segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

REBELDES SEM CALÇA

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Nos anos 1950 eu estava morando no Chelsea, em New York, um hotel tradicionalmente freqüentado por artistas, hippies e putas. Lembro-me que a primeira compra que eu fiz foi uma calça Lee.

Foi na rua 14, cheia de lojas onde se podia comprar muito mais barato todo tipo de mercadoria, inclusive roupas, e para a qual eu podia me deslocar facilmente do meu hotel, que ficava na rua 23.

O sujeito que me atendeu, um homem gordo e enorme, que fazia um interessante contraste comigo, me olhou, e resmungou, "you need an extra small size, I`ll see if I can find one".

Ele demorou um tempo enorme e voltou com uma Lee legítima, que caiu em mim como uma luva. Hoje eu uso Levi´s. 30 por 30. Compro e às vezes visto na hora. Não querendo contar vantagem (mas contando) eu uso o mesmo modelo de calça jeans há cerca de cinqüenta anos.

Nos anos 1950 as calças denim ou jeans estavam começando a ficar populares entre os jovens, uma espécie de símbolo da rebeldia da garotada. No cinema, o filme emblemático dos jovens foi Rebel without a cause, com o James Dean usando jeans.

O jeans, com seu significado de desafio à autoridade, fez com que muitas escolas proibissem os estudantes de usá-las.

Por ser um tecido barato que dificilmente rasgava, o jeans foi usado inicialmente por marinheiros, escravos, trabalhadores do campo e pelos mineiros do gold rush, ainda no século 19; pelos cowboys, já nos anos 1930; pelos soldados durante suas folgas nos anos 1940 e pelos hippies nos anos 1960. Acabou se tornando um item da moda nos anos 1980, com famosos designers fazendo suas criações nesse tecido. Depois de uma curta "recessão", o jeans, no século XXI voltou com força total, em suas várias formas e texturas, stonewashed, sandblasted, shabby, rotten or dirty look etc.

Uma informação enciclopédica: Qual a origem desses termos, jeans e denim? Jeans é uma corruptela de Gênova, pois os marinheiros genoveses usavam esse tipo de tecido. E denim vem de uma sarja originária de Nimes, na França, ou seja, "denime" (o S é mudo na pronuncia francesa desse termo.)

Mas voltando à minha calça jeans.

Em 1912 o americano Henry David Lee inaugurou sua primeira fábrica na cidade de New York, começando a produzir macacão, jaquetas e calças jeans. Na década de 1960 a Lee abriu inúmeras fábricas pelos Estados Unidos, crescendo num ritmo acelerado. Em 1979 foi veiculada a campanha publicitária com o slogan "Lee Fits America". Em 1981 a empresa fabricou 502 milhões de unidades de roupas, além da calça com cinco bolsos chamada de Lee "Genuine Jeans" ter sido aceita em todo o país.

Ou seja, a Lee dominava o mercado.

Durante algum tempo, no Brasil não se dizia "calça jeans", dizia-se "calça Lee".

O sonho de todo adolescente, de todo jovem hippy e contestador era possuir uma legítima calça Lee americana. Fazia-se de tudo para consegui-la, uma vez que aqui no Brasil ela não era vendida. Eram rebeldes sem calça. (Desculpem o trocadilho com o Rebel without a cause).

Com o tempo outras marcas foram surgindo e o nome "Lee", com todo o seu encanto, foi substituído por "jeans". Um slogan publicitário muito conhecido dizia 'LIBERDADE É UMA CALÇA JEANS DESBOTADA"

Atualmente estima-se o consumo mundial desse tecido acima de 3 bilhões de metros lineares por ano. Sendo os principais consumidores os Estados Unidos, a Europa e o Japão, representando juntos mais de 65% do consumo mundial.

O Brasil é um dos principais produtores desse tipo de tecido no mundo, com uma capacidade instalada de produção acima de 600 milhões de metros lineares por ano.

Ou seja, comprar uma calça jeans tornou-se uma coisa fácil e corriqueira.

Outros tecidos mais antigos como a seda e o linho não foram "desbancados" pelo jeans. Não falo do algodão, que também tem sua origem milenar, porque ele está intimamente ligado ao jeans.

Permitam-me que relate uma pequena história da seda. Segundo Confúcio, surgiu no ano 2640 antes de Cristo, quando a princesa chinesa Xi Ling Shi deixou cair um casulo com o verme da seda na sua xícara de chá. A partir desse histórico momento os chineses descobriram o ciclo do verme da seda e durante cerca de três mil anos tiveram o monopólio do tecido. (Mais uma descoberta acidental, como a da penicilina, o microscópio, etc.)

No ano 552 o imperador Justiniano enviou dois monges em uma missão secreta à Ásia e eles voltaram para Bizâncio com dois ovos com vermes da seda escondidos na bagagem. Segundo dizem, esse é o mais antigo exemplo de espionagem industrial.

Logo a sericultura se expandiu pela Ásia e pela Grécia.

Quanto ao linho, ele era cultivado no Egito desde 2500 anos a.C. e o Livro de Moisés refere-se à perda de uma colheita de linho como uma "praga" ou desgraça, tal a sua importância na vida das populações. O linho vem também mencionado no Antigo Testamento. As cortinas e o Véu do Tabernáculo e as Vestes de Arão, como oficiante, eram em "linho fino retorcido". A túnica de Cristo era de linho sem costuras.

Muito bem. Esses tecidos continuarão existindo até o mundo acabar (não sabemos quando, não obstante alguns pessimistas digam que esse dia não está assim muito distante).

Mas uma coisa é certa. O jeans veio para ficar.

E não resisto a um surto de jactância, afirmando que provavelmente fui dos primeiros a usar uma calça desse tecido em nosso país.

E continuo usando. Levi`s 30 por 30.




(Publicado originalmente por Rubem Fonseca em 13/11/2007)
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