terça-feira, 23 de junho de 2009

Concorrer com a memória não dá

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Não apostaria apenas na saudade.

A verdade é que o tal frango é mesmo bom.

Explico a saudade: fazia muito tempo que não visitava minha tia, que hoje mora com minha prima na casa onde morava minha avó.

Fui claro?

Bem mais estranha formulação ouvi no início da semana: “O pai da noiva do meu sobrinho foi vender um Mondeo 97 para comprar um carro zero…”

É preciso ter muita proximidade com esse sobrinho para saber que ele ficou noivo e para conhecer não só a felizarda como também o pai dela. E ir além: saber que ele tinha um Mondeo velho. Mas pode acontecer. E aconteceu de eu ficar muito tempo sem visitar a tia, desde que minha avó faleceu.

A receita de famosa torta eu já havia conseguido. Receita difícil. Massa mole, bem complicada para trabalhar. Demorei um bom tempo exagerando na farinha até encontrar o ponto. Até hoje não consegui reproduzir o recheio e sua participação na torta. Costumava ser de frango. Falamos um pouco sobre ela. Falamos da polenta que eu ainda e sempre faço. A hora passou depressa, ficou perto do almoço e a prima e a tia, claro, me convidaram a ficar.

Eu realmente não podia, mas a irmã da tia, na cozinha, estava fritando umas almôndegas. Também receita de minha avó. Nada de muito diferente das muitas que existem por aí, pelo mundo. A diferença é que a mistura é mais preguiçosa. A carne vai bem moída mesmo. Vai um pouco de cebola e quase um nada de alho. E o que vai, vai bem batido. A salsinha nem tanto. Ainda se vê, depois de pronto o bolinho, o verde da salsa.
O pão fica no leite um tempo bom e entra na mistura frouxo de tudo.

Não se usa energia para fazer a mistura. Claro que vai um pouco de sal, um pouco de azeite. Pimenta-do-reino não entrava e não entra em casa. O que vale é a paciência e delicadeza para que tudo se junte bem. Duas colheres formam os bolinhos que serão fritos em bom óleo.

Não foi difícil sentir os olhos se encherem de água quando voltei, depois de muitos anos, a provar a almôndega de minha avó.Cheiros e sabores são capazes dessa mágica. Fotos não me provocam tanto.

Por aqui já falei: o grande concorrente dos grandes chefs é a memória das pessoas. Essa almôndega que me emocionou talvez seja ruim dentro dos padrões estabelecidos por alguma sociedade fazedora de almôndegas, mas é a minha almôndega. Vale lembrar os versos de Alberto Caeiro: O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, /Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Gosto de contar essa história: a vez que fui almoçar com um renomado crítico gastronômico e ele pediu uma dobradinha. Perguntou se eu queria prová-la. Disse que sim, provei e garanto que eu estava diante de uma das piores dobradinhas já preparadas na cidade de São Paulo.

A saber: quem de nós tinha a melhor referência? Minha mãe preparava esse prato com rara habilidade. Usei-a na comparação. A dele talvez fosse a do restaurante onde estávamos. E era. Não havia uma referência familiar. Não havia memória, a não ser do mês passado.

Ah, sim, hoje todo mundo está cheio de memórias como escrevi no Refogado Lembra da Tia? Está na moda ter lembranças inesquecíveis que até ontem eram desprezíveis. Está na moda inclusive dizer que algumas coisas horríveis se tornaram deliciosas. Todo o mundo, ou bem mais de três quartos dele odiava jiló. Pois o quitute predileto de meu canário-da-terra anda sendo gorjeado por chefs verde-amarelos deste valoroso Brasil varonil. Virou a coqueluche do momento, veja você.

E a turma do amém-amém segue atrás, sentindo saudade da tia que não existiu e adorando o que sempre odiou.

Perdi o humor. Semana que vem falo do frango. '





(Marcio Alemão - www.cartacapital.com.br)