quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Babel



Talvez seja por querer demais...
Será?
O fato é esse considerável desconforto:
Nesse nosso manso desencontro,
Com essa distância comportada.
De tê-la a meu lado e senti-la distante:
Fazendo-nos íntimos incógnitos.

Nessa babel erigida por mãos invisíveis,
Mal começada e interminável,
Que abafa nossa confusa ardência,
Perdemos o ímpeto de nos tocar
E ficamos assim: nesse tenso empate:
Respeitosos;
Nos esperando estando tão próximos.
Próximos?
Das maneiras de se perder,
A que se dá pelo silêncio é mais indolor,
Pois carece de clareza,
Por conter uma razão difusa, inexplicada.
É bom que o amor continue misterioso,
Pois dessa condição se alimenta.
O que faz dois amantes estrangeiros um ao outro?
Excesso de prudência na entrega?
Desmesuradas expectativas?
Sejamos pois mais arrojados, inconseqüentes,
Diluamos essa aparente indiferença;
Essa ausente presença.
Troquemos, entre gemidos, nossas íntimas figurinhas
E nos entreguemos irresponsáveis, ilógicos,
Enquanto a vida ainda nos palpita irrequieta.
Desprezemos um pouco o amor ideal,
Pois só continuam lindos os amores impossíveis:
Os que permanecem na saudade por terem sido incompletos.
Permitamos que nossos corpos se tornem um só bem,
Compartilhado;
Agora.
Pois o amanhã pertence ao imponderável.


(Juarez Santana)