sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Entre ser otário e ser sacana

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Há mais ou menos um mês eu estava na fila do cinema com um amigo, também jornalista, quando, praticamente do nada, ele me disse que, em sua opinião, só restavam duas opções para nós, brasileiros: ou sermos sacanas ou sermos otários.

No pouco tempo que teve para defender seu ponto de vista, antes de o filme começar, ele disse que não acreditava mais na possibilidade de sermos honestos sem que isso representasse o primeiro passo para que fôssemos passados para trás, deixados de lado como um objeto antiquado.

Não concordei com ele, argumentei que era um pensamento alarmista, sem fundamento e, acima de tudo perigoso, por representar um convite ou um passe-livre para a bandalheira. Se não quisermos ser otários, e acredito que ninguém realmente o queira, a única alternativa seria a pilantragem. É isso? Prefiro não pensar assim.

Embora o assunto Renan Calheiros já tenha nos cansado demais, volto a ele apenas para dizer que a absolvição do senador me fez pensar novamente naquela conversa do cinema. Hoje, com pesar, eu daria razão para aquele amigo. Espero mudar de opinião em breve, mas hoje eu fecho com ele: o Brasil ficou dividido entre milhões de otários que acreditavam na justiça e na sua representatividade no Senado, e uns poucos sacanas que livraram a barra de um político acusado de um sem-número de atitudes ilícitas.

Por algum motivo que eu não sei direito qual, tenho pensado muito nos petistas nestes últimos dias, principalmente nos meus amigos petistas, que não sei mais de onde eles são capazes de buscar argumentos para defender este governo e suas convicções. Cheguei à conclusão de que defender o PT, hoje, é como defender algo de puro e cristalino que um dia existiu em nós e que agora se acabou. Desistir do PT, como eu desisti depois de 20 anos votando incondicionalmente neste partido, significa desistir de nossas próprias esperanças, é como encarar que ficamos órfãos de um tipo de ideologia e crença que nos alimentou durante muito tempo. Desistir do PT é , principalmente, aceitar o fato de que estamos sozinhos de novo. Por isso deve ser tão difícil, tão penoso.

Talvez estes argumentos soem infantis e debilóides, mas é a única explicação que eu encontro para se continuar acreditando em um partido que fez o inimaginável para manter Renan Calheiros na presidência do Senado. Como aceitar a abstenção de um Aloízio Mercadante, que alegou não haver provas suficientes para incriminar Renan? Meus Deus, o que será que o nobre Mercadante tem lido nos jornais e nas revistas nos últimos dias, além da sessão de horóscopo? Como olhar para a senadora Ideli Salvatti e não sentir uma incontrolável vontade de vomitar na tela da tevê, diante de uma traidora tão contumaz, tão contrária aos anseios populares, tão interessada em aprender a coreografia grotesca de sua coleguinha Angela Guadagnin, aquela da dança da pizza? Como encarar ainda com um certo deleite e cumplicidade a postura anacrônica e cada vez mais insossa de Eduardo Suplicy, que continua cantando Blowin' the Wind quando os ventos que realmente sopram ou são os da corrupção ou o dos furacões?

Como diria a Regina Duarte, hoje eu tenho medo, muito medo. Sabem do quê? De ir ao cinema neste fim de semana e encontrar de novo aquele meu amigo. Tenho medo de que ele me encontre na fila, abra um sorriso sarcástico e me diga: E então, eu não te falei??? Vai ser foda. Acho mais prudente alugar um vídeo e ficar em casa.

(Fonte: roveriblog.blogspot.com - só no blog)