terça-feira, 18 de junho de 2013

Na falta da Bastilha, temos a laje.

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À falta de uma Bastilha, para ficar na pretensão das alas autointituladas revolucionárias dos protestos Brasil afora, temos a laje do Congresso Nacional.


Às cenas de aglomeração, vandalismo e repressão policial somaram-se imagens simbólicas da "ocupação" do símbolo do poder central.

Enquanto isso, os governantes demonstram sua dificuldade de compreender a natureza dos atos. Estão atônitos com a marcha.

A frase divulgada pela presidente Dilma Rousseff, é reveladora. São apoiadas, diz Dilma, manifestações pacíficas --típicas de "jovens".


O problema dessa leitura, além de óbvia, é que ela não encontra destinatário. Quem são esses "jovens"? A própria cena no Congresso ontem demonstrava isso: havia queixas sobre praticamente tudo, inclusive o nada.

Isso dificulta a vida do negociador-em-chefe do governo, Gilberto Carvalho, que também havia falado algo genérico sobre a importância de ouvir as "angústias". Acostumado a lidar com movimentos sociais, ele falou para o éter, para o ciberespaço de onde as forças que demonstram parecem ter vindo.

Há o cálculo político. Se em São Paulo o prefeito Fernando Haddad (PT) e, principalmente, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) saem chamuscados do episódio, o Planalto ainda tenta dar um jeito de escapar da linha de tiro dos manifestantes.

Afinal de contas, lidar com os atos é, até aqui, problema dos Estados. Não por acaso, a violenta repressão de quinta-feira passada em São Paulo deixou atordoado o governo Alckmin, que alterna pregações pela ordem com tentativas de contemporização.

Ao dizer que apoia manifestantes pacíficos, Dilma no limite evita pintar um alvo no rosto --embora não irá faltar acusações de uso político visando a conquista de São Paulo no ano que vem; o embate de tucanos com o pré-candidato José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, não é nada casual.

Mas parece difícil: sem uma pauta específica, protestos difusos pelo país tendem a mirar o "Grande Outro", para ficar em linguagem psicanalítica. E o "Grande Outro", no Brasil, trabalha lá mesmo, na praça dos Três Poderes.

(IGOR GIELOW - http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1296754-analise-na-falta-da-bastilha-temos-a-laje.shtml)
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