quarta-feira, 24 de março de 2010

Lula deixa claro, de novo, que odeia a democracia.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acha que todo o paparico que a “mídia”, na média (ooopsss!), lhe dedica ainda é pouco. Ele quer mais. Ele é um insaciável. Como diria Camões, “é o hidrópico doente” — o “beber lhe assanha a sede”. E não adiante: ele e sua turma toleram, mas odeiam, a democracia. Não conseguem entender a essência do sistema porque, aplicado na sua essencialidade, sabe que teria sido apeado do poder. Sua sobrevivência política e seu triunfo não se deveram às virtudes do regime democrático, de que a imprensa faz parte, mas ao estoque de práticas viciosas: acordo, compadrio, leniência…

O homem participou hoje de uma cerimônia de uma dos 9.317 “programas” revolucionários do seu governo, o tal Territórios da Cidadania. E falou:

“Eu levanto de manhã, vejo manchetes e fico triste. Acabei de inaugurar 2.000 casas, não sai uma nota. Caiu um barraco, tem manchete. É uma predileção pela desgraça. É triste quando a pessoa tem dois olhos bons e não quer enxergar. Quando a pessoa tem direito de escrever a coisa certa e escreve a coisa errada. É triste, melancólico, para um governo republicano como o nosso”.

Se um político considerado “conservador” ou “de direita” dissesse uma miséria dessas, toda a Fefelech da USP e sua congênere da Unicamp sairiam às ruas com os seios nus (Jesus!!!) em sinal de protesto. Já os rapazes, não raro muito dramáticos, ateariam fogo às vestes. Como é Lula, tudo bem! Não é preciso submeter a sua fala a uma análise profunda para notar o desdém com que ele trata “um barraco que cai” — a seu ver, isso não deveria ser notícia.

Lula tem saudades de ditadura militar. A sua mentalidade se formou naquele tempo. Não é que ele fosse contra ditadores — ele era contrário “àqueles” ditadores. Seu modelo de imprensa são os documentários de Jean Manzon que antecediam os filmes nos cinemas do Brasil. Os mais jovens pesquisem a respeito. Ficávamos sabendo de todas as realizações do governo, com as autoridades sempre em poses no meio do caminho entre a alegria e a austeridade. Não havia espaço para “barracos que caem”.

A frase “é triste quando a pessoa tem olhos bons e não quer enxergar” revela, simbolicamente, para quem Lula governa de fato: para os cegos — trata-se de uma figuração, como figurada é a sua linguagem. Para Lula, o uso correto dos “olhos bons” leva necessariamente o vivente a apoiá-lo e a aplaudi-lo.

Quem não concorda com ele, pois, abusa de uma graça, de um presente, de uma benevolência do destino. Não é gente boa. Pessoas assim, nos regimes admirados pelo PT — Cuba, Irã, China… — vão em cana porque atrapalham os cidadãos de boa-fé, que, obviamente, concordam com o governo.

Lula também acha triste “quando a pessoa tem o direito de escrever a coisa certa e escreve a coisa errada”. Notem que, para este monstro das liberdades públicas, não existe o “direito de escrever”, mas o “direito de escrever A COISA CERTA”. E se pode entender a razão do apoio incondicional a Cuba e ao Irã. Ora, por lá, todos têm “o direito de escrever a coisa certa”. Aliás, caras e caros, NENHUMA DITADURA OU REGIME DE FORÇA IMPÕE CONDIÇÕES PARA CONCORDAR COM O GOVERNO, NÃO É MESMO? E todos os regimes, nesse particular, se igualam: é permitido elogiar. É o exercício da discordância que diferencia os países para o bem e para o mal. Um regime de liberdades é testado justamente quando se exerce “o direito” de escrever a “coisa errada”. Alguém sempre dirá: “Está errado!”. E o mundo avança.

Lula relembrou o ano de 2003, quando foi criticado por ter colocado o boné do MST:
“A partir daquele instante, eu passei a colocar qualquer chapéu na cabeça. Nunca mais me colocaram. Eles vêm pra cima, se você se acovarda, eles ganham. Você não tem por que temer. Não temos vergonha do que fizemos nesse país. Nós todos vamos ser medidos pelo que nós fizemos, a gente precisa ficar prestando contas todos os dias.”

As críticas, no caso do boné de MST, se deveram certamente ao fato de que se trata de um movimento reiteradamente criminoso. E é um absurdo que a mais alta autoridade da República faça propaganda do crime. Ocorre que Lula não está se referindo aos sem-terra, mas ao mensalão. A Edith Piaff da burguesia do capital alheio não se arrepende de nada. Ainda que, em vez das 2 mil casas, ele tivesse entregado 1 milhão delas, conforme a promessa que não vai cumprir, não teria licença moral para meter na cabeça o boné do crime e para tentar impor ao país a canalhice do mensalão como coisa corriqueira.

E como Lula é Lula, há o investimento na mitologia pessoal:
“Na visão de algumas pessoas, o correto era que o país estivesse numa desgraça, que estivesse dando tudo errado para eles dizerem: ‘Tá vendo? Nós falamos: o menino não é letrado. O menino nasceu para ser torneiro mecânico’. A partir daí já é abuso”.

Trata-se de uma cretinice mentirosa. Ao contrário: a origem operária de Lula criou uma carapaça que o protegeu do rigoroso escrutínio a que a imprensa, por exemplo, submete os demais políticos. Exceção feita a um ou outro cronista e/ou analista político, ninguém se refere à oceânica ignorância de Lula nos mais variados assuntos ou à sua aversão à leitura e à alta cultura. Sim, eu sou uma das exceções. Eu não tenho nenhum receio em apontar a sua permanente apologia da ignorância. O sujeito infla as suas “conquistas na educação” para, em seguida, fazer pouco caso da formação universitária. O seu próprio partido, note-se, é, antes de mais nada, uma “construção dos intelectuais”, uma manifestação do seu desejo de submeter o país a um ente que iria tomar as rédeas da história. O PT nasceu primeiro, como idéia, na Fefelech… Só depois vieram os sindicatos. Tomaram conta e deram um pé no traseiro da “intelectualha” - com “lh” mesmo, se é que me entendem…

E achei curioso Lula referir-se a si mesmo como “menino”. Menino? Quando surgiu no debate público, já era bem peludão… Nunca teve aquele aspecto de Saint-Just, o carniceiro de cabelos longos e cara lavada, o enfant-terrible da revolução, que marcha para a guilhotina sem jamais recuar. Sua escola moral é o sindicalismo que se dá bem, com sua ética bem peculiar, magnificamente retratada no filme On The Waterfront, conhecido no Brasil por um título bem mais emblemático.

Pronto! Escrevi um texto de gente que tem dois olhos (míopes, é verdade), mas se nega a enxergar. Escrevi um texto de quem tem “liberdade para escrever a coisa certa” (elogiar Lula), mas prefere fazer a coisa errada, criticando-o. Trata-se de um abuso que, um dia , será coibido pela “democracia popular”.

Nesse dia, então, todos exercerão o direito de elogiar Lula — nem que seja em memória do “Estimado Líder”.

( Reinaldo Azevedo) - veja.abril.com.br/blog/reinaldo)