domingo, 11 de maio de 2014

Machado: ‘Reescrevam-me à vontade, mas…’

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A imortalidade das letras é para poucos, escrevi certa vez com a pena prematura dos vivos, mergulhada naquela tinta mista de arrogância e candura a que chamamos sangue. Corrijo-me, leitor. As nuvens que nos servem de leito lembram alojamentos militares, o pé do insigne tribuno baiano no nariz do dramaturgo francês, o ironista irlandês a roncar junto da orelha peluda do romancista russo. É natural que tal aperto desande por vezes em altercações ríspidas e babélicas, afugentando o sono.

Paciência. As condições insatisfatórias de nossa instalação no Olimpo não devem preocupar os vivos, e já constituímos uma comissão para redigir em três mil vias, todas adornadas com excelentes carimbos, um requerimento aos andares superiores da administração celeste. A menção ao relativo desconforto em que padecemos a eternidade tem o fito único de ilustrar a cena da chegada do boato.

Boatos, ninguém ignora, são leves, rápidos, pouco menos que invisíveis, e guardam o condão de medrar no aconchego dos ambientes atarefados. Este me foi trazido por Alencar, um ponto de exclamação a lhe vincar a bela testa, e dava conta de um projeto grandioso ao qual se dedicam os lentes de nosso país: reescrever-nos de cabo a rabo.

Tentei meter o caso à bulha; disse ao colega que há termos delicados num século e grosseiros no século seguinte; não logrei sossegar seu espírito, que é tudo o que resta dele, e resignei-me a ouvir os pormenores de sua aflição: as verbas públicas de vulto a adubar a empreitada, os 600 mil exemplares vertiginosos com os quais pretendem soterrar meus cinquenta, vinte, dez, talvez cinco leitores…

Passei dias embatucado. O diabinho da vaidade enfiava-me rancor num ouvido, o anjo do desprendimento metia benevolência no outro, e nesse embate acabei com enxaqueca. Ventilei o tópico em palestras vadias, nossa atividade principal cá em cima, com amigos e conhecidos de chapéu. Soube que Defoe, Dumas, Stendhal, Melville e Twain são leitores contentes das versões ditas simplificadas de suas obras; chegam a reputá-las a suprema homenagem a qualquer escritor, por demonstrarem que as criações podem ser privadas das mesmas palavras que lhes dão corpo metafórico – como de um corpo literal nos privou a morte –, e ainda pulsar.

Desse ponto de vista arejado não compartilham todos, é certo. Flaubert bufou prodigiosamente por quinze minutos, com gálica perfeição; Nabokov cacarejou um riso escarninho; Dostoievski, aquele doudo, perorou o assassínio de todas as velhinhas que se meterem com seu vocabulário e sintaxe. Deixei os ilustres romancistas às voltas com seus demônios e me abanquei numa beira de cúmulo para meditar.

Um dos defeitos mais gerais entre nós, brasileiros, é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério. Sabia-o antes de ser um autor defunto, e mais o sei agora. A nata de nossa crítica literária levou 67 anos para começar a compreender o que penso de Bentinho, e querem que ginasianos de joelhos ralados e álbum da Copa debaixo do braço decifrem tudo antes do bigode: se conto isso a Molière, inspiro-lhe uma comédia em dois atos. Mas vamos à conclusão a que cheguei.

Reescrevam-me à vontade, caros compatriotas; cancelem palavras raras e chistes eruditos; amputem postilhões de Éolo, hidras de Lerna e asas de Ícaro; aplainem sem piedade as ordens inversas, as ousadias sintáticas, todas as cousas grandes ou miúdas. Depois de certa adaptação de Dom Casmurro para aquilo a que chamam TV, e que aqui captamos na parabólica, creio poder afirmar que já nada me fará mossa. Se de resto me agastar algum aspecto dessa faina, pago-lhes com um piparote, e adeus.

Entretanto, será demasiado pedir-lhes que não sejam mais ingênuos que o habitual? Fazer uma versão “simplificada” de meus livros vai muito além de atualizar o vocabulário: há que cortar fundo na carne, na proporção exata, nem mais nem menos, do sólido analfabetismo funcional cultivado com tanto esmero no corpo do povo. Ocorre que o mesmo pensamento nu, cristalino embora, é hermético para quem não aprendeu a pensar. Em caso extremo pode ser de bom alvitre suprimir a obra de todo, deixando o nome do autor na capa e um maço de folhas virgens de entremeio. Teria sua graça.

Mas devo adverti-los de que Alencar não se encontra em disposição tão benigna. Ficou ontem até noite alta bebendo com Dostoievski; hoje de manhã dei com ele a conspirar com uns índios. Cabe lembrar que a prudência é a primeira das virtudes em tempos convulsos.
 
 
(Sérgio Rodrigues - Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/todoprosa/vida-literaria/machado-reescrevam-me-a-vontade-mas/)
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