quinta-feira, 17 de março de 2011

A folha corrida do carregador da mala

.






Quando lhe perguntam como é que um ex-metalúrgico sempre tem dinheiro disponível para socorrer amigos necessitados, Paulo Okamotto, atualmente empenhado na montagem do Instituto Lula, recita a mesma resposta: “Sou um expert em economia formado pela universidade da vida”. Se a organização britânica Times Higher Education, que divulgou nesta quinta-feira o ranking das melhores universidades do mundo, soubesse onde fica esse colosso do ensino superior, o Brasil não seria o único país do Bric sem representante entre as 100 primeiras. A instituição que diplomou Okamotto decerto estaria entre as 10 mais: os alunos muito espertos aprendem até a emprestar mais dinheiro do que ganham.

Paulista de Mauá, ex-tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e ex-presidente do PT paulista, Okamotto ocupou do primeiro ao último dia do governo Lula a chefia do Sebrae, entidade que representa mais de 15 milhões de microempresários, emprega quase 5 mil funcionários e administra um orçamento anual superior a R$ 1 bilhão. Amigos desde que se conheceram numa assembleia sindical, Okamotto (que Lula chama de “Japonês”) deve esse empregão a  “Baiano” (como “Japonês” o chamava antes da chegada ao Planalto). Lula deve muito mais.

Okamotto mostrou que sabia operar milagres fiscais em 2002, quando socorreu com R$ 25 mil a filha do amigo, Lurian Cordeiro Lula da Silva, às voltas com cobranças do dono do imóvel em São Bernardo que, dois anos antes, servira de sede para a campanha malograda da candidata a vereadora. Se é verdade o que declarou à Receita Federal, gastou com Lurian mais da metade dos R$45.600 que ganhou durante o ano inteiro. Presenteado com o Sebrae, ficou ainda mais generoso. E  começou a pagar até dívidas não reconhecidas pelo Primeiro Amigo.

Desde 2002, por exemplo, o PT cobrava a quitação de uma dívida de R$ 29.536 cuja existência Lula nunca admitiu. “Como é que posso ter alguma coisa a devolver se eu era o presidente de honra do partido?”, retrucava o devedor sempre que reaparecia a história do que o PT qualificava de empréstimo. Em agosto de 2005, a CPI que investigava pagamentos suspeitos relacionados com o escândalo do mensalão fez uma descoberta intrigante: o débito que Lula não reconhecia fora saldado em 2003.

A MÃO DE JOBIM

Uma semana mais tarde, Paulo Okamotto apareceu sem ser chamado para declarar-se responsável pelo pagamento. A história que contou conseguiu tornar o mistério mais denso. Sem dizer nada a Lula, gaguejou, havia liquidado a pendência com dinheiro do próprio bolso. Não mostrou nenhum comprovante. Primeiro, jurou que esquecera o local do pagamento. Depois de algum tempo, lembrou-se de que fizera o acerto numa agência do Banco do Brasil em Brasília.

Convocado por outra CPI, enredou-se de vez. Ao insistir na versão original, colidiu com documentos e extratos do Banco do Brasil que provavam que o dinheiro foi remetido a uma conta do PT no ABC paulista por alguém chamado Luiz Inácio Lula da Silva. Okamotto não conseguiu decifrar o enigma.  Tampouco soube explicar por que os R$29.536 não apareceram na sua declaração de renda nem na do presidente.

A CPI solicitou a quebra do sigilo fiscal, bancário e telefônico do depoente. Encerrada a sessão, Okamotto achou sensato pedir socorro ao  Supremo Tribunal Federal. Merecia ter sido preso só por isso: no Brasil, quem foge da quebra de sigilo como o diabo foge da cruz é pecador juramentado. Mas o cofre ambulante foi resgatado pela mão amiga do ministro Nelson Jobim (PMDB-STF), que rejeitou no mesmo dia a solicitação dos parlamentares. Para sorte dos envolvidos, o episódio coincidiu com o climax do maior dos escândalos. Acabou engolido sem engasgos pelo país atordoado com a sequência de torpezas produzidas pela quadrilha do mensalão.
Passados quase seis anos, o homem que reinou no Sebrae preside uma entidade que nem existe oficialmente. Mas está mais feliz do que nunca: depois que virou agente de palestrante, o principal investimento enfim começou a dar lucro. Já na palestra de estreia, Okamotto conseguiu R$200 mil. Pelo andar da carruagem, vai recuperar em poucas semanas o que investiu em muitos anos. O expert em economia diplomado pela universidade da vida agora acompanha o amigo em viagens internacionais.

Do resto da bagagem outros cuidam. Paulo Okamotto é o carregador da mala.

(Augusto Nunes - http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes)