sábado, 14 de janeiro de 2012

Dois sargentos querem o amargo caviar do exílio.

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A imprensa vem, desde há muito, dando novos significados a palavras antigas. Por exemplo, genocídio. Houve quem falasse em genocídio por ocasião do assassinato de comunistas no Chile. Assassinato tudo bem. Mas entendo genocídio como extermínio de uma etnia. Não sabia que os comunistas constituíam uma raça.

Da mesma forma, os nordestinos. Mal você diz algo contra as práticas políticas dos coronéis lá do Agreste, não falta quem fale em racismo. Como se nordestino fosse raça. Ainda hoje, o líder do PT no Senado, Humberto Costa, de Pernambuco - ao defender seu conterrâneo Fernando Bezerra Coelho, ministro da Integração Nacional e atolado até o pescoço em denúncias de nepotismo e favorecimento político de seu Estado – vociferava:

- Vossa excelência está sendo vítima pelo fato de ser nordestino. Acho difícil que se tivesse havido liberação até maior para Estados como São Paulo tivesse essa celeuma. Isso só acontece quando se trata do Nordeste.

Como se políticos do Rio, São Paulo ou de qualquer outro Estado não tenham sido denunciados pela imprensa por suas mazelas. O mundo está cheio de gentes que se dizem discriminadas o vítimas de preconceitos para passar bem. Os coitadinhos dos negros se dizem discriminados por serem negros. Neste país, onde jamais tiveram restrições legais para entrar em um bar ou em uma universidade, exigem cotas no vestibular. Nota de negro vale mais que a de um branco.

Escrevia-me há pouco um leitor, o Sidnei Júnior:

- Apesar de, freqüentemente, as palavras discriminação e preconceito serem utilizadas como sinônimos, é preciso observar que, em essência, seus significados são distintos. O fato de uma pessoa discriminar algo não significa que ela seja necessariamente preconceituosa, e vice-versa.

De acordo, Sidnei. Costumo afirmar que preconceito é o que alimentamos pelo abominável homem das neves. Por que abominável, se jamais o vimos? Preconceitos, não os alimento. Tenho, isto sim, pós-conceitos. Exceto best-sellers, não desgosto de nada que não conheço. Mas best-seller, por definição, é obra concebida ao gosto do populacho. Então já sei do que se trata.

- Discriminar é, pura e simplesmente, o ato de escolher, discernir e, então, optar por aquilo que é conveniente no momento. A toda hora o ser humano é obrigado a fazer escolhas (econômicas, familiares, amorosas) e, ao fazê-lo, precisa discriminar tantas outras. Sendo assim, discriminar é, antes de tudo, um exercício democrático, um direito inalienável e todo cidadão.

Assino embaixo. Estamos discriminando o tempo todo. Eu discrimino, por exemplo, chatos. Chato não existe em meu entorno. Como dizia Goethe, em um século que não poupa nada nem ninguém, vou poupar pelo menos a mim mesmo.

- Em si – continua Sidnei - discriminação e preconceito não são, obrigatoriamente, faltas capitais; pelo contrário, são direitos próprios de qualquer cultura. Sendo assim, cabe a cada um de nós e às instituições responsáveis saber até onde é possível considerá-los como valores bons a sociedade. O problema começa quando a discriminação ou o preconceito perdem o senso das proporções e dos respeitos e descambam para os complexos, tanto de superioridade quanto de inferioridade. É aí, infelizmente, que começam as agressões, as ofensas morais, as violações do direito do cidadão, enfim, atitudes desproporcionais que servem apenas para alimentar o ódio, o rancor de um com o outro, ou, em sentido mais atual, de uma raça com a outra.

De minha parte, diria que, se discriminação é atitude normal – todos discriminamos – preconceito não é postura inteligente. Pode não ser crime, mas tampouco é direito. Quanto ao complexo de superioridade, é discutível. Não creio estar alimentando nenhum complexo quando me sinto superior a um bugre que enterra vivo seus filhos. Ou a um negro que prefere entrar na universidade pela porta dos fundos. Ou a um crente que entrega seus últimos centavos a um pastor vigarista. Ou mesmo a um catolicão que se ajoelha ante um deus que não existe.

Há culturas superiores e inferiores. Não se pode igualar uma Alemanha que deu um Nietzsche a uma África que produz um Idi Amin Dada. Há homens superiores e inferiores. Ninguém pretende comparar um Mozart a um Muamar Kadafi, ou mesmo afirmar que ambos merecem igual respeito. Há pessoas neste mundo que não merecem respeito algum.

Há muita gente querendo passar bem alegando discriminação, dizia. Já nem falo do astrólogo aquele que pretende ter-se refugiado na Virgínia por ameaças a sua vida, como se astrólogo no Brasil corresse algum risco de vida. Muito menos me refiro àquele outro maluco do Mídiasemmáscara, que não consegue escrever um artigo sem condenar o homossexualismo. Diz-se perseguido pelos homossexuais e estaria exilado em lugar incerto e não sabido. Mas o melhor vem agora.

Dois sargentos do Exército nacional, que se declaram homossexuais recorreram à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para obter segurança internacional. Dizem-se perseguidos pelos heteros. A intenção é sair do Brasil e garantir “uma vida normal”, de acordo com um deles. “Temos visto cada vez mais casos de agressões nas grandes cidades, e, querendo ou não, somos o casal gay mais visado do país, por sermos militares e termos assumido nossa relação. Não agüentamos conviver com tantas ameaças. Ficamos em casa, não podemos sair. Só queremos garantir uma vida tranquila, como qualquer pessoa tem direito”.

Sem falar que nenhuma ameaça é definida, com nome do autor e natureza da ameaça, só o que faltava um soldado sentir medo de ameaças. Exército é uma máquina de matar. Os recrutas não são treinados para passeatas em datas cívicas, mas para matar se necessário for. Como o inimigo não gosta de morrer, é natural que pretenda matar quem o quer matar. Imaginemos os dois sargentos em uma hipotética guerra. “Que horror, o inimigo quer matar-me. Quero asilo no exterior”.

O casal diz não ter preferência por nenhuma nação em especial para residir. É de supor-se que não tenham objeção alguma a Paris, Londres ou Berlim. Os dois procuram um lugar seguro, onde a sua relação afetiva seja aceita. Como se neste Brasil, onde milhões de gays desfilam festivamente em passeatas gigantescas nas capitais do país, alguém não aceitasse relações homossexuais.

No fundo, os dois sargentos querem vida mansa no exterior. O amargo caviar do exílio, tão ao gosto dos comunistas.





(Janer Cristaldo)
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