sábado, 15 de novembro de 2008

NOVA ORTOGRAFIA, Ó PÁ

.
Vou morrer de saudade do trema.

Sei que muita gente já o abandonou há bastante tempo, o que é errado, diga-se de passagem, mas eu não... Fiquei ali, ao lado dele, o valorizando sempre que podia. Tranqüilamente agüentando as conseqüências dos que riam desses dois pontinhos e freqüentemente achavam que eu estava errada. Ler uma carta ou um e-mail de alguém que escreve com trema é como encontrar um brasileiro num país estrangeiro, rola uma cumplicidade imediata. Mesmo que a pessoa não tenha nada a ver com você. “Brasileiro?! Que legal! Tá passeando? Tá gostando? Então tá...” Assim é com o trema. O texto pode ser sobre a importância dos pingüins de plástico em cima da geladeira, mas se a pessoa tascou um trema em cima do u dos pingüins, eu já sinto que a gente tem alguma coisa em comum.

Pois isso vai acabar...

A partir de 2009 a nova reforma ortográfica já estará valendo, mas soube que até 2012as duas grafias – a antiga e a nova – vão valer. Não só na comunicação informal, mas em provas, em vestibular, documentos oficiais, etc. Eu acho que vou preferir me despedir do trema logo nesse Reveillon. Assim como a gente decide, no Reveillon, abandonar o cigarro ou alguma coisa da qual a gente gosta, mas sabe que não tem futuro, vou abandonar o trema. Pelo menos tentar...

Nada de despedidas demoradas, sofridas. Se é pra ir embora, que vá logo. Se é pra gente se separar, que seja de uma vez. Talvez assim seja mais fácil agüentar, ou melhor, aguentar...

Apesar de ter um envolvimento emocional com o trema, consigo entender, perfeitamente, que ele não é essencial à escrita, pois ninguém que conheça a língua portuguesa vai deixar de pronunciar o “u” em palavras como “inconseqüência” ou, ao contrário, pronunciá-lo em palavras como “português” , como se fosse “portugüês” . Agora, outras mudanças são realmente estranhas e a gente vai ter que dar uma estudada legal nas novas regras. Por exemplo: sai a maioria dos hífens em palavras compostas. Assim, pára-quedas vira paraquedas. Quanto houver necessidade, será dobrada a consoante. Assim, contra-regra vira contrarregra.

Até aí, tudo bem. Estão só simplificando, não é? Porém, ah, porém... em substantivos compostos cuja última letra da primeira palavra e a primeira letra da palavra são a mesma, será feita a introdução do hífen. Assim, microondas vira micro-ondas. Na boa, se é pra tirar de umas e botar em outras, por que não deixa tudo como está? Parece até piada de português... Com todo o respeito...

(Rosana Ferrão)