quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Em nome das mães mal-amadas

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Ao longo dos anos somos homenageadas com lindas mensagens, algumas acompanhadas de flores, regadas com lágrimas de "gratidão". E muitas de nós caímos naquele festival melodramático, antes de enfrentarmos o fogão sob nosso comando, ou a fila da churrascaria sob nosso patrocínio.

Na minha geração, os filhos lutavam pra se livrar dos cuidados maternos. O ideal deles era casar e mudar. Hoje são as mães que já não suportam mais ter os filhos nas barras de suas saias.

Eles formam, pelo mundo afora, uma enorme legião de dependentes dos laços protetores e financeiros, impedindo-as de aproveitarem suas vidas (abro aqui estes parênteses para as mães possessivas, que amam ter os filhos sob seu domínio. Elas precisam de um psicoterapeuta semanalmente e de um capítulo à parte.)

As mães de hoje

Depois de terem investido na sua prole e de verem os filhos criados, constatam, desoladas, que a última coisa que eles querem é a própria independência, ainda que percebam que estão roubando a delas!

Eles querem mordomias, querem aproveitar a vida, sem ralar, sem perder os confortos que vocês conquistaram junto de seus maridos, ou muitas vezes sozinhas, para que eles tivessem uma vida melhor que as suas.

O que tenho observado é que em todos os níveis sociais a luta é travada entre pais que tentam, em vão, satisfazer a avidez consumista de seus filhos, nunca saciados e quase sempre mal-agradecidos.

Já é até um chavão! A sociedade nos condena: "Nós sempre somos culpadas dos erros dos filhos. Até quando eles matam os pais por causa de dinheiro, ou porque foram contrariados, as mães são as verdadeiras rés."

Ao invés de ouvir poemas e mensagens copiadas da Internet, este ano tome a dianteira e inverta as posições. Data venia pro seu discurso aos filhos que insistem em não amadurecer, que insistem, sem a menor cerimônia, em permanecer sob suas asas.

Que suas palavras sejam mais ou menos assim:

"BASTA! Não aceito mais ser mãe abnegada pro resto da minha vida. A partir de hoje, quero ser eu mesma. Aposentar a super-mãe e mostrar a minha cara de mulher que quer aproveitar a vida! Somos todos adultos! Quero filhos pra compartilhar comigo alegrias e tristezas. Como vocês, envolvidos com seus próprios umbigos, não se deram conta de quem sou eu, é preciso que me apresente:

A sua mamãezinha aqui não é a fortaleza, nem a perfeição que vocês idealizaram e continuam exigindo que eu seja! Se ao longo de nossas vidas vocês me viram lutar bravamente e me sair vitoriosa em muitos embates da vida, não significa que eu seja de ferro, nem imbatível.

Como a maioria das pessoas também me sinto frágil, carente de afeto, medrosa, exausta, precisando de um ombro amigo. Quero brincar, necessito curtir a liberdade, saborear o prazer de uma vida confortável, cometer algumas loucuras, como entrar numa loja e me dar um presente caro.

Queria ter a coragem de viajar pra Europa sem levar um punhado de culpa na minha bagagem, porque tenho que pagar a sua próxima viagem pra você fazer aquele novo curso de aperfeiçoamento, ou sei-lá-de-quê. Vocês escolheram a profissão de estudantes eternos pra se livrarem do trabalho...

Vejo minha vida sacrificada pra sustentar a vida de vocês cheia de vantagens adquiridas e projetos inacabados, como fazem os políticos que vocês tanto desprezam.

Não os vejo fazendo sacrifícios. Não os vejo lutando por um trabalho. O que vocês desejam, mesmo sem procurar, é um emprego que lhe garanta rendimentos de um empresário bem-sucedido. É de cima que vocês querem começar! Já dizia minha tia-avó: "De cima, só se começa a cavar buraco".

Faço parte da geração de mulheres que saíram de casa pra trabalhar e contribuir com o rendimento familiar!

É por isso que conquistamos uma vida melhor do que aquela que tinham os nossos pais.
E demos a vocês uma infância e juventude mais farta e confortável do que a nossa.

Os brinquedos eram improvisados, nossa sala não tinha TV, DVD, nem jogos eletrônicos. Pulávamos "amarelinha", riscando o chão de giz e usando uma casca de banana pra marcar as etapas.

Os meninos utilizavam bolas de meia e até cabeça de boneca como bola de futebol.
As brincadeiras eram assim tão simples e tão divertidas. Os prédios não tinham piscina, nem plays.

Não nos venham cobrar aquele tipo de mãe antiga que não se atrevia a olhar pra fora de sua casa. Quantas delas reprimiam seus sonhos, suas vocações em prol do lar, doce lar?

A mesa cheia de tachos de doce e o peito cheio de amarguras, causadas, muitas vezes, pelas suas aptidões recalcadas, por casamentos infelizes, ou por falta do marido.

Mas os filhos tinham pudor. E, depois de formados, trabalhavam pro seu próprio sustento e ainda ajudavam os parentes mais pobres.

A vida era muito difícil no pós-guerra. E as moças, se não tivessem a sorte de arranjar marido cedo, ajudavam nas tarefas da casa ou trabalhavam como professoras, secretárias...

Ouço dizer que a vida está muito difícil e que antigamente tudo era mais fácil. Meu Deus do céu, hoje o leque de oportunidades é infinitamente maior. O que é menor é a capacidade de luta da grande maioria de nossos filhos!

Vocês não querem cortar o cordão umbilical. Sentem necessidade de ainda sugarem o meu leite, o meu sangue, porque vocês não conseguiram crescer.

As limitações e a luta que vocês terão para vencer as dificuldades certamente irão torná-los mais fortes e mais amadurecidos.

Se vocês acham que não têm a mãe que merecem, acreditem: eu já me convenci de que tenho os filhos que mereço, pois fui eu que os habituei no bem-bom. Não lhes permiti a sensação da dificuldade. Não lhes concedi a oportunidade de sonhar em ter determinados brinquedos, roupas, tênis importados. Eles já faziam parte dos seus bens materiais antes mesmo que os desejassem.

Gostaria de tê-los a meu lado, como amigos, quando se tornassem adultos. Sonhava em vê-los amadurecidos emocionalmente, donos de suas casas, de seus destinos. Sonhava receber carinhos desinteressados, num domingo qualquer que nem fosse dia de nada, ou simplesmente que ficássemos alguns momentos juntos, pelo único motivo de sentir o calor humano de mãe para filho.

Não vou me prender ao meu sonho de mais de quarenta anos atrás. Vocês criaram uma concepção de vida totalmente diferente daquele tempo.

As queixas dos pais são parecidas em quase todas as sociedades do mundo moderno. Se o mundo mudou, também preciso mudar minha expectativa em relação a vocês.

Aproveito o meu dia, pra fazer a seguinte reivindicação: assumam suas vidas! Sigam seus caminhos! Não me atropelem! Quero o meu caminho livre. Estou na minha reta mais curta e talvez surja uma curva fechada. Nem imagino o que possa vir pela frente. Mas necessito de liberdade! Ainda que seja a de decidir não ir a lugar algum.

Não lhes peço que me amem! Talvez vocês não tenham aprendido a me amar, porque não me viam como ser humano. É por isso, meus filhos, que vocês não desenvolveram o espírito de solidariedade, de proteção por mim. Afinal eu aparentava uma força inabalável.

Diante dos seus olhos, eu sou uma máquina do tipo: "clique aqui e seus problemas acabaram!" (risos).

Olha eu aqui rindo outra vez... e justificando os seus desamores. Sabem porquê? Porque eu os amo! Mas não se aproveitem deste meu sentimento.

Mesmo com todo o meu amor por vocês, já sou outra mulher!

(Lou Micaldas - Fonte: Velhos Amigos - O site da maturidade)