sexta-feira, 12 de março de 2010

JOSÉ MINDLIN

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“Eu não tomo conhecimento da idade e vou tocando as coisas.”

Filho do dentista Ephim Mindlin e de Fanny Mindlin, judeus nascidos em Odessa. Formou-se em Direito, em 1936, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Advogou até 1950, para fundar a empresa Metal Leve S/A, pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico próprio no seu campo de atuação. Em sua atividade empresarial desenvolveu grande esforço em prol do avanço tecnológico brasileiro e no processo de exportação de produtos manufaturados brasileiros. José Mindlin deixou a empresa em 1996. Posteriormente, entre outras atividades, presidiu a Sociedade de Cultura Artística.


Após sua aposentadoria do mundo empresarial, Mindlin pôde dedicar-se integralmente a uma paixão que tinha desde os treze anos de idade: colecionar livros raros. Seu primeiro livro foi "Discours sur l'Histoire Universelle" de Jacques-Bénigne Bossuet, de 1740.


Ao completar 95 anos de idade, acumulava um acervo de aproximadamente 40 mil volumes, incluindo obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas (gravuras). É considerada como a mais importante biblioteca privada do gênero, no Brasil.

Em 20 de junho de 2006, Mindlin foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, onde passou a ocupar a cadeira número 29, sucedendo a Josué Montello. Após saber da vitória na eleição, Mindlin declarou: "De certa forma, coroa uma vida dedicada aos livros". No mesmo ano, Mindlin decidiu doar todas as obras brasileiras da vasta coleção à Universidade de São Paulo (USP). A partir de então, ela passou a ser chamada de "Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin". O prédio da biblioteca, dentro do campus da USP, está em construção.


"- Nunca me considerei o dono desta biblioteca. Eu e Guita [esposa já falecida de Mindlin] éramos os guardiães destes livros que são um bem público." ( Fonte: Wikipédia)


PAIXÃO E PERDIÇÃO

A relação dos homens com os livros, em particular a dos bibliófilos, aqueles que por eles se apaixonam, passa por três estágios. Primeiro, os homens pensam que conseguirão ler um número de livros maior do que de fato é possível. Num segundo estágio, consequência imediata do primeiro, passam a desejar ter em mãos o maior número possível de obras dos autores de quem gostam. Num terceiro momento, já siderados, surgem o interesse pelas primeiras edições, geralmente raras, e a atração pelo livro como objeto de arte. Esta última fase é definida pelo mais célebre bibliófilo brasileiro, o empresário paulista José Mindlin, como perdição. "Quando se chega a esse estágio, aquele que pensava em ser na vida apenas um leitor metódico está irremediavelmente perdido", confessa Mindlin. A patologia – doce patologia – está instalada em definitivo. Essa tese é defendida logo na abertura de "Uma Vida entre Livros – reencontros com o tempo" (Edusp-Companhia das Letras, 214 págs. R$ 42), texto confessional e ao mesmo tempo uma espécie discreta de autobiografia intelectual, em que o bibliófilo conta a história de sua paixão pela literatura.


Uma vida entre livros é uma obra desavergonhadamente derramada, sincera, até um pouco exagerada às vezes, como se passa quando se confessa uma paixão. Nele, Mindlin deixa de lado a vida mais crua do mundo empresarial e se dedica a entregar aos leitores, sem nenhuma pose de literato, pequenos tesouros íntimos. José Mindlin é, pode-se afirmar, o grande amante dos livros no Brasil. Sua biblioteca particular em São Paulo, ele mesmo estima, tem hoje 30 mil volumes, dos quais dez mil são raros e dois mil, raríssimos. Mindlin começou a comprar livros aos 13 anos. Nessa idade, ele já tinha lido obras como a História das Religiões, de Salomon Reinach, e as Letras e Narrativas, de Alexandre Herculano. Desde 1927, lá se vão 70 anos, o empresário tem o hábito de frequentar sebos. Uma única regra o guiou na construção de sua esplêndida coleção, o prazer da leitura. "O que não gosto, e raramente acontece, é de ler por obrigação", diz. Mesmo diante daqueles títulos raros que sempre desejou e nunca conseguiu comprar, é o prazer, e não a cobiça, que o move. Ainda há muitos desejos insatisfeitos. Um deles é adquirir a primeira edição de Cultura e opulência do Brasil, de Antonil, publicada em 1711. Chegou a tê-la um dia nas mãos, mas não conseguiu comprá-la.


O empresário ensina que a mais importante qualidade de um bibliófilo não é a fortuna, ou a erudição, mas a paciência. Ele relata, para os que duvidarem, a difícil história que viveu com a primeira edição de "O Guarany", de José de Alencar, de 1857. O livro – que é hoje um dos tesouros de sua biblioteca – foi oferecido a amigos do empresário, nos anos 60, por um grego, que pedia por ele algo como US$ 1.000. Para desespero de Mindlin, que só veio a saber da oferta depois, nenhum dos amigos se interessou. Dez anos depois, a primeira edição da obra apareceu no catálogo de um leilão de raridades na Inglaterra. Ele fez a encomenda a um livreiro londrino, que acabou deixando o livro escapar, porque o achou caro demais. Em 1977, Mindlin foi a um leilão de livros raros em Paris e lá soube que "O Guarany" estava disponível. Na viagem de volta, já com seu tesouro no colo, pelo qual pagou muito mais do que o preço original, Mindlin pegou no sono. Ao desembarcar, não se deu conta de que deixara o livro caído no tapete do avião. A Air France o achou, três dias depois, em Buenos Aires. Foi preciso esperar mais alguns dias até o volume chegar, são e salvo, a seu destino definitivo.

No final Mindlin ainda elenca seus autores preferidos, entre eles Balzac, Tolstói, Cervantes, Sterne e Virginia Woolf. A experiência o leva a dar bons conselhos. Em matéria de livros, garante, cada um deve ser capaz de fazer suas próprias escolhas. O leitor deve se permitir passar de Machado a Astérix ou de Shakespeare a Agatha Chirstie. O importante é o prazer da leitura. Tanto que resume seus sentimentos com uma frase: "Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver."
("Paixão e perdição" - Texto de José Castello, para ISTO É, 12/11/97)


O GUARDIÃO DE RELÍQUIAS


Michelangelo, além de genial, era um ingrato - ao menos com o papa Júlio II, o mecenas responsável pela encomenda dos afrescos que adornam o teto da Capela Sistina. No século 16, houve entre seus contemporâneos quem reconhecesse o semblante do papa entre as infelizes criaturas que expiavam culpas no Juízo Final, na mesma Sistina. Antes e depois disso, muitos mecenas fizeram por merecer melhor recompensa. É o caso, para ficar num exemplo próximo a nós, do ex-empresário José Mindlin, promotor de mais de duas dezenas de manifestações culturais, principalmente livros, e amigo de gente graúda no meio artístico. Foram tantas as gravuras e matrizes com que artistas agradecidos lhe presentearam que, com muitas outras adquiridas por ele ao longo de 84 anos de vida, deu para montar a exposição "Os Colecionadores - 1998", com cerca de 750 peças de 67 autores diferentes. E ainda sobrou quase outro tanto.

Entre modesto e franco, Mindlin avisa que o acervo não chega a ser propriamente uma coleção, embora inclua trabalhos dos principais nomes do país no gênero: Lasar Segall, Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, Fayga Ostrower e Maria Bonomi, entre outros. Não chega, porém, a formar um "todo coerente", como diz Mindlin, ao contrário de seu outro tesouro - a biblioteca. Aos livros, o ex-dono da Metal Leve e o maior bibliófilo do país destina duas alas de sua casa, em São Paulo, além de dois imóveis vizinhos inteiros. Suas estantes acomodam cerca de 26 mil títulos, dos quais 10 mil em edições raras, datadas desde o século 15.

Ausente da mostra "Os Colecionadores" estará, por ser estranha ao tema e ao mundo da gravura, a obra talvez mais reveladora da personalidade de Mindlin. Permanecerá em lugar nobre de uma estante na sala principal da biblioteca, guardada por anjos e santos barrocos que espreitam das paredes, ao lado de telas de Tarsila, Segall e de uma madonna peruana. De encadernação austera, ela leva na lombada o nome de Guita Kauffmann, não por acaso o nome de solteira da senhora Mindlin. Ao toque adestrado do marido, uma parte do que seria a capa desliza e deixa à mostra um engenhoso mecanismo, concebido por ele, dotado de pés basculantes e travas. Em instantes transforma-se em um descanso para pés. Foi um presente, nos anos 30, do então estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco à colega, namorada e futura esposa, queixosa de sua baixa estatura, que a deixava com os pés no ar quando se sentava à carteira.

O episódio antecipava alguns dos atributos que esse filho de imigrantes russos iria lapidar no futuro, como criatividade, espírito empreendedor, determinação e arrojo, além da obsessão por livros. Da impetuosidade, Guita tivera prova ao pisar pela primeira vez na faculdade, como caloura. Tão logo chegou, os veteranos passaram a assediá-la na tentativa de conquistar sua adesão para um dos partidos políticos da época. Testemunha da cena, Mindlin tomou a frente e lançou seu mel, dizendo-se o melhor partido que a jovem poderia encontrar. A liga combinou. Desde então, ela tem sido sua parceira incondicional, até na paixão pelos livros - a ponto de tornar-se a encadernadora oficial da casa - e pela arte. Com freqüência, foi graças a seu incentivo que ele resolveu desembolsar pequenas fortunas para ter alguma relíquia impressa na estante.

Formar uma biblioteca como a de Mindlin é obra de uma vida inteira e resultado de muito conhecimento, paciência e esforço, sem falar em dinheiro. A pedra fundamental dessa Alexandria dos trópicos foi lançada quando ele tinha 13 anos e comprou o "Discurso sobre a História Universal", de Jacques Bossuet, em edição portuguesa do século 18. Mas foi só no ano seguinte que a comichão de colecionador se apossou dele, despertada pela "História do Brasil", de Frei Vicente do Salvador, presenteada por uma tia. Sobre ela, edificou-se a maior brasiliana conhecida - mais completa até que a da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, atesta Pedro Correa do Lago, um dos principais livreiros do país.

O conjunto inclui desde manuscritos dos Sermões do Padre Vieira a edições originais de relatos das primeiras viagens de cunho científico pelo Brasil, como a de Hans Staden; das cartas de dom Manuel ao papa aos originais revistos de "Grande Sertão: Veredas e Sagarana", de Guimarães Rosa, e de dezenas de grandes obras da literatura brasileira. Mais prático do que relacionar uma a uma, dizer que faltam apenas duas obras importantes na brasiliana dá a medida de sua abrangência: "História da Província de Santa Cruz", de Pero de Magalhães, e "Cultura e Opulência do Brasil", de Antonil. Esta, em edição de 1711, de uma família francesa radicada no Rio de Janeiro e disposta a vendê-la, chegou a ser manuseada por Mindlin. Mas, por influência de um antiquário que intermediava o negócio, foi parar em outras mãos. Seus antigos donos teriam recebido US$ 3 mil pelo livro. Mindlin afirma que teria pagado dez vezes mais.

Em todo caso, ele não perde o sono pelas lacunas. Mas também não espera que uma raridade lhe caia no colo. No ano passado, informado de um colecionador uruguaio interessado em vender um lote enorme de documentos originais sobre a Província Cisplatina, foi até Montevidéu e voltou de lá carregando 96 quilos de papéis sobre o Brasil. Teve de pedir emprestado duas malas de nosso corpo diplomático - as duas que levara de casa se mostraram insuficientes. A documentação só agora terminou de ser tombada por uma professora, Cristina Antunes, braço direito de Mindlin há dez anos.

Viajante contumaz, ele organiza seus périplos segundo as conveniências da biblioteca. Em 1973, por exemplo, convidado a participar das comemorações do 25º aniversário da criação de Israel, ele introduziu no roteiro uma escala na Suíça ao descobrir a existência de um manuscrito jesuíta sobre a Bahia do século 17. Ao desembarcar com ele na bagagem em Israel, despertou a atenção de uma agente alfandegária. Intrigada, quis saber do visitante o conteúdo dos papéis e, após ouvir uma explicação minuciosa, não resistiu à tentação de perguntar: "O senhor sempre faz essas anotações quando viaja?"

Foi a primeira e última vez que Mindlin, um judeu, esteve em Israel. Não que ele seja anti-sionista. Pelo contrário, acha importantíssima a acolhida dada por Israel aos judeus perseguidos em outras partes do mundo. Mas também não concorda com a tese de subordinar a Israel aqueles que escolheram viver fora de lá. Além do que é um agnóstico assumido e rejeita os dogmas religiosos do judaísmo, embora se sinta ligado ao povo hebraico por laços culturais. Por isso, é visto com reservas pela ala mais ortodoxa da comunidade judaica no Brasil.

A biografia de Mindlin indica que ele não tem medo de cara feia. Aos 84 anos, também se dá ao direito de dizer o que pensa sem se preocupar com melindres, embora com delicadeza.

Dias atrás, por exemplo, recebeu em sua casa a visita de uma jovem editora. Logo na chegada, ela lhe entregou o exemplar número 1 do primeiro livro que publicava. Mindlin, que não a conhecia, leu a dedicatória e pediu licença para observar: não fica bem colocar o carimbo "Cortesia do editor" em livro oferecido, uma regra no Brasil. A jovem, parece, aprendeu a lição.

Títulos recentes, com cheiro de best-seller, têm escassa chance de inclusão no rol de 80 a 100 livros que, em média, Mindlin lê por ano, incluindo-se as releituras. Só o colossal "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, por exemplo, ele devorou cinco vezes, em edição original. Os clássicos, diga-se, formam outro sólido pilar de sua biblioteca, forrada com Petrarcas, Camões, Joyces, etc. Natural, portanto, que não passe um só dia, quase, sem que um pesquisador, jornalista ou editor percorra aquelas estantes em busca de material para trabalhos pessoais. Mindlin fica feliz. Como costuma dizer, ele é apenas o guardião do tesouro, e não o seu dono.

MEU APRENDIZADO DO JORNALISMO DE NEGÓCIOS COM O DOUTOR JOSÉ MINDLIN

Já se disse, a esta altura, tudo sobre José Mindlin, morto neste domingo, aos 95 anos. Todos têm um depoimento pessoal sobre a figura do empresário, que se formou advogado, começou como jornalista e, no fim das contas, sempre foi um apaixonado bibliófilo, que legou à cultura uma das maiores e melhores bibliotecas das Américas. Tantos depoimentos provam que, além de livros, José Mindlin colecionou relacionamentos e amigos.

Também convivi com o doutor Mindlin, principalmente entre os anos 70 e 90, quando ele dirigia a Metal Leve, empresa de autopeças, de que foi um dos fundadores, em 1949. Meu convívio com ele foi profissional, mas o estilo do doutor Mindlin o transformou, como no caso de tantos outros, em relação pessoal.

Estive muitas vezes no escritório amplo, mas sem qualquer luxo, da fábrica em Santo Amaro, zona sul de São Paulo. E algumas outras na casa em que Mindlin morava, numa área residencial próxima do escritório da empresa, com os livros e a mulher, dona Guita. Uma casa também ampla, de portas e janelas escuras, sem marcas especiais ou ostentações.

Meus contatos com o doutor Mindlin, nos tempos da Metal Leve, eram "agenciados" por May Rubião, sua assessora de comunicação e relações públicas, que não vejo há bastante tempo e lembro com saudade. May, como seu assessorado, era uma pioneira. Pesquisadora de formação acadêmica, ela tem presença destacada na história das relações públicas, como atividade profissional regulamentada, no Brasil. Figura imponente, cabelos sempre arrumados, roupas impecáveis, gestos educados, para o jovem carioca recém-chegado a São Paulo, May era a representação em pessoa da lendária elegância da verdadeira elite paulista.

Já se disse que a Metal Leve, como Mindlin, estava à frente de seu tempo. A empresa, fabricante de pistões e bronzinas para carros e aviões, foi, de fato, pioneira em vários aspectos. Abriu o capital antes de outras empresas nacionais e investiu em P&D quando quase ninguém no Brasil sabia o que era qualidade, inovação e gestão de recursos humanos. Além disso, puxou o trem das exportações de manufaturados e da internacionalização de empresas brasileiras, chegando a inaugurar uma subsidiária nos Estados Unidos.

Apesar de moderna na gestão, a Metal Leve não foi capaz de resistir à abertura desorganizada do mercado brasileiro, em meio ao ímpeto inicial da globalização. O controle familiar – e não só de uma família, mas de três ou quatro, nem todas com ideias convergentes sobre a maneira de tocar o negócio – era já um anacronismo do qual a empresa não conseguiu escapar. A demora em jogar a toalha deveu-se em parte – e paradoxalmente – à habilidade de Mindlin em aparar arestas e encontrar uma saída comum entre posições divergentes das famílias controladoras.

Minhas lembranças do doutor Mindlin o encaixam exatamente nesse estilo suave e vocacionado para reunir opostos. A imagem que me vem, mesmo quando o localizo na empresa, é sempre a de homem calmo e distendido, afundado numa poltrona, com um livro na mão ou sobre as pernas. Ele usa ternos escuros, folgados, às vezes um blazer, e as gravatas listradas não combinam com a camisa idem – é mais um uniforme de trabalho que revela desapego com as regras da elegância. A fala é mansa, pausada, típica de um contador de casos. Embora já nascido no Brasil, filho de ucranianos recém-aportados, traz um levíssimo, quase imperceptível, sotaque dos imigrantes judeus da Europa Oriental, talvez só captado por um neto de um deles, meu caso.

Era assim, contando histórias, retomando sem pressa episódios no tempo, que o doutor Mindlin me falava de gestão de negócios, problemas da exportação brasileira, de como executivos e operários deveriam ser motivados a perseguir os objetivos da empresa, e de investimentos em inovação de produtos e processos. O doutor Mindlin não mudava o tom suave, nem o estilo de “causeur”, ao falar do processo de abertura política, que o empresariado industrial mais moderno, ele na linha de frente, decidiu abraçar, a partir de fins dos anos 70. E a conversa nunca terminava sem alguma menção às últimas aquisições da biblioteca, com relatos num formato de história policial, sobre como conseguira adicionar a ela um novo e raro volume.

Para um jovem jornalista que tomava contato com a área de economia e, mais do que isso, com uma novidade em seus primórdios – o jornalismo de negócios – eram histórias inesquecíveis, verdadeiras aulas, ministradas por alguém que não se colocava como professor.

O doutor José Mindlin se foi, depois de uma longa, proveitosa e exemplar existência. Uma existência muitas vezes multiplicada pelo conhecimento que absorveu do exercício ininterrupto da leitura, nos livros que amou e legou às gerações.
Quer chegar aos 100 anos?

Esqueça a genética. Segundo os especialistas, viver muito depende principalmente de viver bem. A boa notícia: pode-se mudar hábitos e começar a se cuidar em qualquer idade.

Autor: Paulo Kupfer
Fonte: Época Negócios

MINDLIN: O EMPRESÁRIO ILUMINISTA, O DOADOR DE LIVROS

Nunca vou me esquecer da reunião da Fiesp em que, de repente, José Mindlin se aproximou e puxou assunto.
O tema na reunião da Fiesp era um pedido de empréstimos subsidiados, a proteção contra setores que não conseguiam competir com produtos importados. Sei lá. Alguma coisa assim. Na verdade, era um desses assuntos que não merecem ficar na memória, de tanta mesmice.

O novo, o diferente, foi a conversa de Mindlin sobre a Semana de Arte de 22. Tive uma aula. Esqueci os outros empresários e fiquei dando atenção àquela conversa afável, cheia de novidades, de Oswald e Mário de Andrade, da publicação de "A Revista" que ele acabara de fazer. Saí entusiasmada e mais surpresa fiquei quando recebi em casa uma coleção de "A Revista" que ele me mandou.
Mindlin era doce e interessante. Mindlin era iluminado e iluminista. Mindlin era diferente.

Fui algumas vezes vê-lo. Nunca perdi um minuto nessas conversas. Dele saia um fluxo, em corrente contínua, de informações sobre livros. Não havia descrente que não entrasse para a religião dele sobre livro. Guita era igual. Os dois, um par perfeito.

Anos atrás, pedi à Globonews para fazer como primeiro programa do ano uma entrevista com ele, em sua biblioteca. Naquela tarde inesquecível, eu o entrevistei junto com Paulo Marcelo Sampaio. Só que cheguei horas mais cedo. Nenhum jornalista jamais chegou tão cedo para uma entrevista. Nem saiu tão tarde. E eles me pediram para ler para eles. Eu li para ele e Guita. Às vezes tropeçava e eles, de memória, corrigiam. Li poesias de Drummond. Li vários outros trechos que eles se lembravam de cor.

Falamos da paixão por livros que embalou minha infância, me socorreu na adolescência, me acompanha vida afora. Paixão que fez Mindlin gastar um dinheiro incontável juntando livros que doou para o Brasil.

Lembro de quando ele ganhou o "Faz Diferença" do Globo. Há uma escada para subir ao palco do Copacabana Palace. Eu pedi às meninas do cerimonial que me dessem a honra. Desci do palco com Ancelmo - nós dois fizemos a apresentação do prêmio - e o amparamos na subida. E ele não pesava mais do que a mão de uma criança. Firme ainda aos 90 anos.

No dia da entrevista em sua casa, Guita me contou que um dia houve uma tempestade em São Paulo, ela estava sozinha em casa, e ficou preocupada: que livro salvaria se a enchente entrasse na casa?

- Que livro salvaria? perguntei

- Os poemas de Petrarca.

Manuseei o livro favorito de Guita com temor reverencial. E Mindlin abriu o livro e me mostrou que alguns poemas tinham sido censurados pela Inquisição. Os censores medievais passaram uma tinta em cima. O tempo apagou a tinta e fez reaparecerem os poemas censurados. Me contou que, certa vez, tinha ido a Praga e lá se encontrou com um professor que tinha acabado de sair da prisão decretada pelo governo comunista. O professor estava deprimido, achando que a opressão soviética nunca acabaria. E ele consolou o professor contando a história da vitória de Petrarca sobre a censura. O professor triste era Vaclav Havel, que depois governou a livre República Tcheca.

Eu brinquei:

-Você me contou uma história com dois finais felizes.

O consolo no momento em que o Brasil perde o gigante dos livros é saber que ele se encontrará com sua Guita e juntos falarão os poemas de Petrarca, ou lembrarão as histórias de 22, ou pensarão juntos em como tornar o Brasil, um dia, um país de leitores.

Autora: Míriam Leitão

José Ephim Mindlin (São Paulo, 8 de setembro de 1914 — São Paulo, 28 de fevereiro de 2010) foi um advogado, empresário e bibliófilo brasileiro.

(Fonte: www.velhosamigos.com.br)