quinta-feira, 15 de julho de 2010

Isso lembra alguma coisa..???

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Qualquer semelhança não é mera coincidência...


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e

sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos

de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de

dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de

sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando

nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim,

que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua

inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo

de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e

politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do

mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que,

honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros

e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à

falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política

portuguesa
sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos,

absolutamente inverosímeis no Limoeiro. Um poder legislativo, esfregão

de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este,

finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País. A justiça

ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela

saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,

incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido,

análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas

metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,

pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma

vez na mesma sala de jantar.
"

(Guerra Junqueiro, 1896)