terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Máquina de Escrever

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Mãe, se eu morrer de um repentino mal, 
vende meus bens a bem dos meus credores: 
a fantasia de festivas cores 
que usei no derradeiro Carnaval.


Vende esse rádio que ganhei de prêmio 

por um concurso num jornal do povo, 
e aquele terno novo, ou quase novo, 
com poucas manchas de café boêmio.



Vende também meus óculos antigos 

que me davam uns ares inocentes. 
Já não precisarei de duas lentes 
para enxergar os corações amigos.



Vende , além das gravatas, do chapéu, 

meus sapatos rangentes. Sem ruído 
é mais provável que eu alcance o Céu 
e logre penetrar despercebido.



Vende meu dente de ouro. O Paraíso 

requer apenas a expressão do olhar. 
Já não precisarei do meu sorriso 
para um outro sorriso me enganar.



Vende meus olhos a um brechó qualquer 

que os guarde numa loja poeirenta, 
reluzindo na sombra pardacenta, 
refletindo um semblante de mulher.



Vende tudo, ao findar a minha sorte, 

libertando minha alma pensativa 
para ninguém chorar a minha morte 
sem realmente desejar que eu viva.



Pode vender meu próprio leito e roupa 

para pagar àqueles a quem devo. 
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa 
esta caduca máquina em que escrevo.



Mas poupa a minha amiga de horas mortas, 

de teclas bambas,tique-taque incerto. 
De ano em ano, manda-a ao conserto 
e unta de azeite as suas peças tortas.



Vende todas as grandes pequenezas 

que eram meu humílimo tesouro, 
mas não! ainda que ofereçam ouro, 
não venda o meu filtro de tristezas!



Quanta vez esta máquina afugenta 

meus fantasmas da dúvida e do mal, 
ela que é minha rude ferramenta, 
o meu doce instrumento musical.



Bate rangendo, numa espécie de asma, 

mas cada vez que bate é um grão de trigo. 
Quando eu morrer, quem a levar consigo 
há de levar consigo o meu fantasma.



Pois será para ela uma tortura 

sentir nas bambas teclas solitárias 
um bando de dez unhas usurárias 
a datilografar uma fatura.



Deixa-a morrer também quando eu morrer; 

deixa-a calar numa quietude extrema, 
à espera do meu último poema 
que as palavras não dão para fazer.



Conserva-a, minha mãe, no velho lar, 

conservando os meus íntimos instantes, 
e, nas noites de lua, não te espantes 
quando as teclas baterem devagar.


(Giuseppe Ghiaroni)
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