segunda-feira, 25 de maio de 2009

Tenda de milagres

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Paulo Coelho, “o fenômeno dos 100 milhões de livros”, como celebrou The New Yorker, a revista dos glitterati de Manhattan e adjacências, sabe quanto é difícil ser profeta em sua própria terra.

Foi no Brasil, é verdade, que ele desa-brochou, 22 anos atrás, com o recordista Diário de um Mago, instaurando o inebriante sortilégio mercadológico de peregrinos, anjos, demônios, duendes, mestres, adivinhos, fadas, aliens e santos.

Mas aquele que é hoje o escritor manuseado pelos Clintons, Chiracs e Mandellas, oráculo consultado em Davos pelos gurus da globalização, personalidade convidada para se sentar, de fraque e gravata branca, em banquete da rainha em Buckingham, padece aqui de uma dieta de admiração crítica e de afetos sinceros.

Ainda é sucesso de vendas no rés do chão do mercado editorial, porta-voz do escapismo em pílulas para os hipocondríacos da credulidade. Porém, no Brasil, vende hoje menos do que já vendeu e vende hoje menos do que na França, na Itália, na Rússia, mesmo no Irã, perdendo aqui para a competição pouco edificante de uma subliteratura de eclipses, crepúsculos e amanheceres que dissimula a malandragem de copiar sabe quem? Paulo Coelho.

Se o público verde-amarelo de Paulo Coelho vai paulatinamente perdendo o encanto por Paulo Coelho, esvaída talvez a fé no pendor curativo de seus aforismos, o que dizer então dos, hum, bem-pensantes, aqueles para quem o sucesso multinacional do bruxo dispara muito mais constrangimento do que orgulho? A praga de rejeição empapou até a trajetória de O Mago, a formidável biografia de 630 páginas tecida pelo talento minucioso do jornalista Fernando Morais.

Obra com tal pedigree era para ser o best seller de 2008, avalanche de vendas, fila nas livrarias, nem que fosse por certas pimentas que Fernando Morais salpica ao longo da saga louca e improvável de um personagem no fundo tão fluido que a gente às vezes teme ser produto da imaginação dele próprio. Não, a biografia, o biógrafo e o biografado, coitadinhos, terão de se contentar com a consagração internacional.

O mago que diz saber ficar invisível já tinha penado, aliás, para ser detectado pelo radar anacrônico da Academia Brasileira de Letras, a qual acabou por elegê-lo em caráter permanente, no final de 2002, para seu chá das quintas-feiras. Paulo Coelho ganhou a cadeira que pertencera a Roberto Campos. Um economista (“Você sabe o que para mim é esoterismo? A economia. Ninguém consegue me explicar como a economia global funciona...” Profética entrevista ao The Guardian, alguns meses antes do estouro da bolha).

Paulo Coelho foi receber as honras da imortalidade a bordo de um fardão que parecia tecido em ouro, mas também em ironia – afinal reconhecido pelos seus pares, ele que já vendeu mais livros do que todos eles juntos. Mas só duas ou três vezes voltou a botar o pé naquele cenáculo de coleguinhas quase inéditos.

Desabafo à parte, não lhe sobra muito tempo na agenda de cidadão do mundo recolhido, nas fraldas dos Pireneus, a uma aldeia de 200 almas. Em SaintMartin, vizinha de Tarbes, tão perto de Lourdes que é possível imaginar que as nuvens eternas que a encobrem sejam resultado da condensação da água benta que evapora lá do santuário, ele caminha, medita, ora e trabalha – quatro horas diante da tela do PC, não mais do que isso. E espera, de mala pronta, para a próxima viagem.

Paulo Coelho, aos 61 anos (nascido a 24 de agosto de 1947, virginiano), atende com solicitude infinita a um público de mais de 160 países, 66 idiomas e dialetos. Pode ser que não faça grande literatura, mas o certo é que fundou um culto literário.

De todo modo, exerce, dentro do possível, a faculdade da ubiquidade e o dom da automultiplicação. Até novela da Globo já fez, Eterna Magia (de maio a novembro de 2007), mas, como se tratava daquele horário crepuscular das 6 da tarde em que fantasmas e vampiros se despregam de seus tugúrios, nem de maquiagem adequada carecia sua figuração. Paulo Coelho interpretou a si mesmo.

Envergava o nome de Simon, o mago, e uma capa cabalística que o fazia esfumaçar ao fim de frases impregnadas de alegorias, tais como “toda vela acesa provoca uma sombra”. Supunha-se que Paulo Coelho fosse, ali, a reencarnação do deus celta Dagda, cercado de bruxinhas também irlandesas que se convertem em caipiras de peitos sempre arfantes e impulsos nada diáfanos. No fundo, deve ter se divertido. No fundo, Paulo Coelho sempre se diverte muito consigo mesmo.

Quando Dana Goodyear botou o ponto final nas inesperadas oito páginas de Paulo Coelho para The New Yorker (edição de 7 de maio de 2007), o mago tinha em seu portfólio oito romances – e um saindo do prelo. De lá para cá, produziu mais um. Ainda que fique às vezes a impressão de que, nas penumbras autobiográficas de hipérboles, metáforas, subentendidos e criptografias, ele está sempre reescrevendo o mesmo livro, Paulo Coelho faz menção de acreditar em Paulo Coelho, no convite que ele faculta a todos os seus leitores em prol do direito de sonhar (ou será de se iludir?). Milagres acontecem – apregoa ele. Quer uma prova? Paulo Coelho.

(Nirlando Beirão - www.cartacapital.com.br)

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