terça-feira, 26 de julho de 2011

Os eleitos pelo BNDES

.





Participações acionárias do banco se concentram sobre grandes empresas e duram anos, o que limita apoio para quem mais precisa de capital



A disposição do BNDES de entrar com R$ 4,5 bilhões na malograda fusão Pão de Açúcar-Carrefour, por meio de seu braço de participações, a BNDESPar, representa um bom exemplo das duvidosas decisões autárquicas do banco federal de desenvolvimento. Só ao evidenciar-se a precipitação, pois não havia sequer acordo entre os acionistas, sua cúpula retirou o apoio à polêmica transação.


O episódio deve servir para uma apreciação crítica dos desígnios da instituição. Persegue-se ali, com coerência, a política de eleger e apoiar grupos nacionais em setores tidos como estratégicos, para que adquiram musculatura nos mercados doméstico e mundial.


Se na gestão FHC o BNDES assumia a proa da desestatização, sob domínio petista se concentrou na criação de conglomerados. Não é política em si condenável, mas deveria subordinar o emprego de dinheiro público e financiamento subsidiado a áreas com grande potencial tecnológico ou de geração de empregos em que a iniciativa privada não entra sozinha.


Certamente isso não se aplica bem a setores baseados em commodities (como frigoríficos) e varejo (como a fusão referida atrás).


A BNDESPar deveria atuar com escopo ainda mais restrito. Segundo a própria entidade, seu mandato é apoiar o processo de capitalização e o desenvolvimento de empresas nacionais "principalmente através de participações de caráter minoritário e transitório, buscando oferecer apoio financeiro sob a forma de capital de risco".


Ora, reportagem de domingo na Folha mostrou que esses investimentos diretos em ações têm muito pouco de transitório. O tempo médio até a venda da participação fica entre cinco e sete anos. Mas há casos notáveis de permanência mais longa, de mais de 14 anos.


Das 152 companhias em que a subsidiária do banco aparecia como acionista em 2010, só 40 (cerca de um quarto) eram pequenas e médias empresas. Se o objetivo primordial fosse fortalecer o mercado de capitais, apoiando quem tem dificuldade de se financiar, essas -e não as de grande porte- deveriam ser os alvos do banco.