segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Caras e bocas

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Ainda que não seja errado fazer plástica, a intenção eleitoral parece implicar embuste




Sempre fui e sou a favor da operação plástica, seja para consertar alguma deformidade, corrigir um nariz, como para eliminar rugas e papadas, que surgem com a idade. Num mundo como este, cheio de conflitos, a pessoa deve estar em paz ao menos com a própria cara.
Toda cara é, para mim, indecifrável como uma esfinge. Por isso mesmo, já escrevi aqui sobre o tema e volto a escrever agora, depois de saber da operação plástica a que se submeteu a ministra Dilma Rousseff, o que tem sido motivo de notas e comentários em jornais e revistas. Houve quem a criticasse, o que não farei, mesmo porque estaria sendo incoerente com meus princípios pró-plástica. Mas devo esclarecer: sou a favor de que se faça plástica, mas reservo-me o direito de opinar sobre o resultado da operação.
Como já observei em crônica anterior, a pessoa é a sua cara. Há quem acredite que, se a forma expressa o conteúdo, a cara expressaria a personalidade, donde conclui-se que o que somos está na cara, isto é, em nossa cara.
Dado isso como verdade, coloca-se uma questão importante: se a cara expressa o que a pessoa de fato é, mudar-lhe a cara é fazê-la passar por quem não é, um disfarce, que consistiria em substituir a feição verdadeira por uma máscara, ainda que bela, ainda que mais simpática. Enfim, uma fraude.
Não concordo. Como diz o ditado, quem vê cara não vê coração. Há muita gente que tem cara feia e alma doce. Noutras palavras, muitas vezes a natureza é injusta, pois dá à pessoa uma cara que ela não merece. Isso sem falar em outras que nascem com olhos tortos, nariz de bola ou boca beiçola, enfim, feições assustadoras ou caricatas.
E o que pode fazer o dono de uma cara como essas? Suportá-la pelo resto da vida? Já imaginou ter que viver com uma cara que, embora sendo a sua, não é você? Não dá, todo mundo tem o direito a melhorar de vida e de cara. Na ânsia de se inventar outro e melhor, há quem mude também a bunda (o bumbum como querem alguns) para ajustá-la às exigências da moda. Mas a bunda não identifica a pessoa como a cara, pode ser de qualquer um (ou uma), por isso se diz que "não tem dono" e, além do mais, fica nas costas.
Por tudo isso, sou tolerante com moças e rapazes que, nos Estados Unidos, substituem o rosto de nascença pelo de seus ídolos e andam pela cidade como se fossem eles, a gozar assim de uma celebridade postiça, divertindo-se graças aos fãs desavisados. Divertimentos que podem ir longe e pular da rua para a cama, onde conseguem realizar suas fantasias. Há casos, também, de pessoas que, em vez de copiar a cara alheia, inventam uma só sua, ainda que extravagante de tão original, como o fez Michael Jackson, cuja cara que usa não se sabe se é de anjo caído ou de vampiro.
Todas essas razões me levam a acolher a iniciativa da ministra Dilma de melhorar a fachada, como se costuma dizer. Aliás, em princípio, ninguém tem nada que dar palpite nisso. Ou melhor, não teria, não fosse o fato de que, segundo todos acreditam, ela mudou de cara com o propósito de disputar as eleições presidenciais de 2010. Aí, o assunto também muda de feição, isto é, passa a ser de interesse público. E, de qualquer modo, fazer plástica para se tornar mais contente consigo mesma é uma coisa, enquanto que, para ganhar votos, é outra. Ainda que não seja errado fazê-lo, a intenção eleitoral parece sempre implicar algum embuste.
Mas isso é inerente à política, em que a virtude mais rara entre todas é a inocência. Dilma, ao que tudo indica, segue o exemplo de Lula que, após sucessivas derrotas eleitorais, decidiu, antes da disputa pela Presidência da República, em 2002, mudar sua imagem: se não raspou a barba cubana, aparou-a, e substituiu por um doce sorriso aquele ar belicista de quem acabara de descer de Sierra Maestra, ainda que, ao contrário de Dilma, nunca tenha pegado em armas.
Mas a pergunta a se fazer é se o resultado foi bom, se atingiu o objetivo. Ela ganhará mais votos com a nova cara do que com a anterior? A maioria dos que opinaram -todos eles, homens e políticos- garante que sim.
A notícia que li veio acompanhada de duas fotos da ministra: uma de antes da operação, outra de depois.
Na primeira, ela está com os óculos que sempre usara e a boca amarga, que às vezes usa; na segunda, está sem óculos, quase sem boca e cabelos que, de escuros, passaram a alourados, tornando-a mais feminina, mais jovem e, ao mesmo tempo, mais comum: não se parece com a ministra Dilma Rousseff que o país conhece. Agora, está mais para tia do que para a mãe do PAC.
Eu, se fosse o caso, votaria na outra, melhorada a boca.

(Ferreira Gullar)