domingo, 9 de agosto de 2009

Meu Pai Herói

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Todos os pais são heróis, mas hoje estou aqui para falar do meu.

Tive a sorte de nascer em uma família de classe média, com pais que haviam estudado além do habitual na época e que tinham uma preocupação muito grande não só com a escolaridade, mas também com o nível cultural de seus filhos. Isso fez com que, além de ter freqüentado ótimas escolas, eu tivesse um acompanhamento grande em casa. Uma das maiores heranças deixada por eles foi esta minha necessidade enorme de ler. A leitura é a minha maior amiga e companheira desde que minha mãe me ensinou a ler, aos cinco anos.

Tive um pai no estilo “mineiro”. Para quem não conhece, era o tipo “minha filha não sai sozinha, um irmão ou alguém tem que ir junto” ou “filha minha não chega tarde em casa” ou muitas frases que marcaram toda a minha infância e, principalmente, a minha adolescência. Tudo pela excessiva preocupação da época com o “bom nome” que a moça deveria ter. Moças “faladas” não se casavam (o que era a maior preocupação ...). Ou ficavam para “tia” ou não arranjavam um “bom partido”.

Namorar? Só em casa, depois do coitado ter tido a coragem de enfrentá-lo... E na sala, sob supervisão e até, no máximo, às 11 horas. Namoro no portão??? Nem sonhando!!! Se fosse acompanhar o namorado até o carro, podia virar a cabeça e olhar que, com certeza, veria meu pai acompanhando nossos passos pela janela.

Infelizmente, nasci com um temperamento forte e precisava, desde muito pequena, de liberdade para fazer minhas próprias escolhas e decidir o meu próprio caminho. Isso fez com que a minha relação com meu pai fosse muito turbulenta, com muitos enfrentamentos. Este pesadelo durou até quando, aos 19 anos, eu me casei. O interessante é que lembro destes tempos com saudade e ternura pois, em momento nenhum houve, da parte dele, falta de compreensão, amor e extrema paciência com este seu filhote que queria abrir as asas e lançar-se em busca de seu próprio destino. Ele sempre esteve presente em minhas vitórias e meus fracassos. Às vezes comemorando comigo, orgulhoso, outras vezes secando minhas lágrimas, sem cobranças.

Meu pai morreu, repentinamente, de um derrame cerebral, aos 74 anos. Nunca eu havia passado por uma dor tão grande. Parecia que nada neste mundo faria a minha dor passar mas, como todos sabemos, o tempo transforma a dor, pouco a pouco, em uma saudade boa, que a gente carrega pela vida a fora como uma jóia rara, um colar que não se tira e que sempre vai estar junto ao nosso coração.

Com ele foram-se emoções e sentimentos que eu não sabia que tinha e vieram outros que eu desconhecia.

Durante toda a minha vida, enquanto fazia minhas explorações pelo mundo, eu tinha uma coragem incrível. Enfrentava todas as dificuldades de frente, sem medo algum. Muitas vezes, parecia um Dom Quixote de saias, em minhas lutas de adolescente contra os moinhos de vento que apareciam. Mesmo adulta, nunca o mundo me deixou com dúvidas sobre qual o caminho que deveria trilhar. E eu nunca questionei a origem desta força.

Só quando ele morreu é que percebi de onde vinha toda esta coragem. Eu sabia, tinha a certeza de nunca estar sozinha, de sempre poder contar com ele e com o porto seguro do seu amor, carinho e compreensão. Pela primeira vez comecei a não ter com quem conversar sobre as minhas dúvidas e temores, e tive que enfrentar estes sentimentos novos.

E até hoje, já avó, ainda sinto falta dele, de seu amor e de sua sabedoria. E sinto também, nos momentos mais difíceis, sua presença dentro de mim, ao meu lado, transmitindo a mesma força e o mesmo sentimento de carinho e amor que me fizeram chegar até aqui e a ser quem sou.
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