domingo, 15 de julho de 2012

O desaparecimento de João Sebastião.

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Era um sujeito magro, raquítico. Tinha uma aparência encardida. Dois olhos redondos e amendoados flutuavam vagamente nas órbitas fundas, marcadas pela saliência dos ossos da face. A barba rareava em determinados pontos para surgir em demasia em outros. Seu tom castanho avermelhado era constantemente ameaçado pelo cinza desbotado.

Não contava muitos anos, mas os anos lhe emprestavam seu peso. Andava um pouco arcado, como quem tenta contrabalancear um fardo excessivo. Porém, seus passos eram leves, sorrateiros, imperceptíveis, como poeira a dançar no colo do vento.

Entrava e saía dos lugares sem despertar atenção, sem que olhos o seguissem, sem que, se quer, notassem o movimentar da tísica figura.

As roupas brancas, amareladas pelo uso, traziam a cada dia um novo desenho, sombreado pelo sangue contido nas peças carregadas. Eram paletas, costelas, pernis. Peças quase inteiras. O cheiro o incomodava, não era algo fétido, só não sabia dizer se era mesmo forte demais, ou apenas ele, assim julgava.

O ar denso e congelante do caminhão refrigerado despertava seus ossos em um sonoro tilintar. Buscava confirmar nos olhares daqueles que o rodeavam se o som era mesmo audível a todos. Mas nenhum olhar fitava o seu, pelo contrário, o curioso ruído parecia transportá-lo a invisibilidade.

Com gosto entregava-se a essa sensação. Sentia-se livre em seu mundo único e recordava saudoso o emprego anterior, abandonado apenas por insistência da mulher em melhorar a renda familiar. Lá sim se sentia invisível por completo, acompanhado pelo silêncio da madrugada, abastecia bancas com notícias e histórias frescas.

Por mais que houvesse tentado, nos poucos anos em que frequentou a escola, era incapaz de compreender uma frase completa. Mas as letras pareciam capiturá-lo, fasciná-lo, até que, dançando em meio a elas, escorregando em suas curvas, quicando em seus símbolos, produzisse seu próprio significado. Não se importava se seu entendimento era de fato o que trazia a história, mas era capaz de perder horas e horas apenas admirando as pequenas expressões de tinta.

Ao final do dia quando chegava em casa, era sempre recebido por um sonoro:

- Diacho, João! Parece um fantasma, não avisa não. Tá se escondendo pelos cantos é? Quer me matar do coração?

Deslizava então até a velha cadeira de madeira remendada, encostada em um dos três cômodos da minúscula casa. A seu lado, encontravam-se livros resgatados de lixeiras, capazes de o abstraírem em suas páginas incompreendidas. Mal podia perceber o movimentar dos dois filhos mais velhos, zombando da inércia do pai.

Os sons da mulher, vindos da cozinha iam silenciando aos poucos. Queixas isoladas, pronunciadas aos berros retratavam-no como um peso morto, sem valor, sem vida, sem nada. Gargalhadas ridicularizavam seu ato de apreciar as páginas.

- Olha lá, o Sebastião pensa que sabe ler. Essa é boa!

Apenas a figura do filho caçula, mantinha-se muda. Em apoio, abria seu caderno escolar com os primeiros rabiscos ganhando nomes e sons, para, por fim, fazer sentido em pequenas palavras.

O menino não via graça nas tentativas de leitura do pai, ao contrário, admirava-se, empenhava-se em aprender a ler e escrever, pois acreditava que só assim conseguiria decifrar o mistério das letras que tanto o intrigavam. Entendia que esta era a chave para atingi-lo, para adentrar em seu mundo.

A rotina se seguia como em todos os demais dias. E, nessa hora, mãe e os outros filhos já haviam se cansado do deboche e sentavam-se à mesa para o jantar. O pequeno ainda se colocava ao lado dele, lutava contra os roncos do estômago que insistiam em requerer um pouco de comida, fingia não ouvir os berros da mãe clamando sua presença.

João permanecia na mesma posição e o garoto sabia que assim se estenderia por horas. Vencido pela fome, seguiu com passos cautelosos até a cozinha, como se um movimento seu pudesse retirar o homem de seu transe.

Antes de abandonar a sala, virou-se para encará-lo por mais um segundo e pode notar algo novo, surpreendente.

O pai despertou, encarava-o com um sorriso largo, seus olhos se encontraram por um breve segundo, mas ao menino pareceu uma doce eternidade. Com uma piscadela, João cumprimentou o filho e voltou subitamente sua atenção às páginas manchadas.

Alegre, o pequeno rendeu-se ao prato montado pela mãe. Comia agilmente para retornar o mais breve possível à sala. Quando conseguiu, não mais encontrou Sebastião.

Na cadeira restava apenas o livro aberto ao meio. Correu estabanado até o quarto e nem sinal do pai. Alardeava a todos os cantos que ele havia desaparecido.

A mãe e os irmãos, sem entender o que sucedia, vieram em seu socorro. Ela, repetia para si mesma:

- Era só o que me faltava! Agora o desgraçado resolveu fugir!
Saíram em busca do calado João, os vizinhos aos poucos iam engrossando a passeata, chamavam, gritavam, berravam.

Apenas o garoto, havia ficado em casa sentado na velha cadeira, segurando em seu colo o livro desbotado, como se soubesse que os chamados eram em vão. Ele não podia dizer como, mas tinha certeza de que o pai finalmente conseguira entender aquele mundo que tanto o intrigara e agora à ele pertencia.

Enxugou as lágrimas na esperança de um dia poder reencontrá-lo. E, teve a certeza, de vislumbrar nas páginas sujas e rasgadas àquela piscadela.





(Camila Capps - Fonte: http://apinturadaspalavras.wordpress.com/2012/06/18/o-desaparecimento-de-joao-sebastiao/)
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