sexta-feira, 18 de junho de 2010

O preço da metamorfose

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Na campanha presidencial de 1989, quando o mandato de José Sarney agonizava, o candidato do PT fez um duríssimo balanço do governo em seu crepúsculo. Depois de declarar-se inimigo político e ideológico do adversário que no ano anterior qualificara de “o maior ladrão da Nova República”, acelerou a discurseira que teria ultrapassado amplamente o ponto de não-retorno se Lula soubesse o que é isso.

O cortejo de afrontas que ocupa a primeira parte do vídeo de 88 segundos colide estrondosamente com a procissão de agrados que aparece na segunda. Não existe um ex-presidente melhor que Sarney, inverte a direção a metamorfose ambulante. “Ele não conversa com a imprensa, dá conselhos”, bajula. Desde 1989, o agora presidente do Senado fez o que pôde para piorar a biografia e engrossar o prontuário. Por que o Grande Satã foi transformado em amigo de infância?

“Que dívida é essa que o Lula tem com o Sarney?”, quer saber o deputado Domingos Dutra, do PT maranhense, desde sexta-feira em greve de fome no plenário da Câmara. Sem chances de êxito, Dutra protesta contra a ordem, baixada por Lula e executada pelo comando do partido, que reduziu os companheiros da capitania a cabos eleitorais de Roseana Sarney, candidata a permanecer mais quatro anos no cargo que usurpou.

Se houver alguma dívida a pagar, o vídeo permite deduzir que é de bom tamanho. Mas é provável que os parceiros estejam quites: nenhum dos dois tem motivos para queixar-se do acerto celebrado em 2003. Lula garante a Sarney o direito de ir e vir. Sarney garante que Lula faça do Senado o que quiser. E ambos cuidam de erradicar focos de descontentamento nos domínios da Famiglia.

Que dívida tinha o companheiro Dutra com Lula para demorar tanto tempo a enxergar no chefe o mais valioso cúmplice de Sarney e, sobretudo, o principal comparsa de si próprio? Lula só pensa em Lula, grita o vídeo. Para não repassar o bastão de mando, topa qualquer negócio. A venda do PT do Maranhão é nada para quem vendeu a própria alma.





(Augusto Nunes - Veja - Direto ao Ponto)