sábado, 29 de novembro de 2008

Os bastidores da política doméstica

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- Boa tarde, minha senhora. Eu gostaria de comprar seu voto, já para as próximas eleições para Presidente.
- Com quatro anos de antecedência?!
- Pra não ficar aquela correria de última hora. Seria feito mediante a um contrato, tudo dentro da lei.
- Contrato...
- Contrato de compra e venda. A senhora faz uma escritura do seu voto e passa pro meu nome. Seu voto passa a ser meu, oficialmente.
- Aí o senhor guarda meu voto.
- Aí não sei. Eu poderia vender, alugar, sublocar, enfim...
- Alugar?! Vender?!
- Pra algum candidato. Se eu, por acaso não concorresse. Claro que eu teria que vender por um bom preço... Pela mão de obra, entende?
- ...?
- Mão de obra por ter conseguido o voto. Ter vindo aqui, ter perdido tempo com a senhora, ter tomado esse cafezinho pavoroso que a senhora preparou.
- Pavoroso...
- Pavoroso no bom sentido. Pavoroso no sentido de delicioso, entende?
- Olha aqui, esse negócio de o senhor vender meu voto, cobrando caro... vai acabar virando tráfico. Daqui a pouco isso aqui tá uma boca de fumo, quer dizer, uma boca de votos.
- Se a senhora não quer, a gente coloca uma cláusula de incomunicabilidade no contrato. Não posso passar pra outra pessoa. A não ser que...
- Quê?
- ... que eu morra. Aí eu deixo seu voto de herança pra um sobrinho meu que está entrando na política.
- Negativo. Não conheço seu sobrinho. E eu ainda não vendi nada para o senhor.
- Mas eu prometo um monte de coisas. Prometo fechar os buracos do bairro, asfaltar a rua, trazer água encanada, abrir um metrô na porta da sua casa. Eu prometo.
- E eu posso acreditar que o senhor vai cumprir?
- Aí não. De fato, não vou cumprir.
- Mas...
- Não vou cumprir. Exatamente isso que a senhora ouviu.
- Peraí... o senhor acabou de me prometer... e o senhor mesmo diz que não vai cumprir?!
- Aí é que está a diferença entre a minha pessoa e os outros candidatos. Eles prometem e simplesmente não cumprem. Eu prometo, mas aviso antes que não cumpro.
- Sei...
- Comigo o eleitor fica seguro. Ele tem tempo de se preparar psicologicamente para saber que não vai ter chongas do que foi prometido.
- E o senhor acha que isso é certo...
- Uma questão de princípios. Sou um político transparente.
- Tô vendo que o senhor não dá a mínima pro país. Pra pátria.
- Depende da pátria. A nossa, eu tenho horror. Não acredito nela.
- Se não acredita... por que está na política?
- Porque é a única pátria que eu conheço que aceita no governo, homens que não acreditam nela.
- Ah...
- E então? Vende seu voto?
- Evidente que não. O senhor não vai fazer nada pela pátria, não vai cumprir o que prometeu...
- Eu até cumpriria, mas é que...
- O quê?
- A senhora não é da minha família, entende? E eu só ajudo meus familiares. Sou a favor do nepotismo. Questão de princípios.
- Que absurdo. Não vai ter meu voto de jeito nenhum.
- E se a senhora... entrar pra minha família?
- Não entendi.
- A senhora casa com um tio que eu tenho, que é meio viúvo. A senhora vira minha tia. Aí eu ajudo.
- Bom... sendo assim... não fica nem bem eu recusar uma proposta dessa.
- Também acho. Uma proposta... de coração.
- Então está tudo resolvido. Quando é o casório? E a transferência do voto?
- Agora. Tenho toda a papelada... tia.

(Elisa Palatnik)