sexta-feira, 10 de setembro de 2010

E agora, José (Dirceu)?

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Simpatizei com a vesícula de Niemeyer quando soube que ela estava deitadinha numa maca do Copa D" Or

A VESÍCULA do grande Oscar Niemeyer telefonou-me ontem em estado de choque.
Não, não estou trocando as bolas nem confundindo minha tresloucada amiga Bucicleide com o reservatório de bile de outrem. Quem discou meu número foi mesmo a vesícula do arquiteto.
Você há de lembrar, leitor fofolete, que há pouco mais de ano Oscar Niemeyer teve sua vesícula removida. Interessei-me sobremaneira pelo caso por questão humanitária.
Imagine uma vesícula de quase cem anos finalmente sair ao sol e poder conhecer o seu Rio de Janeiro, ir tomar um chope no Bar da Urca, fincar o pé nas areias de Copacabana, ver o pôr do sol no Arpoador...
E fazer essas coisas de que o carioca tanto gosta livre da tacanhice ideológica de seu amo e senhor, testemunha de seu tempo, que viu o modelo de utopia criado por ele fracassar no meio do cerrado, engolido pela miséria das cidades satélites, o muro de Berlim cair, a revolução cubana ir de Bela à fera e, mesmo assim, nunca ter tido a humildade de reconsiderar uma vírgula.
Saúdo o talento de Niemeyer, mas simpatizei com sua vesícula logo que soube que ela estava lá deitadinha em alguma maca da clínica Bambina ou Copa D" Or ou sei lá como se chama o lugar onde ele foi operado. Carioca parece que adora batizar seus melhores hospitais com nome de sorveteria ou clínica de lipoaspiração de fundo de quintal.
Fato está que a vesícula do Niemeyer, a Shirley Temple (foi por causa dela que a atriz infantil ganhou seu nome), me ligou radiante para comentar as declarações dadas por Fidel Castro à revista "The Atlantic Monthly", publicação literária de imaculada reputação em que Mark Twain publicava suas histórias.
Shirley já foi logo metendo o pé na porta. Apesar de ter passado quase um século na meia-luz do convívio social, ela é bastante despachada: "Já imaginou a cara do Zé Dirceu, Barbara?", perguntou-me. "E do Lula, da Dilma, do Marco Aurélio Garcia, do Paulinho da Força..." Pausa para reflexão. "Em vez de fazer tanta força, por que ele não toma Guttalax? Ajudaria muito."
"Pois é, Shirley", desconverso, "Fidel Castro nos pregou uma bela peça, você já ligou para saber da Bete?" Refiro-me à Bete Carvalho, militante que sempre combateu a Coca-Cola com valentia.
"Olha, Barbara, a Bete ficou com a cabeça tão virada com essa história de o Fidel dizer que o modelo de comunismo de Cuba já não funciona, que eu soube que ela foi vista falando sozinha no meio da quadra da Mangueira. Parece que revirava os olhos feito a menina de "O Exorcista" e dizia que, de hoje em diante, iria abdicar do samba."
"Como assim, Shirley Temple?"
"Pois é", respondeu-me pesarosa a vesícula de Niemeyer. "Bete teria ficado tão transtornada que afirmou que irá se dedicar a compor músicas românticas para o Fiuk, vê se pode?"
"Parece grave."
"Tem mais uma coisa..."
"O quê? Desembucha, Shirley."
"Pode ir tirando o cavalo da chuva quem estava se preparando para comemorar o 11 de setembro na casa do Chico. Ele já ligou para dizer que, neste sábado, em sinal de luto, não haverá futebol."

(Barbara Gancia - Folha)