terça-feira, 1 de junho de 2010

Vão todos para o inferno

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De acordo com a doutrina católica, Deus perdoa os arrependidos. No PT, o Misericordioso não encontrará a quem perdoar. Ninguém se arrepende de nada. Ao contrário, ninguém admite sequer que tenha feito algo de errado. É compreensível. A santa bíblia petista tem fortes influências do catolicismo de esquerda, mas também foi redigida pelos profetas da dialética, tais como Heráclito, Hegel e Marx. A parcela cristã é dogmática. Já a dialética permite uma certa “licença poética” a seus exegetas. Trata-se de uma subversão da lógica formal. De acordo com ela, o que é pode não ser, o que não é pode vir a ser e tudo o que existe pode deixar de existir. Os petistas se proclamam cristãos, mas aprenderam a pensar pela cartilha da dialética. Enganam-se a si próprios, acreditam enganar o próximo e pretendem enganar a Deus. O problema é que o Todo-Poderoso, segundo as escrituras, pode ser tudo menos um dialético. Ele é onisciente, esqueceram? E, se Ele sabe tudo, não se vai deixar confundir por essa enganosa lógica de botequim. No Juízo Final não há espaço para a prática do contraditório. Os petistas irão todos diretamente para o Inferno. O Demo, ele, sim, é chegado a relativismos e tertúlias de cunho filosófico…

Enquanto o Apocalipse não vem, aqui, na Terra, os petistas continuam a praticar a sua lógica sinuosa. Bicho-papão, boitatá e mensalão, tudo isso é fruto da imaginação popular. Não houve nenhum crime nem sequer transgressão ética. Toda essa confusão surgiu porque o estabanado tesoureiro do partido, sem consultar ninguém, resolveu quitar compromissos eleitorais com dinheiro, segundo ele, “não contabilizado”. Para tanto se valeu da ambição de um publicitário que, no afã de se enturmar com o PT, se dispôs a levantar empréstimos na rede bancária e repassá-los ao partido. Nessa história todo mundo é santo. Se há algum culpado, é o tal do tesoureiro. E, mesmo assim, não se lhe atribui nenhum crime. A bem do partido e de sua imagem, o Sr. Delúbio será desligado dos quadros partidários sob a singela acusação de “gestão temerária”.

Ao menos Delúbio estaria disposto a penitenciar-se? Também não. “Não é hora de falar, e sim de esperar o tempo passar e aí ficará provado que eu não errei”, disse ao Estado.

Pois bem, caros leitores, esqueçam tudo o que leram e ouviram nos últimos cinco meses. Toda a cúpula do PT caiu, vários diretores de estatais foram defenestrados, um ministro teve de deixar o governo, quatro deputados renunciaram, outros 14 poderão perder o mandato, três CPIs estão instaladas, a credibilidade do governo despencou nas pesquisas e tudo isso não passou de um gigantesco mal-entendido. Culpa de um fantasioso e mal-intencionado deputado – já merecidamente cassado – que inventou a história, culpa da oposição inescrupulosa que dela se aproveitou e culpa da mídia, inconsequente e irresponsável, que tratou de propagá-la, intranquilizando as famílias brasileiras. Segundo vaticinou Delúbio, “as denúncias serão esclarecidas, esquecidas e acabarão virando piada de salão”.

Sendo assim, todos devemos desculpas ao PT e ao governo Lula por termos ousado duvidar de sua integridade e de seus altos valores morais. Mais que isso, devemos sair às ruas para exigir a volta de José Dirceu ao Ministério. E, não esqueçamos, devemos todos votar em Lula no ano que vem, como forma de desagravá-lo. Ele, na sua grandeza, haverá de nos perdoar.

De minha parte, estou morrendo de vergonha por ter criticado o governo e o PT neste Espaço Aberto. Deixei-me levar pelas emoções e não refleti sobre quão injusto fui com um partido que tem “25 anos de patrimônio ético” a zelar.

“Patrimônio ético de 25 anos” – essa expressão me provoca arrepios. Há um precedente histórico. A Igreja, nos séculos 15 e 16, período anterior à Reforma, como herdeira das virtudes de Cristo e de todos os santos, declarou-se possuidora de um patrimônio de virtudes grande o suficiente para vender indulgências e remissão dos pecados aos mortais. Qualquer um, por mais pecador que fosse, poderia recorrer à Santa Sé e adquirir o perdão total ou a redução de sua pena no Purgatório.

Sua Santidade Lula I, em nome do passado de virtudes do PT, se vê em condições de vender e conceder indulgências aos militantes que se desviaram. Em cerimônia no Planalto, abençoou e perdoou todos os cassáveis do partido, dizendo que eles não cometeram crimes, apenas “erros”. E lhes garantiu legenda nas próximas eleições acaso renunciassem a seus mandatos.

Outra não foi a atitude de Sua Eminência o cardeal Tarso Genro, que decretou que o famigerado “caixa 2” praticado pelo partido não é crime, apenas “problema tributário”.

É o caso de perguntar: que patrimônio ético é esse que, em seu nome, permite ao PT a remissão de todos os seus atuais pecados? Ao que me recorde, o comportamento dos petistas, desde 1980, não foi exatamente virtuoso, mas radical e inconsequente. Através dos anos, os bravos militantes levantaram suspeitas sobre tudo e todos. Seus votos no Parlamento demonstraram cabalmente sua insana fúria oposicionista. No colégio eleitoral, em 1984, recusaram-se a votar em Tancredo Neves, mesmo sabendo que o que estava em jogo era nada menos que a redemocratização do Brasil. Quatro anos depois, negaram-se a assinar a Constituição, que representava indiscutível avanço democrático. No passar do tempo, votaram contra tudo, do Plano Real à Lei de Responsabilidade Fiscal, pouco importando se aquilo era bom ou mau para a Nação. No poder, em prefeituras, suas gestões não foram um modelo de transparência e virtude, haja vista o caso de Santo André. Na verdade, esse tal patrimônio ético não passa de lenda.

Se é verdade que o Santíssimo perdoa os arrependidos, no caso do PT Ele nada tem a fazer. Primeiro, porque os petistas jamais se arrependem. Segundo, porque, auto-suficientes, eles não precisam de Deus para perdoar-se a si próprios. Que queimem, então, no Inferno!


(João Mellão Neto - Artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo - 10/2005)