domingo, 7 de dezembro de 2008

A cultura da má notícia

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No dia 17 de julho, saiu uma notícia dizendo que a criação de empregos formais no Brasil, ou seja, com carteira assinada, no primeiro semestre deste ano, foi a maior da história. No dia seguinte, a manchete do jornal que eu assino (dá na mesma qual; não sei se vocês já repararam, mas hoje em dia eles estão muito parecidos, para não dizer iguais) era “PF libera apenas trechos de gravação com delegado”. Tinha também um banqueiro corrupto sorridente e os parentes das vítimas de um acidente aéreo. Nada de empregos.

No dia 4 de agosto, anunciou-se que os empregos na construção civil dobraram em um ano, o maior contingente de empregos formais desde 1995. A manchete do meu jornal no dia 5 era: “No STF, teles mantêm sigilo de grampos”. Outros destaques do dia na primeira página foram o recuo da bolsa de valores e os ataques terroristas às vésperas dos jogos olímpicos. De novo, nada de empregos.

No dia 5 de agosto, a Fundação Getúlio Vargas divulgou um estudo segundo o qual a classe média no Brasil está crescendo. No mesmo dia, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) dizia que a pobreza no país está diminuindo. O jornal que assino, no entanto, destacava na manchete do dia seguinte o mapa da violência em São Paulo e, mais uma vez, as escutas da Polícia Federal. A boa notícia até que aparecia na primeira página, mas enigmática: “Estudo vê ganho de renda mais sólida e classe média maior”.

Eu não consigo entender esta opção sob nenhum aspecto. Por exemplo, o da venda de exemplares em banca, que deveria ser primordial para eles, já que vem despencando a cada ano. Será que um assunto como as futricas envolvendo a PF realmente vende mais jornais do que o aumento de empregos? Será que a violência paulistana interessa mais a potenciais leitores do que a ascensão social num país onde a desigualdade é um problema tão grave? Duvido.

Todos os dias acompanho, no mesmo jornal que assino, uma coluna onde se compilam notícias sobre o Brasil mundo afora, e as boas novas se sucedem. Uma hora é o futuro promissor do país em órgãos respeitados como o jornal New York Times ou a revista The Economist. Noutras, o de empresas nacionais como a Petrobras, que, segundo a Newsweek, será a maior empresa do mundo em cinco anos. Por que estas coisas não ecoam por aqui? Na real, a única opinião que vem de fora que vale, para a mídia, é a do presidente francês Charles de Gaulle de que “o Brasil não é um país sério”. Basta surgir algum problema para a lengalenga recomeçar: “ah, bem que De Gaulle blá-blá-blá”.

Frase de 1963... Não sei quanto a vocês, mas eu nem era nascida! Vamos combinar, de lá para cá muita água rolou por baixo da ponte. Obviamente, tem milhões de coisas que precisam melhorar no Brasil, mas daí a achar que essa sentença continua ditando regra é outra história. O mundo mudou, o Brasil mudou, De Gaulle até já morreu. Por que então os articulistas seguem se apegando a este vaticínio imutável até os dias de hoje? Por que o usam para ratificar que nosso destino é o fracasso até o final dos séculos, amém? Não é apenas porque se publicarem boas notícias vão parecer estar a favor do governo.

Não, o negócio é mais amplo. Pensei muito e cheguei à seguinte conclusão: os jornais optaram pela cultura da má notícia, das eternas nuvens negras sobre nossas cabeças, porque a mídia e quem ela representa (os tucanos, sobretudo) simplesmente não acreditam que o Brasil possa melhorar. Duvidam que o Brasil possa vir a ter um destino diferente de “não ser um país sério”. Que um dia cheguemos “lá”. Por isso, apostam na violência, na corrupção, no desemprego e na desgraça em suas manchetes.

Lembrem do Fernando Henrique. Ele nunca acreditou no Brasil. Comportava-se como se fosse “o presidente de primeira de um país de terceira”. E, bom, nem uma nem outra coisa provou ser verdade... O restante de seus colegas emplumados pensa igual em relação a São Paulo, que é uma exceção de primeiro mundo num país furreca. Nenhum deles acha que o Brasil presta. Todos se acham acima do país. É um problema grave para um político, não acreditar numa nação que quer governar.

Lula também é vítima da soberba, também ficou metido a besta ao chegar à Presidência. Mas eu estaria sendo injusta se dissesse que ele não acredita no Brasil. Acredita, sim. Tanto que, mesmo “se sentindo”, estou segura que o ex-operário não se considera acima do país. Sente-se menor do que ele, sabe que o potencial da nação que dirige é grande, maior que o seu próprio. Isto é bom. Mas tem gente no PT que não aposta no país, assim como em todos os partidos, à imagem e semelhança de nossa mídia.

Não é uma questão de ser ufanista, não. Ser ufanista é babaquice. “Este é um país que vai pra frente, uou-uou-uou-uou”, nada disso. Lula às vezes quer transmitir essa idéia, e não é porque vivemos tempos de Olimpíadas que fico tentada a embarcar nela. Para falar a verdade, nem sempre torço pelo Brasil em muita coisa.

Mas quero ter o direito de acreditar que ele pode dar certo. Já visitei vários lugares e sei que o Brasil é especial, um bom lugar para se viver. Um dos melhores países do mundo, de verdade. Dou graças aos céus por ter nascido aqui em vez de, sei lá, no Afeganistão. O Brasil não é um país de terceira, podem acreditar no que digo. Temos estrela, podemos ser protagonistas. Não se deixem levar pelos urubus da mídia a dizer o contrário.

Sei que é considerado o supra-sumo da sofisticação intelectual ser pessimista. Mas deixem-me ser otimista, por favor. Se isso é ser raso, é problema meu. E sabe o que mais? Vai te catar, Charles de Gaulle.

(Cynara Menezes)