quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Para perder a fé na humanidade


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Desenvolvo hoje um matéria publicada na última segunda, mas que, por imposições do espaço físico, saiu num tamanho muito menor do que o ideal. A ideia era mostrar alguns experimentos que, tomados pelo valor de face, nos fazem perder a fé no gênero humano. Eles revelam fraquezas fatais da espécie, vieses constrangedores e ilusões cognitivas comprometedoras.


Antes, porém, de concluir pela inviabilidade do Homo sapiens, vale lembrar que também seria possível levantar experiências que sugerem, à maneira de Rousseau, uma natureza humana boa, capaz de altruísmo autêntico, de transcendência e de produzir conhecimento. O problema é que, entre os "bugs" implantados em nosso cérebro, está um que nos impele a ver o mundo como uma sucessão de dicotomias --somos bons ou maus?, a vida tem ou não um propósito?, somos só bichos ou ultrapassamos a animalidade?--, quando a realidade é mais bem descrita num "continuum", que admite o convívio de nossas falhas e virtudes.


Meus amigos do caderno Ciência fizeram o que era possível para adequar as copiosas descrições que eu lhes enviara aos parâmetros do jornal que, receio, sacrifique cada vez mais os textos em favor de imagens e outras firulas. Mas, como eu acho que frequentemente a genialidade de um experimento está em seus detalhes, volto à carga, trazendo mais casos (não couberam todos) e seus às vezes indispensáveis pormenores. Prometo, porém, que vou poupar o leitor das tecnicalidades mais aborrecidas. Divirtam-se.


1. Stanford Prison Experiment (SPE)


O que importa é o caráter das pessoas, certo? Talvez não. Em 1971, o psicólogo Philip Zimbardo estava interessado em descobrir se traços de personalidade de prisioneiros e guardas explicavam situações abusivas nas cadeias. Para tanto, decidiu criar um simulacro de xadrez no porão do Jordan Hall (sede do Departamento de Psicologia da Universidade Stanford).


Recrutou 24 voluntários em perfeita saúde mental. Num sorteio, parte do grupo ficou com o papel de guarda, e o restante, com o de prisioneiros. Estes receberam um uniforme e um número, pelo qual passaram a ser chamados. Os guardas ganharam vestes militares, óculos escuros e um cassetete. Foram instruídos a assustar os presos, mas jamais usar força física contra eles.


Rapidamente as coisas saíram de controle. Os guardas começaram a mostrar-se cada vez mais cruéis para com os prisioneiros, que, depois de uma tímida tentativa de rebelar-se, foram aceitando docilmente as humilhações a eles impostas. Eram forçados a participar de contagens e a fazer exercícios como sanções disciplinares. O próprio Zimbardo se deixou absorver pela situação e pelo papel de superintendente. Foi só depois que sua namorada visitou o local e constatou que limites éticos haviam sido rompidos, que o psicólogo começou a questionar a moralidade da situação. No sexto dia, o experimento, concebido para durar duas semanas, foi interrompido (e sob os protestos dos guardas).


A moral da história é que o comportamento dos participantes foi em larga medida ditado pela situação em que se encontravam, com papéis que lhe foram aleatoriamente atribuídos, e não apenas por traços de sua personalidade. É um "insight" para compreender situações como Abu Ghraib e até fenômenos sociais como o nazismo.


2. Milgram


Na mesma linha do SPE, mostra que, quando a situação o exige, pessoas normais são capazes de coisas terríveis. Em 1963, Stanley Milgram, da Universidade Yale, descreveu experimentos nos quais voluntários são convidados por um pesquisador a aplicar choques elétricos num ator como punição por respostas errada num teste de memória. O voluntário, é claro, não sabe que seu companheiro é um ator e que a máquina de choque é falsa. Não obstante, quando instados pelo pesquisador a aumentar a voltagem dos choques falsos, 65% obedeceram até chegar à carga máxima de 450 volts, apesar dos gritos do ator.


3. "Political junkies", o prazer com a contradição


Ao decidir o voto, colocamos a razão a serviço do bem comum, como quer a turma do politicamente correto, ou de nossos interesses, na versão cínica. Esqueça. Isso é bobagem. O psicólogo Drew Westen (Universidade Emory) mostrou que, também na política, as emoções falam mais alto que a lógica. Ele enfiou 15 eleitores do Partido Republicano e 15 do Partido Democrata num aparelho que monitorava a atividade de seus cérebros enquanto seus candidatos do coração apareciam em situação desfavorável. A cada um dos participantes foram apresentadas seis situações fictícias que mostravam flagrantes contradições de John Kerry (candidato democrata), seis de George W. Bush (republicano). Ao final de cada situação, o participante tinha de dar uma nota, indicando se achava que o candidato havia caído em contradição e em que grau, de 1 (discorda fortemente) a 4 (concorda fortemente).


Como previsto, os eleitores não tiveram dificuldade para perceber a contradição do candidato a que se opunham, colocando a avaliação média perto de 4. Já as contradições dos postulantes de sua preferência receberam nota próxima a 2. 
Analisando as imagens do "scanner", os cientistas puderam reconstituir os passos da razão eleitoral de suas cobaias. Quando os eleitores foram confrontados com informação potencialmente ameaçadora a suas convicções, foram ativadas redes de neurônios associadas a estresse. O cérebro percebe o conflito entre os dados e o desejo e começa a procurar meios de desligar o interruptor que deflagrou a emoção negativa. Em seguida, os circuitos ligados à regulação de estados emocionais recrutam crenças capazes de eliminar o estresse. É por isso que a contradição é apenas fracamente percebida. Os circuitos normalmente envolvidos no raciocínio lógico quase não são ativados.


A surpresa foi constatar que esse processo de relativização das contradições não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara emoções positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que em grande parte coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose de manutenção.


4. Professor Fox


O importante é ter conteúdo. Essa é outra balela. Aparências são muito mais importantes. Em meados dos anos 70, psicólogos da Universidade da Califórnia criaram o Dr. Myron L. Fox. Ele era uma fraude. Não havia nenhum Dr. Fox e seu currículo foi completamente inventado. Para representá-lo, contrataram um ator charmoso que deu uma aula sobre "teoria dos jogos matemática aplicada à educação física". A aula não passava de um amontoado de bobagens sem sentido, repleta de frases de duplo sentido, contradições e neologismos. Mas o ator era bom e dizia essas coisas com clareza, confiança e autoridade.


A plateia, composta por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais, adorou. Na hora de avaliá-lo, deu-lhe notas positivas, incluindo 100% de aprovação no quesito "estímulo ao pensamento".


Vídeos da aula do Dr. Fox foram exibidos a outros públicos, incluindo um formado por professores e administradores de cursos de pós-graduação. E o Dr. Fox recebeu excelentes notas de todas as audiências.


5. Mentirosos compulsivos


A honestidade, pelo menos, continua sendo um valor. A maioria das pessoas é honesta. Será? O psicólogo Robert Feldman gravou secretamente várias conversações entre duas pessoas em ambientes naturais (lojas, universidade etc.). Depois, as convidou a revisar o vídeo, apontando as "inexatidões" em que haviam incorrido. Detalhe importante, os participantes não sabiam que o pesquisador estava interessado em mentiras.


A conclusão básica de Feldman é que, no curso de uma conversação de meros dez minutos em que dois adultos se apresentam, eles mentem uma média de três vezes cada, podendo chegar a 12 nos casos mais extravagantes.


6. Eles estão loucos


Tudo bem que temos todos a tendência de mentir, de nos tornar torturadores e que a política e a educação podem não passar de uma fraude, mas pelo menos ainda conseguimos distinguir a sanidade da insanidade. Nem isso. Num célebre experimento de 1973, o psicólogo David Rosenhan e sete associados, todos sãos, apareceram em diferentes hospitais psiquiátricos queixando-se de estar ouvindo vozes. sete deles foram internados com o diagnóstico de esquizofrenia. O oitavo, segundo os médicos, sofria de psicose maníaco-depressiva (doença que hoje leva o nome de transtorno bipolar).


Uma vez internados, eles passaram a agir normalmente e de forma colaborativa, afirmando que as vozes tinham sumido. Mas sair era mais difícil do que entrar. A estadia média foi de 19 dias (variando de 7 a 52), durante os quais os pseudopacientes receberam drogas (no total, 2.100 pílulas, das quais apenas duas foram ingeridas).


A parte mais divertida, porém, é que, embora nenhum dos médicos e enfermeiros tenha notado que os pesquisadores não estavam doentes, 35 de um total de 118 pacientes perceberam. "Você não é louco. É jornalista ou professor", disse um dos internos.


E as coisas não acabam aqui. Ao tomar conhecimento de que Rosenhan preparava seu artigo, representantes de um hospital lhe escreveram dizendo que jamais cairiam num truque barato desses. Rosenhan aceitou a provocação e escreveu de volta propondo um desafio. 


Nos três meses seguintes, ele enviaria ao hospital um ou mais pseudopacientes, que a instituição deveria identificar como tal. Dos 193 pacientes admitidos no hospital no período, 41 foram classificados como impostores e 42 como possíveis fraudes. Só que Rosenhan blefara e não havia mandado nenhum pseudopaciente.


"Está claro que não conseguimos distinguir os sãos dos insanos em hospitais psiquiátricos", concluiu o pesquisador.


7. O gorila invisível


Já que o mundo que nos rodeia é insano, a solução é voltarmo-nos para dentro de nós mesmos. Complicado, porque nosso cérebro também nos prega peças. Um experimento seminal de 1999 conduzido pelos psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons traduz com muito bom humor o tamanho da encrenca. 


Eles fizeram um vídeo no qual seis pessoas (três vestindo camisetas brancas, e três, pretas) trocam passes com duas bolas de basquete. Participantes da pesquisa são instruídos a contar mentalmente os passes do pessoal de branco enquanto assistem ao vídeo. A uma dada altura, um sujeito fantasiado de gorila entra em cena, encara a câmara, bate no peito e se retira. Ele aparece na tela por 9 segundos.


Você o notaria? A esmagadora maioria das pessoas responde com um sonoro "sim". 


Como não perceber um gorila que fica em cena por quase 10 segundos? Mas não interessa muito o que imaginamos, o fato é que 50% das cobaias simplesmente não veem o símio, porque estão ocupadas contando. O experimento, que rendeu a seus autores o prêmio IgNobel de 2004, foi repetido com diferentes públicos em diferentes países com resultados sempre semelhantes.


A ideia básica é que, embora imaginemos que podemos enxergar tudo o que aparece à nossa frente, só temos consciência de uma pequena porção das coisas que estão em nosso campo visual. Em geral, vemos aquilo que o cérebro já espera encontrar.


8. Carteira escocesa


Talvez nossa boia seja a bondade alheia. Mas mesmo as boas intenções são moldadas por preferências irracionais. O psicólogo Richard Wiseman, da Universidade de Hertfordshire, resolveu espalhar 240 carteiras pelas ruas de Edimburgo. Elas não continham dinheiro, apenas documentos de identidade, cartões de fidelidade, bilhetes de rifa e fotografias pessoais. A única variação eram as fotos. Algumas das carteiras não tinham foto nenhuma (era o grupo controle) e outras traziam imagens que podiam ser de um casal de velhinhos, de uma família reunida, de um cachorrinho ou de um bebê.


A meta do experimento era descobrir se a fotografia afetaria a taxa de devolução das carteiras. Num mundo perfeitamente racional, a imagem seria irrelevante. Devolve-se o objeto perdido porque é a coisa certa a fazer. O trabalho de colocá-lo numa caixa de correio não é tão grande assim e é o que gostaríamos que os outros fizessem, caso fôssemos nós que tivéssemos perdido os documentos.


É claro, porém, que as fotografias influíram nos resultados. Foram devolvidas apenas 15% das carteiras sem foto, pouco mais de 25% das que traziam a imagem dos velhinhos, 48% das da família, 53% das do filhotinho e 88% das do bebê.


9. Libet


OK. Não podemos confiar em nenhuma instituição, pessoa, nem nos nossos sentidos e em partes de nosso cérebro, mas ainda temos o livre-arbítrio, não é mesmo? Provavelmente não. Num experimento seminal dos anos 80, Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia, ligou seus alunos a aparelhos de eletroencefalograma e demonstrou que a atividade cerebral inconsciente que faz alguém mover o braço, por exemplo, precede em pelo menos meio segundo a "decisão consciente" de mexer o braço.


A partir daí, neurocientistas desenvolveram vários experimentos semelhantes, obtendo a corroboração dos resultados. Hoje são mais ou menos unânimes em afirmar que o livre-arbítrio não é mais do que uma ilusão, um efeito colateral de vários sistemas cerebrais ligados em rede, que nos leva sinceramente a crer que nossas decisões brotam da mente consciente. Pensando bem, isso talvez não seja um problema, pois há vários experimentos fortemente sugestivos de que também a consciência não passa de uma ilusão.

Fontes: "The Lucifer Effect", "Political Brain", "Future Babble", "The Moral Landscape", "The Believing Brain", "The Invisible Gorilla", "The Liar in Your Life", "Self Comes to Mind"