quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Querem comparar Governos? (Reinaldo Azevedo)

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ENTÃO VAMOS CIVILIZAR OS BOTOCUDOS!

É para ler até o fim, hein!? Tenho uma chavinha de ouro para vocês. Psiu!!! Sem tentação. É para pegar do começo.

De vez em quando, um petista moderado, tentando se distinguir dos petralhas, resolve pegar no meu braço, ousando ser o meu Virgílio e me convidando a visitar um dos círculos do inferno onde o partido aprisiona há 29 anos a reputação de suas vítimas. Sim, o PT tem este formidável poder de reescrever a biografia de seus adversários. Trata-se do Círculo das Reputações Enlameadas. Alguns poucos conseguem, pelo próprio esforço, como fez Eduardo Jorge Caldas Pereira, repor a sua história no devido lugar. E há aqueles que são resgatados pelo próprio PT desde que façam um ato de contrição ou sejam cínicos o bastante para se divertir na tragédia ou na comédia. No segundo caso, está, por exemplo, Delfim Netto, antes tido como uma besta-fera da “direita” e hoje conselheiro informal de Lula. Delfim diz que não mudou. Exemplo maior do primeiro caso é José Sarney. O PT, sempre tão dedicado a enlamear a honra alheia, funcionou, no seu caso, como lavanderia.

Mas volto ao petista que tentou se mostrar civilizado, me chamando até de “Rei” (!!!), muito íntimo, convidando-me a ceder: “Rei, admita que o governo Lula é inquestionavelmente melhor do que o governo FHC e que procede a votação plebiscitária que o PT propõe. Acho que você é um bom analista, mas sua paixão o cega às vezes…”

Ô bilu, bilu!!! Não há a menor chance de o “Rei” se apaixonar, viu? Não estou entre aqueles que sentem o frêmito da atração pelo inimigo. Zero! Você aí, eu aqui. Sem essa de me pegar no braço! “Rei” é uma pinóia! E não, não admito que “o governo Lula é melhor do que o de FHC”, não dito desta maneira, porque esse juízo é coisa ou de energúmenos ou de gente a soldo — e, às vezes, das duas coisas.

O “melhor” expressa um juízo comparativo. Não terá sido o governo FHC — que começou a governar, de fato, já como ministro da Fazenda de Itamar Franco — muito “melhor” do que o governo Collor? Muito melhor, na verdade, do que o governo Sarney ou do que o governo Figueiredo, quando a inflação começou a destrambelhar? O que quer dizer o seu “melhor”? É melhor um governo que assume, sem solavancos, com os fundamentos da economia sólidos — apesar de desajustes de superfície, alguns provocados pelo próprio “risco PT” — do que um outro que pegara o país com uma inflação superior a 2.500% ao ano, conduzindo-a para 5% ou 6%? Não terá sido “melhor” o governo que pegou o país com o custo de vida na casa dos 20% ao mês, derrubando-o para menos de 0,5%? Não terá sido “melhor” o governo que recolocou o país na rota dos investimentos?

Essa afirmação, meu caro falso civilizado, é só mais uma manifestação da delinqüência intelectual a que se dedica permanentemente o petismo. Para que se pudesse sustentar essa superioridade, seria necessário que, em iguais condições, o PT tivesse demonstrado competência ou apuro intelectual potencial ao menos para fazer melhor do que fez FHC. E sabemos bem qual foi a expertise demonstrada pelo partido: opôs-se ao Real, pregava o calote da dívida, o rompimento com o FMI, a rejeição à reestruturação dos bancos, às privatizações e seus investimentos — a tudo, enfim, que colabora para fazer hoje a fortuna crítica do lulismo. Tivesse vencido em 1994, o PT teria destruído o Plano Real. Porque era esta a proposta de Lula: destruir o Real. Era o que pautava a sua campanha.

“Ah, vá falar isso a eleitor, rá, rá, rá”, ri o delinqüente, satisfeito com o seu partido por ter ajudado a deformar a história e feliz porque seu líder sapateia sobre conquistas inegáveis do Brasil.

EU QUERO QUE SE DANE SE A VERDADE QUE DIGO É POPULAR OU NÃO. A mim, basta saber que é verdade; basta saber, e poder escrevê-lo, ao menos por enquanto, que a comparação é obra da mais estúpida vigarice intelectual, coisa de militância política da mais reles, da ignorância mais desprezível.

Num artigo anteontem, afirmei que minha rejeição ao lulo-petimso nada tem a ver com essa conversa mole de “governo deu certo ou deu errado”, governo “melhor ou pior”. Nunca antevi desastres para o governo Lula. Ao contrário: escrevi na revista Primeira Leitura que o PT seria mais conservador se vencesse em 2002 do que seria Serra, então candidato tucano. Está registrado. É documento.

- O que me incomoda no PT é seu ódio mal disfarçado à democracia, daí que viva tentando solapá-la — agora, o partido quer uma Constituinte para fazer a reforma política.

- O que me incomoda no PT é a moral que cria para si mesmo e a moral que defende para os outros — a exemplo de Dilma, anteontem, na festa dos mensaleiros do PT a atacar o mensalão de Arruda.

- O que me incomoda no PT é esse esforço para fazer tabula rasa do passado, destruindo a reputação de qualquer pessoa que não seja útil a seu projeto — a exemplo do que faz com a monumental conquista que foi o Plano Real.

- O que me incomoda no PT é o seu apoio dedicado a todos os vigaristas do planeta,— a exemplo de Mahmoud Ahmadinejad.

- O que me incomoda no PT é a sua admissão prática de que o crime compensa ou é aceitável desde que esteja ancorado numa causa de suposto alcance social — a exemplo de seu asqueroso conluio com o MST.

- O que me incomoda no PT é seu esforço permanente para substituir a sociedade pelo partido, imiscuindo-se em eleições sindicais de trabalhadores e patrões, nos fundos de pensão, na direção das estatais, nas ONGs e, se você deixar, no batizado de seus filhos.

- O que me incomoda no PT, a despeito de seus “universitários”, e a apologia permanente da ignorância, do obscurantismo militante, da barbárie das ruas.
“Governo competente?” Governos têm de ser competentes mesmo. Não serei grato a Lula, escrevo em Máximas de Um País Mínimo, por ele cobrar tão caro por aquilo a que temos direito de graça. Ou nem tanto: pagamos caro para que nos governem. Não tenho de lhe dar nada de adicional.

Um mínimo de honestidade intelectual — e não espero que os petralhas a tenham — indica que as ações do governo FHC e do governo Lula não são comparáveis porque simplesmente são diferentes as circunstâncias em que cada um existiu e os problemas a que cada um respondeu. E tenho uma chave de ouro para o tonto que achou que poderia pegar no meu braço:

Estou certo de que os tucanos, estivessem no governo, não teriam feito, NA ECONOMIA, nada muito diferente do que fizeram os petistas. Mas estou igualmente certo de que, estivessem os petistas no lugar dos tucanos em 1995, e hoje nós seríamos o mais ocidental dos países africanos.

QUAL GOVERNO É MELHOR?

(Reinaldo Azevedo – 10 de dezembro de 2009 | 5:41 - Blog hospedado na Veja)