quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Só para refrescar a memória: leiam trechos sobre corrupção no governo Lula em livro de Eduardo Graeff

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A capa da versão em inglês do livro, à venda 
no site da Amazon.com


Amigos, tal como escrevi e repito, o fato de sinceramente desejar que o ex-presidente Lula se recupe plenamente do câncer de que se está tratando não me fez mudar um milímetro como vejo o político e o ex-presidente.

Assim sendo, republico abaixo alguns trechos de Corrupção de Sarney a Lula, livro lançado em agosto por Eduardo Graeff, mestre em ciência política pela USP e ex-secretário geral da Presidência da República durante o governo de FHC (1994-2002), no qual destrincha os casos de roubalheira que assolaram os mandatos dos ex-presidentes José Sarney (1985) e Lula (2002-2010).

Sim, Graeff é tucano, e titular do blog eAgora. Mas, como bem observou o Reinaldo de Azevedo, ser filiado ao PSDB não o impede de pensar.

Neste post, estão escândalos envolvendo o governo Lula

A nova edição é uma atualizaçao de Livro Branco: Combate à Corrupção e Denuncismo na Era FHC, que Graeff publicou em 2002. O autor conta que começou a escrevê-lo “porque não aguentava mais assistir passivamente a oposição, PT à frente, bater o carimbo da corrupção no governo do qual eu fazia parte, sabendo o quanto isso era imerecido”.

A íntegra do texto está disponível gratuitamente no e-book acessível por este link.


O autor Eduardo Graeff


” (…) Acredite quem quiser que o PT no poder limitou-se a fazer o que todos fazem. De Sarney a Lula, passando por Fernando Collor, a corrupção política não apenas aumentou. Na verdade, deu um pulo – mudou de patamar. Iluda-se quem quiser, também, supondo que esse é um problema menor – preocupação “udenista”, como gostam de dizer os ideólogos do “rouba mas faz pelos pobres”. Na escala a que chegou com Lula, a corrupção é um caruncho que rói nossa democracia pelas duas pernas, a do Estado de Direito e a de eleições limpas. (…)”





Os ex-presidentes Sarney e Lula



Estoura o escândalo do mensalão

“(…) Em junho de 2005, o líder na Câmara dos Deputados de um dos partidos da coalizão governista, Roberto Jefferson, do PTB, revelou à Folha de S. Paulo que um esquema desses [pagamento de propina a deputados para votarem com o governo] funcionava na Câmara dos Deputados. “É mais barato pagar o exército mercenário do que dividir poder”, ele explicou. Apontou o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, como operador do esquema, encarregado da distribuição do dinheiro aos parlamentares. Disse que Dirceu e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tinham conhecimento do esquema, e que há meses ele pessoalmente o denunciara ao presidente da República.

Dirceu durou dez dias no cargo. Despediu-se do Palácio do Planalto numa solenidade pública, homenageado por colegas de governo e companheiros de partido, incluindo sua sucessora, Dilma Rousseff, e reassumiu o mandato de deputado federal. Uma CPI confirmou a existência do esquema de compra de votos e recomendou a cassação de dezoito deputados. Dirceu, Jefferson e mais um deputado foram cassados. Outros quatro renunciaram para evitar a cassação. Os demais foram absolvidos. (…)”




Roberto Jefferson, detonador do escândalo do mensalão

Lula chegou a temer não terminar o mandato
“(…) A CPI e órgãos de imprensa traçaram a origem do dinheiro do “mensalão” até uma agência de publicidade e dois bancos de pequeno porte, por sua vez alimentados por contratos e outros favores do governo federal e por empresas concessionárias de serviços públicos. Em agosto o marqueteiro da campanha presidencial confessou à CPI ter recebido uma parte substancial de seus honorários por meio de uma conta no exterior, que abrira seguindo instruções de Marcos Valério Fernandes de Souza, dono da agência de publicidade que viria a ser uma peça chave do “mensalão”.

Há relatos que a essa altura Lula chegou a temer que não completaria o mandato presidencial, muito menos ganharia um segundo. Sua primeira reação foi tentar se dissociar do escândalo. Num pronunciamento pela TV, diante de seu ministério, ele disse: “Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento”. E acrescentou: “O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas…”.

Pedido de desculpas e o dossiê dos “aloprados”

O PT pediu desculpas numa nota da direção nacional: “os atos que nos comprometem, moral e politicamente perante os brasileiros, foram cometidos por dirigentes do PT, sem o conhecimento de suas instâncias”.(…)

“(…) Em setembro de 2006 um grupo de militantes do PT foi detido num hotel de São Paulo com outra grande soma de reais e dólares numa mala, quando negociava a compra de um dossiê forjado contra o candidato do PSDB ao governo do Estado. Um dos detidos era funcionário do comitê de reeleição de Lula. As investigações da Polícia Federal chegaram a outro funcionário do comitê de reeleição e amigo pessoal de Lula e a um assessor especial da Presidência da República. Lula chamou-os de “aloprados” – mais desastrados do que delinquentes. Todos foram afastados. Um diretor do Banco do Brasil se demitiu por envolvimento no escândalo. A origem do dinheiro não foi esclarecida (…)”.

Nove ministros saíram por suspeitas de corrupção

“(…) No segundo mandato de Lula, as denúncias passaram ao largo do Palácio do Planalto, exceto por um ato final: em setembro de 2010, a sucessora de Dilma Rousseff na chefia da Casa Civil demitiu-se depois de denúncias de tráfico de influência. Ao todo nove ministros se demitiram por suspeitas de corrupção ou mau uso de dinheiro público nos oito anos de governo Lula:

• Benedita da Silva, da Secretaria de Assistência e Promoção Social, por pagamento de despesas particulares com dinheiro público (2004);

• José Dirceu, da Casa Civil, por envolvimento no “mensalão” (2005);

• Romero Jucá, do Ministério da Previdência, por irregularidades na tomada de empréstimos de um banco federal (2005);

• Antônio Palocci, do Ministério da Fazenda, por quebra de sigilo bancário (2006);

• Luiz Gushiken, da Secretaria de Comunicação, por interferência em fundos de pensão e envolvimento no “mensalão” (2006);

• Silas Rondeau, do Ministério de Minas e Energia, por envolvimento em fraude e desvio de recursos em obras públicas (2007);

• Walfrido Mares Guia, da Secretaria de Relações Institucionais, por envolvimento no “mensalão” (2007);

• Matilde Ribeiro, da Secretaria de Igualdade Racial, por pagamento de despesas particulares com dinheiro público;

• Erenice Guerra, da Casa Civil, por tráfico de influência (2010). (…)”

O “esquema” nas prefeituras do PT

(…) Petista histórico, ex-secretário municipal de Finanças de Campinas e São José dos Campos, [Paulo de Tarso] Venceslau repetiu para a CPI o relato que já fizera a vários meios de comunicação, sobre os métodos de arrecadação de fundos usados por Lula e seu círculo íntimo de velhos companheiros sindicalistas.

Segundo ele, no começo da década de 1990, varias prefeituras paulistas controladas pelo PT contrataram sem licitação serviços de assessoria tributária de uma empresa denominada Consultoria para Empresas e Municípios – CEPEM.

Parte do dinheiro pago pelas prefeituras a essa empresa seria repassado a Paulo Okamoto, então secretário de finanças do PT, ex-tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, presidente nacional do Sebrae no governo Lula, apontado como o amigo que pagava contas pessoais do presidente, hoje colaborador e sócio do ex-presidente em sua firma de palestras.

O dinheiro desviado desse modo teria financiado, entre outras coisas, a Caravana da Cidadania, que preparou a candidatura presidencial de Lula em 1994. O intermediário entre a CEPEM e as prefeituras petistas era Roberto Teixeira, amigo e compadre de Lula, dono da casa onde o então presidente do PT morava de favor em São Bernardo. (…)”

O assassinato de Celso Daniel

“(…) O assassinato de Celso Daniel em janeiro de 2002 voltou a chamar atenção para as relações financeiras do PT com as prefeituras sob seu controle. A CPI do “mensalão” ouviu a esse respeito dois irmãos da vítima, João Francisco Daniel e Bruno Daniel. Celso Daniel cumpria seu terceiro mandato como prefeito de Santo André, na Grande São Paulo, e era citado como provável coordenador da campanha presidencial de Lula quando foi sequestrado, torturado e executado com vários tiros.

A polícia paulista deteve seis suspeitos e, baseada nas suas confissões, concluiu que haviam sequestrado o prefeito por engano, confundido-o com um empresário. Na época, João Francisco contestou a tese de crime comum e levantou a suspeita de motivação política. Segundo ele, funcionava em Santo André um esquema de corrupção que alimentava o caixa do PT com dinheiro extorquido de empresas de ônibus urbanos e outros fornecedores da prefeitura.

Celso Daniel respaldava o desvio de dinheiro público para o partido, mas não aceitou que parte do dinheiro fosse embolsado por colaboradores seus, entre eles Sérgio “Sombra” Gomes da Silva, seu assessor e amigo, que estava em sua companhia no momento do sequestro.

Depois do assassinato, duas pessoas próximas do prefeito teriam confirmado a existência do esquema a João Francisco: Gilberto Carvalho, então secretário municipal de Santo André, posteriormente chefe de gabinete de Lula no Palácio do Planalto, atual secretário-geral da Presidência República; e Míriam Belchior, ex-mulher de Celso Daniel, também secretária municipal, posteriormente assessora especial de Lula na Presidência da República, atual ministra do Planejamento.

Carvalho teria contado a João Francisco que entregou pessoalmente dinheiro do esquema para José Dirceu, então presidente do PT. (…)”

País não avança se não começar pela aplicação da lei

“(…) As várias camadas da corrupção se interpenetram, no entanto. O país como um todo dificilmente verá avanços mais importantes na base se não atacar o problema pelo topo: pela cúpula dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário nos níveis federal e estadual.

Começando pela aplicação da lei: os 16 mil juízes estaduais e federais são a elite do serviço público brasileiro. São os servidores melhor remunerados – tanto ou mais que seus colegas dos países ricos. Os melhor preparados – os concursos para a magistratura selecionam bacharéis formados pelas melhores escolas de direito do país. Mas não os mais eficientes .(…)