segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Gullar manda bala

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Prestes a completar 80 anos e a lançar um livro inédito, o poeta Ferreira Gullar, ganhador do Prêmio Camões, diz em entrevista à Folha que marxismo tem visão política generosa, mas equivocada.

Letícia Moreira/Folhapress

O poeta no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier no último final de semana

MARCO RODRIGO ALMEIDA
ENVIADO ESPECIAL A SÃO FRANCISCO XAVIER

"Não me sinto com 80 anos. O calendário é que fala isso. Mas não tenho essa idade", diz, sério, o poeta Ferreira Gullar quando o assunto é seu próximo aniversário, em 10 de setembro.
A tranqüilidade associada à velhice, realmente, não se aplica a ele, como sabem os leitores de sua coluna na Ilustrada.
Gullar, que lança em setembro um livro inédito de poesia, "Em Alguma Parte Alguma", preserva intacto há mais de 50 anos o espírito crítico que faz dele um dos principais, e mais controversos, pensadores do país.
No domingo, um dia antes de ganhar o Prêmio Camões, o principal da língua portuguesa, ele participou do Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier.

Logo após o debate, recebeu a Folha. Nesta primeira parte da entrevista, fala sobre governo Lula, o comunismo e as eleições presidenciais.

Folha - Por sua história política, muita gente estranha o senhor ser um dos principais críticos do Lula.

Ferreira Gullar - Não é que seja um crítico ferrenho, tento ser objetivo. Eu me preocupo com o futuro do meu país. O Lula é um farsante, não merece confiança. Não entendemos o que ele faz. Como abraçar o Ahmadinejad [presidente do Irã], de um regime que é uma ditadura teocrática, que realizou uma eleição fraudada. O povo protestou contra o resultado e o Lula disse que aquilo é choro de perdedor.

O senhor já declarou admirar o presidente Barack Obama. O que achou quando ele disse que Lula é o "cara"?

Isso foi uma brincadeira. O fato de o Lula ser um operário que chegou aonde chegou desperta a simpatia das pessoas. Mas não quis dizer que o Lula é "o cara" do mundo. Outra grande bobagem é o Marco Aurélio Garcia [assessor da Presidência] querer impedir a exibição de filme americano na TV a cabo. Alguém tem que falar para ele que já estamos em 2010. É muito atraso.

O senhor ainda se considera de esquerda? Essa coisa de direita e esquerda é bastante discutível. Quem é de esquerda hoje?

O Lula é de esquerda? Não me faça rir. Eu nunca tive medo de pensar por mim mesmo. Não fico preso a uma verdade indiscutível.

Arrepende-se de ter sido filiado ao Partido Comunista na década de 1960?

O marxismo foi uma atitude correta e digna diante do capitalismo selvagem do século 19. Surgiu como uma alternativa contra aquela coisa inaceitável. Mas a projeção da sociedade futura, com a ditadura do proletariado, é um sonho equivocado. O marxismo tem uma visão política generosa, mas equivocada.

O senhor, então, também se equivocou?

Eu também cometi muitos erros na época [anos 60]. A fúria fundamentalista só conduz ao erro. Queria me sacrificar pelos interesses do país, mas não basta ter razão para estar certo.

E quanto às eleições, quais são suas expectativas?

A Marina Silva é uma excelente pessoa. É preciso alguém com a pureza dela num país onde a corrupção impera. Mas a chance de ela ganhar é pouca. Eu espero que a Dilma não ganhe. Se ganhar, nós corremos o risco de ter 20 anos de PT no governo, o que seria um desastre nacional.

Vai então votar no Serra?

Vou. Pelo que sei, ele fez um ótimo governo em São Paulo. Foi excelente ministro da Saúde. Se não votar nele, vou votar em quem?

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