quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Cultura do Desrespeito

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O BRASIL SEMPRE TEVE A CULTURA DO DESRESPEITO.


Agora, todo mundo entende de violência. É o que vejo nos jornais, revistas e nos papos de bêbados em bares. Todo mundo que tem o privilégio de ter projetos de vida, de construir futuro e família, acha que é diplomado em violência. É o chamado 'bom senso de gravata'. Por outro lado, quem vive além da segura fronteira entre a morte e a vida (única fronteira) fica mais quieto, descrente. Daqui a pouco, como uma explosão se perdendo no horizonte, o clamor público deve amainar.

O Brasil é assim - maníaco e depressivo; depois da grita, vem o lamento, depois o esquecimento. Vamos ver se agora muda. Ninguém consegue resolver nada porque os instrumentos de defesa pública estão engarrafados numa rede de burocracias, fisiologismos, leis antigas, velhos conceitos que são facilmente superados pela eficiência 'pós-moderna' dos traficantes e seqüestradores, diretamente ligados ao ato, ao fato, à instantaneidade do mal, favorecida pela ausência de freios éticos ou piedosos.

A mesma instantaneidade narcísica do consumismo moderno atingiu os criminosos. 'Fast food, fast buy, fast fuck, fast love, (e, agora) fast crime'. Eles têm a mesma vantagem dos terroristas. Muito lero-lero racionalista ocidental, cultura, ciência, democracia e, aí, chega um arabezinho maluco com uma bomba e arrasa o 'shopping center'.

Quanto mais complicada a democracia e suas redes de proteção, mais protegido estará o criminoso. Quanto mais estrangeiro a nossos pudores, mais rápido o bandido - bastam a 'mão grande', a raiva acumulada, a ausência de esperança, de virtudes. E continuamos a achar que há uma 'solução' que não é aplicada por falta de vontade, apenas.

Continuamos a sonhar com um futuro de harmonia - um dia, conquistaremos uma harmonia funcional liberal: pobres em seus barraquinhos, riquinhos em seus barquinhos, virtudes de um lado e vícios do outro, 'playboys' nos Jardins e 'manos' na periferia, talvez ajardinada para ficar mais legalzinha, mais palatável, com casinhas pintadas. Basta dar uma voadinha de helicóptero pela periferia de São Paulo ou pelo Complexo do Alemão, no Rio, e ver que não há 'solução'.

O labirinto de impossibilidades se soma ao labirinto de incapacidades, à falta de dinheiro, ao inferno dos interesses e tudo se paralisa, se aniquila diante da singeleza minimalista do crime, que sempre encontra uma brecha para entrar.

A verdade é que o Brasil sempre teve a 'cultura do desrespeito' à Lei. Nossa sociedade foi montada na transgressão à ordem, no horror à coisa pública, horror aos direitos da maioria; somos uma sociedade de contraventores, de maus pagadores, de sonegadores de impostos, de pequenos psicopatas 'light' do dia-a-dia, uma sociedade de malandros cariocas ou bigodudos paulistas espertos.

Nossa violência é difusa, herdeira do escravismo, está nos quartos de empregada, no trato com os pobres, no egoísmo endêmico dos burgueses. Nossa violência simbólica também é visível em toda parte; basta ligar a TV com controle remoto: clic, pastor evangélico sórdido engana desesperados, clic, jovem anda de quatro com biquíni fio dental, clic, feiticeiras rebolam as bundas, clic, ratinhos humilham aleijados, clic, mau gosto geral, grossura geral, clic, tudo cercado pelas maravilhosas mercadorias nos comerciais. Este é o caldo de cultura onde nasce a prática do desejo criminoso. Horror à lei.

A verdade é que nunca tivemos amor à nossa polícia. Nunca amamos nossos policiais como os ingleses que se orgulham dos 'bobbies' e da Scotland Yard, como os americanos que louvam os heróis policiais em seus filmes. A polícia sempre foi tratada aos pontapés em nossa cultura.

Houve mesmo um tempo em que os marginais e criminosos eram vistos pela 'cultura crítica' como primos da 'revolução', como heróis coadjuvantes de Guevara ou então como galãs de um 'desbunde politizado', na base do 'seja marginal, seja herói'. Eram primitivos contestadores do 'sistema'. Vingadores da miséria. O 'mal' lutava pelo 'bem'. Enquanto isso, os policiais eram os 'agentes do mal', agentes das elites, da propriedade privada. Assim, eram vistos pelos intelectuais: como fascistas e vendidos. E, pelos burgueses eram considerados incompetentes e inúteis cães de guarda, que não cumpriam seus deveres do extermínio de sangue. Até hoje vemos esta divisão: os exigentes brutais e os delicados. Os 'malufinhos' e 'afanásios' que berram: "ROTA na rua!" E os que falam em 'causas sociais'. Claro que ganhando merrecas entre nuvens de pó e sangue, partiram para a simbiose com bandidos...

Agora, surge uma nova sociedade feita de fome e 'funk', de rancor e desejo de consumo. E são estranhos frutos do desenvolvimento e da democracia. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, como um monstro Alien que se esconde nas brechas da tecnologia e da prosperidade. Não podem mais ser chamados de 'marginais', pois se constituem com contratos sociais, siglas e bandeiras. Surge um sujo país sangrento ao nosso lado, que pode levar à zonas dominadas, como na Colômbia. O paradoxo do progresso excludente gera essa violência, antes invisível.

Há pouca inteligência objetiva na enxurrada de opiniões na imprensa. Uma exceção é o texto do coronel reformado da PM de São Paulo, hoje pesquisador do Instituto Fernand Braudel, José Vicente da Silva Filho: "Não podemos enfrentar o crime do século 21 com uma polícia do século 19. (...)

Os governos consideram o policial como um funcionário qualquer, esquecendo que nenhuma função pública reúne tantos fatores estressantes como o trabalho policial.

Sem investir na capacitação, em condições de trabalho, em salários decentes, direitos especiais como aposentadoria diferenciada, não se pode ter combatentes aptos contra o crime" (Veja). Gente como ele, criada na linha de fogo, enxerga o óbvio:

"É preciso se orgulhar da polícia, fortalecer a polícia."

Esse cara devia ser chamado para consultas.

(Arnaldo Jabor)