segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ao escrever, faça como as lavadeiras

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“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

(Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948)

"Writing should be done in the same manner as the washerwomen of Alagoas practice their craft. They start with a first washing, soaking the dirty clothing by the bank of the lagoon or stream; they wring the piece of clothing, soak it again, and then wring it once more. They then add indigo, soap and wring once, and then twice. Then they rinse, and soak it again, now splashing the water onto the cloth with their hands. They beat the cloth on a slab or clean stone, they wring it again and then one more time, they wring it until no water drops from the cloth anymore. Only after they have done all this do they hang the clean piece of clothing to dry, on a string or clothes line. Whoever goes into writing should do the very same thing. The word was not meant to embellish or to spark like fake gold; the word was meant to say."


(Graciliano Ramos, during an interview, in 1948)

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