quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A banalidade da ansiedade

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São Paulo é ansiedade. Sobretudo. A todo instante.


Não é fácil. Desgasta. Desde o instante em que você pula da cama, em cima da hora, e se mete no banho meio estremunhado.


Café, correria. Para pegar o trem, o ônibus, o metrô.


Tentando escapar do aperto maior. Entra no carro. Para pegar o congestionamento menor. Olho na rua, olho no rádio, para não ver a demora do semáforo. Ouvindo aquele lote de notícias frustrantes: outro caixa eletrônico, outro atropelamento na faixa, outro desvio de dinheiro. Faz mal.


Tem o medo, os prazeres, a solidão, a comida, o recreio, o dinheiro, o receio de não chegar lá. Mas, o inafastável é a ansiedade. Pensar sempre no que está por vir. Adiante. Nunca estar no aqui e agora. A cabeça está lá na frente, pensando no futuro. Próximo. Com boa dose de angústia. Pelo bem e pelo mal.


Até deitar para dormir a ansiedade é presente. Vou respirar material particulado que entrou pela janela e ficou no quarto em suspensão? Alguns não dormem, outros acordam no meio da noite, e outros tantos muito cedo. Antes da hora. Porque precisam começar um novo dia repleto de ansiedade.


E a tecnologia "da muita informação e pouca reflexão" acelera a ansiedade. O celular. Que tomou para si quase todos os olhares da cidade. Todo mundo mudo. De olho no celular.


Outro dia, quer dizer, um fim de tarde de domingo, no Café Nespresso entra um casal. Jovem, alegre. Sentam-se, recebem o cardápio, trocam duas palavras, fazem o pedido. Foi a última palavra entre eles. Cada um pegou seu celular e lá ficou. Vendo e-mails, mexendo nos jogos. Não se falaram por muito tempo. Quando conversaram, já era hora de sair.


Por isso, a reação possível é ir em direção oposta. Ter tempo, valorizar o tempo. Cultivar atividades que imponham menos correria, menos pressa e menos angústia.


Ter uma infraestrutura cicloviária não é só para andar de bicicleta. É para dar outro ritmo ao deslocamento. Carro com bicicleta também anda mais devagar (carro com moto é pressa). Serve para permitir ver a cidade. Seu lado bom. Ver a cidade que construímos.


Não cair na esparrela de falar só sobre o que não deu certo, falar dos defeitos, viver no problema.


Ter como meta ser a capital do conhecimento vai nos levar a uma série de atividades: da leitura de bons longos livros à curtição de dar aula para o próprio filho sobre algo que ele quer aprender; ou sobre a cidade mesmo. Poucas escolas ensinam a história de São Paulo: a história da origem dos times de futebol da cidade; a história de operários, de uma classe C que emergiu.


Eleger o pedestre como prioridade é eleger a nós mesmos donos da cidade. Calçada arrumada, velocidade moderada no carro, parar na esquina para falar com algum vizinho.


Alguém já disse que viver numa cidade é poder andar nela. Usufruí-la. A questão é virar hábito. Antes, para sair da ansiedade e ter o hábito de usufruir a cidade, com calma, com prazer, é preciso ter obsessão.


Certas obsessões constroem. Construir uma nova cidade é querer. Não só querer: é virar sonho. Levantar de manhã correndo para São Paulo ficar do jeito que queremos é um bom motivo para sair da cama. Mesmo no frio, mesmo no feriado.


Ter obsessão por não viver obcecado pela ansiedade. É preciso de um remédio prático: ter metas inegociáveis. Ter uma filosofia de cidade, uma "ideologia de libertação" dessa ansiedade que nos oprime. É ir num café e conseguir conversar. Devagar. Bebendo em comemoração às nossas conquistas, na cidade. Ter calma, a certeza de que estamos trabalhando exatamente no que vai fazer o dia seguinte ser melhor.


Um pouco de poesia, um pouco de engenharia. Sem pressa, com convicção do que estamos construindo.
José Luiz Portella

José Luiz Portella Pereira  
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joseluizportella/964975-a-banalidade-da-ansiedade.shtml))