quinta-feira, 18 de março de 2010

A raposa e as uvas

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De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do areal do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista. Olhou e viu, além de tudo, à altura de um salto, cachos de uvas maravilhosas, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, tentou de novo, não conseguiu.

Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo o que tinha, não conseguiu nem
roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre os dentes, com raiva: “Ah, também não tem importância. Estão muito verdes”. E foi descendo com muito cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular e havia o risco de despencar, esticou a pata e... conseguiu! Com avidez colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

Moral: a frustração é uma forma de julgamento tão boa como qualquer outra.

(Millôr Fernandes)