repetir outras vezes. O comboio estacionou por algum tempo próximo à rua Farani, para, em seguida, dirigir-se ao Palácio das Laranjeiras.




Dia 1º de abril de 1964

00:30 - o clima é de muita tensão. As notícias são todas de adesões da área militar ao movimento iniciado em Minas Gerais. Mas uma dúvida ainda nos incomoda: a posição do II Exército, comandado pelo General Amauri Kruel. Suas ligações de amizade com o presidente Jango parecem estar retardando a definição daquela Força, cujo apoio é fundamental para qualquer dos lados. O Deputado Abreu Sodré manifesta confiança no patriotismo do General Kruel e rebate algumas opiniões pessimistas. De repente, o deputado irrompe no gabinete do governador aos gritos: o Kruel já está vindo! Há uma intensa comemoração em todo o Palácio. É a certeza de que a vitória se aproxima.



01:30 - a tensão aumenta. O Palácio tem a energia cortada. Os grupos geradores instalados no jardim de inverno entram em ação. Aparelhos de ar condicionado são desligados. As linhas telefônicas também deixam de funcionar, permanecendo ativas apenas duas, ligadas secretamente. Ninguém dorme. O Marechal do Ar Eduardo Gomes chega ao Palácio acompanhado de dois sobrinhos. A seu lado, o desembargador Presidente do Tribunal de Justiça e seu filho, portando uma metralhadora. Há um cheiro de pólvora no ar. Um novo informe de uma possível investida de fuzileiros navais movimenta o nosso dispositivo. O governador se preocupa e liga para São Paulo em busca de ajuda. Era apenas mais um deslocamento de forças da Marinha em direção ao Palácio das Laranjeiras. Chove muito. Os bravos militares da PM e da Polícia de Vigilância (P-Vg), estes últimos sob o comando de outro ex-integrante da FEB, o Cel Gervásio Deschamps, permanecem atentos em seus postos, apesar do temporal. Os grupamentos de voluntários cujas posições ficam fora do palácio recebem, a todo o momento, o carinho dos moradores. Capas de chuva, água, refeições e lanches são fornecidos por vizinhos anônimos a centenas de companheiros. Até hoje, decorridos quase 50 anos, ainda me emociono com tais recordações de apoio e solidariedade.




03:30 - uma notícia que muito nos alegra: numa ação ousada, buscando uma informação mais conclusiva sobre os fuzileiros navais, um policial se apresenta no Ministério da Marinha conduzindo um rabecão do IML supostamente para atender uma solicitação das autoridades navais. A guarda acaba permitindo a entrada daquela viatura inofensiva (e macabra) que após um pequeno giro pelas instalações, constata que o Batalhão Riachuelo repousa tranquilamente nos imensos corredores do Ministério, sem qualquer sinal de movimentação.




05:00 - chega ao palácio um novo grupo de voluntários, somando-se aos mais de trezentos militares da reserva já em atividade. São ao todo 31 Oficiais-Generais da reserva já idosos. Sobre esse episódio, mais tarde escreveu o governador Lacerda:
“se colocaram à minha disposição para qualquer missão. Estavam, em sua maioria, desarmados. Os da Marinha, solicitaram uma lancha para atacar uma ilha pouco defendida, onde sabiam da presença de muito armamento. Todos afirmaram que não poderiam ficar de braços cruzados naquela situação. Vocês não podem imaginar a minha emoção diante da disposição de luta daqueles homens. Confesso que fiquei com os olhos rasos d’água”.




08:00 - outro sinal de alerta: os postos avançados da rua Farani detectam a presença de fuzileiros navais nas encostas do morro à retaguarda do Palácio. Fala-se em um possível ataque de morteiros. O governador Lacerda, usando o sistema de som instalado fora do prédio, faz uma vibrante conclamação aos moradores da vizinhança solicitando que se recolham ao interior de suas moradias porque há suspeita de um iminente ataque à sede do governo. Em sua fala, o governador apela aos cariocas para que ajudem a denunciar ao Brasil que o Palácio Guanabara está para ser atacado pelos fuzileiros navais do Alte Aragão, a quem desafia, afirmando: “não te aproximes que eu te mato com meu revólver!”
Uma nova informação dá uma trégua na expectativa de um confronto iminente: os fuzileiros navais fizeram realmente uma incursão na área, mas retiraram-se em seguida.




09:00 - Chega ao palácio o produtor de televisão Flávio Cavalcanti, acompanhado do empresário Abraão Medina. Combinam transmitir pela TV-Rio o áudio de um pronunciamento do governador, o que ocorreu no meio da tarde.

12:30 - vibração geral no Palácio: o Cel César Montagna, ex-febiano, no comando de um grupo de cerca de quarenta Oficiais da ECEME e da ESG, numa ação ousada, toma o Quartel-General da Artilharia de Costa, no Forte de Copacabana.

12:45 - nossos observadores informam que o presidente João Goulart deixa apressadamente o Palácio das Laranjeiras num Volkswagen, ao lado de seu secretário de imprensa, Raul Ryff, seguido pela Mercedes oficial e outros veículos. Uma RP confirma a notícia e segue à distância o comboio até o
aeroporto Santos Dumont. Na pista, Jango embarca na aeronave da FAB Viscount 2.101. Destino inicial, Brasília. Era o começo da fuga. 




O clima no Palácio já começa a ficar festivo. As rádios oficiais - Nacional e MEC - bem como a Mayrink Veiga, antes a serviço do governo, saem do ar. Nos edifícios, chuva de papel picado. O povo começa a lotar as ruas, cantando e pulando de alegria. Buzinaços. Carreatas. Aquele mesmo povo que ajudara a proteger o palácio do seu governador sai às ruas num verdadeiro carnaval. Na euforia da vitória, eu me pergunto com a simplicidade de um jovem Tenente da Reserva de vinte e quatro anos: onde está o povo que Jango tanto cortejou? Porque não foi defender o seu presidente no Laranjeiras? A resposta vem rápida em minha mente: o povo brasileiro jamais aceitará o comunismo, qualquer que seja a sua versão.




15:25 - as RP informam que os fuzileiros navais estacionados no Largo do Machado, na rua Gago Coutinho e no Parque Guinle, abandonam suas posições. A notícia, divulgada pelos auto-falantes do palácio, é comemorada com intensa emoção. Fogos de artifício e disparos esparsos. Gritos, muitos gritos. Abraços intermináveis, dentro do palácio e nas ruas adjacentes.

15:50 - três carros de combate M-41 do RRecMec se aproximam do Palácio Guanabara. Um de seus comandantes parlamenta com os Coronéis da FAB Paulo Vitor e Estrela, que integram o nosso dispositivo de voluntários nas imediações da sede do governo estadual. Vinham se apresentar ao governador Lacerda para ajudar na proteção do palácio. Abrem-se, então, as barricadas que defendiam a democracia. A vibração atinge o seu clímax. O povo cerca os blindados e, aos gritos, acompanha as viaturas, perigosamente, até os portões do Guanabara. Entre nós, as lágrimas são incontroláveis. O governador Lacerda rapidamente vem receber os militares. E chora, emocionado, quando percebe que os comandantes dos carros eram os filhos de seu velho amigo, General Alcides Gonçalves Etchegoyen. Nesse momento, juntos, abraçados, irmanados, todos cantamos o Hino Nacional Brasileiro. 




Em 2 de abril de 1964, a população do Rio de Janeiro saiu às ruas na maior manifestação pública até então realizada pelos cariocas. Um milhão de pessoas comemoraram a vitória da democracia na “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que ficou conhecida como “A Marcha da Vitória”.
Meio século depois, para nós, voluntários do Front do Guanabara, ficou uma saudosa e emocionante lembrança. E, mesmo hoje, as lágrimas ainda são inevitáveis. Creio que os quase quinhentos voluntários que participaram da epopéia do Palácio, não o fizeram para defender o governador Lacerda. A democracia era o nosso bem maior, que precisava ser preservada. E a liberdade do povo brasileiro, uma motivação insuperável.







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*o autor é professor, historiador e Oficial do Exército, da Reserva Não Remunerada. É presidente do Conselho Nacional de Oficiais R/2, membro da Diretoria da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto Campo-grandense de Cultura.

Fonte:http://www.averdadesufocada.com/index.php/contra-revoluo-de-1964-notcias-106/6728-a-defesa-do-palcio-guanabara-contra-os-comunistas-em-1964-