quinta-feira, 5 de março de 2009

Angústia

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Como se livrar da angústia que se instalou entre as suas costelas.

- Você sabe tirar angústia?
Ele está vendo o jogo na televisão e não me dá bola.
-Você sabe tirar angústia? –cutuco
-Ãh?
Explico pausadamente:
- Você sabe um jeito de tirar essa angústia que está dentro do meu peito, bem aqui, entre as minhas costelas?
Quando falo “aqui”, pego a mão dele e coloco em cima da angústia, como uma mulher que, na cama, mostra onde é o lugar certo. Exatamente.
Não, responde ele sem pensar.
Falta. Falta digna de cartão amarelo.
- Para tirar a angústia, você tem que pegá-la com a mão e jogar fora – resumo rapidamente.
- Como é que eu vou fazer isso?
- Dá um jeito!
O time dele está na retranca.
- Por favor – cutuco.
Ele passa a mão sobre as minhas costelas, em movimentos verticais, como se fosse até o pescoço e depois até o umbigo, só que menor.
- Assim você não está tirando, está só tocando na angústia, o que pode fazer com que ela dobre de tamanho...
(Se a intenção é tentar dissipar a angústia, em vez de movimentos verticais, é preferível fazer movimentos circulares no peito à la Vick Vaporub)
- O que eu faço então? – ele pergunta, sem olhar para mim.
- Come a angústia! Mastiga! Joga no vento! Suga, cava, puxa, arranca... Usa os seus poderes.
Ele passa a ponta dos dedos sobre a angústia e, um tanto envergonhado, leva a mão até a boca.
- Você vai comer a angústia?
- Vou.
- Então mastiga bem – cutuco.
Ele mastiga devagar, como se angústia fosse bom.
Bola na trave.
- Você não pode tirar a angústia e ver o jogo ao mesmo tempo.
- Por que não?
Porque a angústia é caprichosa e não vai embora se não perceber afinco.
Ele olha para mim e quer, acima de tudo, que minhas angústias cheguem para bem longe dali, pelo menos até o final do segundo tempo. Levanta e segue em direção à cozinha.
Nessa hora, penso: “Ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó”. Ele ligaria o aspirador na tomada, escolheria o bico (ö de canto, o de canto”),aspiraria a angústia debaixo das minhas costelas, puxando levemente a pele pelo cano. Tiraria o coletor descartável e jogaria na lixeira do prédio. Eu só sorrisos, pulando pelo corredor, ida e volta.
Mas ele vem da cozinha com uma lata de cerveja na mão.
-Quer?
Aceito. Ele senta ao meu lado e pergunta onde está exatamente. Eu mostro. Ele esfrega a ponta do dedo indicador, médio e anelar na minha angústia. Olha para mim e dá um beijo estalado entre as minhas costelas.
- Passou? – pergunta.
E na terceira latinha, depois do apito final, a angústia sai de campo.

(Rosana Calado – Fonte: www.bolsademulher.com)