domingo, 25 de julho de 2010

Riobaldo, o indefinido

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Riobaldo é ateu, mas isso não tem a menor importância. Pra ele tem. Na hora de votar, Riobaldo pensa: não interessa a religião do candidato, interessa a sua plataforma política, sua integridade e suas propostas. E que não use sua religião, ou sua não-religião, como bandeira política. Ok, pensa Riobaldo. Vamos lá. Ele sabe que se um candidato se declarar ateu, não ganha a eleição nem que a vaca tussa ou o Lula esperneie. O cara pode ser tudo, até ladrão, menos ateu. Mas isso não tem a menor importância. Pro Riobaldo tem. Ok, vamos lá. Marina Silva parece ser a candidata mais independente, desvinculada do ranço político e distanciada dos horripilantes ogros que dominam os currais eleitorais dessa nossa grande e anestesiada nação. Ela é a candidata mais jovem, mais moderna, e está sintonizada com as questões ambientais que ameaçam desandar a maionese do vasto mundão que habitamos. Certo, pensa Riobaldo. Mas hesita e resiste em votar em Marina. Sabe que ela, numa atitude respeitável, não coloca sua religião como programa político. Ainda assim, embora convicto de que Marina é bem intencionada, ao imaginar uma presidente criacionista, Riobaldo brocha. A candidata mais moderna, criacionista. Êta paradoxo. Riobaldo não consegue imaginar um presidente comprometido com questões ambientais que acredita que o mundo foi “criado” há oito mil anos. Aí já é demais. Vamos lá, o próximo, José Serra. Riobaldo simpatiza com os tucanos, sempre votou no Mário Covas e sabe que FHC perdeu uma eleição em São Paulo por ter se declarado ateu. Depois que voltou a crer em deus, FHC virou presidente, estabilizou a economia nacional e ganhou duas vezes do Lula. Riobaldo sabe que deus, embora não exista, gosta do FHC. E acredita que Serra é o candidato mais preparado e liberal, mas acha estranho – ainda que compreensível – que ele se declare de forma tão veemente contra o aborto. Essa posição, embora prudente e adequada do ponto de vista eleitoral, soa como um contrasenso aos ouvidos de Riobaldo. Tantas mulheres pobres se estrepando a cada ano por abortos malfeitos e vem um sujeito instruído como o Serra – ex e bem avaliado ministro da Saúde – com essa lengalenga hipócrita? Riobaldo fica indignado. Será que deus, embora não exista, implica com o Serra? Não se sabe. Já o Jereissati, o Alckmin, o Aécio e o DEM…êta oposiçãozinha desunida. E então, pela segunda vez, Riobaldo brocha. Vamos lá, Dilma Roussef. Riobaldo detesta a ideia de votar num fantoche para presidente. Ainda que seja um fantoche com topete fashion. Alguém que jamais se destacou nacionalmente e ao que se sabe, nunca fez lhufas, de repente vira a candidata preferencial simplesmente por que Lula quer. Riobaldo não se vê a engrossar o coro dos contentes. Acha cafona posicionar-se ao lado do Sarney e do Collor a soprar a vuvuzela dos inocentes úteis. Coisa mais brega. Mas Riobaldo concorda que Dilma, embora disfarce, é notoriamente a mais atéia dos candidatos, embora isso não tenha a menor importância. Para o Riobaldo tem. Dilma se enrola toda quando tem de declarar sua religião, e já se posicionou inequivocamente a favor do aborto em algumas ocasiões, ao afirmar acertadamente que “aborto é questão de saúde pública”. Ora bolas, Riobaldo sabe reconhecer um ateu. E concorda plenamente com Dilma na questão do aborto. Mas no resto… aparelhamento do Estado não faz a cabeça do Riobaldo, um entusiasta da livre iniciativa. Muito menos voto de cabresto ou política assistencialista. Então, pela terceira vez, Riobaldo brocha. Tá difícil, Riobaldo. Já tentou os nanicos?

(Tony Bellotto - Cenas Urbanas - Veja)