sexta-feira, 11 de junho de 2010

No passado, terrorismo; No presente, dossiês

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Quem é Luiz Lanzetta? Só não devemos associá-lo à figura do mordomo porque algumas profissões supõem certo physique du rôle, não?, e o dito-cujo está mais para um lenhador dos antigos livros infantis — aquele, por exemplo, que aprisionou Joãozinho e Maria e lhes pedia para mostrar o dedinho por baixo da porta — do que propriamente para um serviçal cerimonioso, a quem confiaríamos cartola, sobretudo e bengala. Lanzetta despediu-se da pré-campanha da petista Dilma Rousseff. Embora inocente como as flores, foi “caído fora” — e, como de hábito nesses casos, dando o assunto por encerrado, o caso por resolvido, e o dossiê pelo não-dossiê.

Falo sobre ele daqui a pouco. A figura que interessa agora é a de Fernando Pimentel, um dos coordenadores da campanha de Dilma — de fato, ele é o seu braço pessoal no grupo. Vamos ver.

Esse negócio de fabricar dossiês, recorrendo à mão-de-obra dos serviços de informação do estado — os atuais e os pregressos —, é uma agressão à democracia e ao estado de direito. A prática nada tem a ver com esclarecimento ou tentativa de fazer justiça. Ao contrário: se a informação desses dossiês é verdadeira e se destina à chantagem, usa-se, então, a verdade como instrumento criminoso; se é falsa e se destina à intimidação, a delinqüência busca produzir mais delinqüência. Em qualquer dos casos, o crime agradece.

No estranho organograma petista — ou sei lá que nome tinha aquilo —, a Lanza contratava a mão-de-obra da pré-campanha. Isso quer dizer que, pela empresa do notório jornalista, passava uma grana preta. E, para isso, é preciso contar com a total confiança do chefe. E o chefe do demissionário Lanzetta era Fernando Pimentel, que emitiu uma nota dizendo que não sabia de nada etc. e tal. Como de hábito, no petismo, existem os crimes, mas jamais os criminosos.

A minha leitura sobre o petismo e os petistas, como vocês sabem, é bem menos otimista — talvez a palavra seja “generosa” — do que a de muitos colegas. E exponho uma vez mais os motivos, agora à luz do dossiê. Muitas pessoas que aderiram a grupos terroristas durante o regime militar — e Pimentel foi uma delas; pertenceu à VAR-Palmares, mesma organização de que Dilma fez parte — justificam seu ato ainda hoje afirmando que aquela era a única saída e que lutavam por democracia. Trata-se de duas mentiras, obviamente — a que a petista freqüentemente recorre, diga-se.

Vivo apontando aqui essas falácias e digo que elas têm importância ainda hoje. Por quê? Porque se trata de admitir que, sob certas circunstâncias, o vale-tudo é aceitável e é parte do jogo. Quem aderiu ao terrorismo não estava lutando em favor da democracia coisa nenhuma, mas de uma ditadura comunista. Se não o admite, está procurando esconder o próprio crime nos crimes alheios e demonstra justamente disposição para o vale-tudo — eximindo-se, ademais, da responsabilidade moral por isso.

Em certo sentido, o dossiê está para a democracia como o terrorismo estava para a ditadura. No regime militar, procurava-se desconstruir o inimigo por meio da ação violenta, que supostamente respondia à violência do estado; no regime democrático, tenta-se desconstruir o adversário por meio da manipulação viciosa dos instrumentos do sistema — e, nessas horas, a imprensa sempre é convocada a atuar como inocente útil dos que querem jogar no lixo o estado de direito.

Sim, estou querendo dizer isto mesmo: a prática dos dossiês, da espionagem e das escutas telefônicas ilegais é o “terrorismo possível” no regime democrático.

Esta é, desde sempre, a minha principal reserva ao petismo e aos petistas: eles vão com a democracia até onde consideram que ela não atrapalha. Afinal, no seu horizonte utópico-escatológico, o regime não é um ponto de chegada na política, mas de partida. Os instrumentos são outros, mas o espírito terrorista é o mesmo.

Lanzetta está fora? Quem está ligando? O fato é que Pimentel continua dentro. E ele era o chefe de Lanzetta.


(Reinaldo Azevedo - Fonte: Veja Online)