segunda-feira, 12 de julho de 2010

O PT e a crise da esperança

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Valter Pomar, da direção nacional do PT, quer congelar os equilíbrios políticos e ideológicos nacionais em favor do seu partido. Afirma que não sabe se Marina Silva abandonará ou não o PT, se será ou não candidata à Presidência. O que Pomar sabe e vê é que a direita brasileira está exultante com a idéia da candidatura da ex-ministra para “atrapalhar a 3ª. vitória do PT”. Para ele e seus silogismos autoritários, fechando o quadro político na bifrontalidade político-ideológica estanque de direita e esquerda, a candidatura da ex-ministra “é vista como linha auxiliar do PSDB, mais ou menos como o Partido Verde se comporta em vários estados do Brasil”. Com estas ultra-simplificações ele fecha, instrumentalmente, o quadro político-ideológico com o pretenso antagonismo entre o PT e o PSDB. Quem não está conosco, está contra nós…


Para Valter Pomar, com efeito, PT e PSDB, “organizam a disputa política brasileira, exatamente porque representam dois projetos nacionais opostos e contrapostos: o neoliberal e o democrático-popular.”


Vê-se, por este discurso, que o PT considera que não precisa e não deve aceitar a crise da esperança que está já no coração da sua história e ferindo, de cheio, a sua trajetória política. Acha que com os anátemas poderá seguir em frente desqualificando e/ou procurando isolar todos os que ousam criticá-lo. Cristovam Buarque e Marina Silva e quantos mais que já o abandonaram ou o estão fazendo agora, devem ser exorcizados como trânsfugas que, no entender do secretário petista, se perderão como outros pelos caminhos e descaminhos da história. Ele não vê que esta é uma das maneiras de um edifício ruir como um castelo de cartas. O PT não é mais, afinal, um partido em ascensão como quando expulsou de seus quadros Airton Soares, um advogado de presos políticos durante a ditadura, por ter comparecido ao Colégio Eleitoral em 1985, para votar em Tancredo Neves contra Paulo Maluf. Ele é hoje, depois de tantos desgastes como o “mensalão”, um partido em declínio ainda que sustentado pelas políticas de poder que assumiu com o governo Lula e alguns bons ventos que, no entanto, não soprarão indefinidamente. O secretário petista e os que o acompanham deixam-se obnubilar por isto e avançam como se Cristovam, Marina e quantos mais que dão asas à crise da esperança já estivessem condenados pela roda inexorável da história…


Quem está seriamente interessado em sustentar que o PT é o partido do proletariado, como fez, recentemente, o ex-porta-voz do primeiro mandato de Lula, André Singer? Qual é o ânimo de todos que querem mudanças nesse país ao ver Lula aos beijos e abraços com Renan Calheiros, Sarney e Fernando Collor de Mello? O que pensam sobre o efeito que produz em tantos eleitores a notícia de que Pallocci e José Dirceu coordenarão a campanha política da Dilma? O mesmo José Dirceu que, com a sua arqui-conhecida truculência, propôs que o PT retire a carteirinha e o mandato de Marina Silva! E sobre os que assistem à ex-Secretária da Receita Federal, Lina Vieira, afirmando que foi chamada por Dilma para lhe pedir que arquivasse o processo contra o filho de Sarney? Onde está a “boçalidade”, indicada pelo Secretário Valter Pomar, contra Danuza Leão, por ter ela afirmado que “não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura”? Afinal, discutir a “dureza sem ternura” tão visível no timbre, gestos e estilo das falas e aparições da ministra Dilma, como candidata à Presidência da República, é mesmo coisa ociosa, sem sentido, uma “boçalidade”? A expressão de Danuza não lembra, com efeito, o dito célebre de Che Guevara, afirmando que hay que temprarse sin perder la ternura jamás? Guevara, dirigindo, pelo que consta, até mesmo campos de concentração de prisioneiros, foi também um “duro”, “temprado”, mas, como se vê, tomou o cuidado de se distanciar dos piores e mais acabados ditadores, não colocando a política acima do humano. Será, enfim, que a ministra Dilma não percebe que a sua dureza, percebida de forma tão geral, está desacompanhada da ternura? Terá ela já meditado sobre a reflexão de Che Guevara?


Seria, com efeito, extremamente cômodo para o PT que a campanha de 2010 pudesse ser enquadrada no simplificadíssimo binômio maniqueizante da disputa entre a direita e esquerda ainda que, ambas, dentro do quadro neo-liberal… O PT, representando o bem, ou seja, a esquerda, estaria, ipso facto, blindado contra o desgaste de qualquer crítica.


O discurso do secretário esboça um sonho quimérico, refletindo uma direção política inepta, medrosa, autoritária, incapaz de enxergar a realidade com olhos mais lúcidos, preparados, realistas e democráticos. Os partidos são, hoje, peças política e ideologicamente tão monolíticas como nunca foram, mesmo em épocas historicamente mais favoráveis a este tipo de desenvolvimento? Por que é que hoje aparece, volta e meia, aqui e acolá, a proposta de unificação do PT com o PSDB, a qual o próprio secretário petista não descarta inteiramente dizendo que isto não será possível “enquanto” se mantiver a divergência de projetos? Mas que divergência de projetos é esta se a política de ambos, hoje, é a neoliberal, apoiando, aliás, sistemicamente, no conteúdo e no estilo, o ultra-populismo das políticas compensatórias de Lula? O coronelismo de Lula suplantou e pôs de joelhos, à sua disposição, todos os velhos coronéis, como ACM e Sarney. O secretário petista afirma que o PV, ao qual a ex-ministra Marina Silva se filiou, é um partido sem coluna vertebral, sendo assim uma linha auxiliar do PSDB. Mas esta falta de coluna vertebral, política e ideológica, nos partidos políticos, não é hoje um fato generalizado?


Qual é mesmo a coluna vertebral do PT? O proletariado ou Sarney/Renan Calheiros/Collor de Mello? A verve com que lula defendeu e defende Sarney não deixa duvidas para o lado para o qual Lula quer levar o Partido.


A bifrontalidade político-ideológica ensaiada pelo secretário petista é uma tese forçada, instrumental, que está “fora do lugar” em relação aos tempos que vivemos. Este é, no entanto, a olhos vistos, o único tipo, autoritário, de resposta que o PT tem para dar à confrontação crítica que tende a crescer com a aproximação da campanha de 2010 e que, essencialmente, é o resultado da sua própria crise política, ideológica, histórica. A crise atual está fazendo aflorar, para a militância do PT e para a opinião pública o azutoritarismo de Lula, que, aliás, não é coisa nova. Cristovam Buarque veio do PT e saiu dalí machucado pelas desfeitas políticas e pessoais sofridas ali dentro. Todos nos lembramos do “calaboca” que lhe deu Lula, dizendo-lhe “quem tem pressa come cru”. A ex-ministra Marina Silva, hoje desfiliada do PT, e prometendo encabeçar uma campanha autônoma para a Presidência da República tomou outro rumo pelas mesmas razões dos outros. O seu novo posicionamento é, com efeito, uma resposta às permanentes “flexibilizações” das posições ambientais que sustentavam politicamente a militante fundadora do PT. Lula respondeu à dissensão do senador Flávio Arns afirmando que ele é um encrencado com o partido. Esta intervenção do presidente esclareceu alguma coisa ou deixou transparecer ainda mais um viés coronelistico, autoritário, das suas intervenções contra companheiros? Estes episódios, de militantes destacados que se afastam indicam um desgaste histórico que parece se aprofundar nos dias que correm. Eles não assinalam que o PT não está preparado para responder democraticamente à “crise da esperança” que ele mesmo gerou?


(Fernando Massote - Fonte: http://massote.pro.br)