domingo, 6 de novembro de 2011

Rir dos outros é universal

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Rir é mais antigo que falar. Hominídeos já riam — gemiam, choravam e até suspiravam — há pelo menos 7 milhões de anos. Rir é universal e inato: bebês riem muito antes de falar.

“Biologicamente, o riso é uma evolução do choro. É um sinal de que o bebê reconhece a mãe — geralmente o primeiro riso é direcionado à mãe. Quando a criança começa a reconhecer a mãe, passa também a ter medo dos outros”, afirma o zoólogo Desmond Morris, no livro O Macaco Nu, de 1967.

Pioneiro nos estudos comparando o comportamento humano com o de primatas como chimpanzés e macacos, a teoria de Morris hoje é considerada ultrapassada. “O bebê reconhece a mãe muito antes disso, pelo cheiro”, diz Patricia Izar, professora do departamento de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo (USP).

“O riso aparece com as brincadeiras motoras, especialmente as lúdicas. Tanto que em inglês se usa a expressão playface, algo como ‘cara de brincadeira’”, afirma Patricia. “As primeiras risadas surgiram com as brincadeiras da mãe com o filho.”

Darwin foi quem primeiro estudou a origem das risadas, em seu livro A expressão das emoções nos homens e nos animais, de 1872. Ele cita o caso da americana Laura Bridgman, que, “sendo cega e muda, não poderia ter aprendido o riso pela imitação”, e mesmo assim ria em ocasiões alegres. “Primatas também emitem um som reiterado, corresponde à sua própria risada, quando são tocados, especialmente debaixo dos braços”, observa no livro.


De fato, primatas como os chimpanzés têm, durante brincadeiras, uma expressão parecida com o riso humano, até com o arfar característico. Neste, o riso seria um sinalizador de que a ‘luta’ entre os chimpanzés se trata de uma brincadeira, não é de verdade, desempenhando um papel fundamental de facilitar a comunicação. “A maioria das expressões têm esse papel”, diz Patricia.

Paul Ekman, cientista que estuda há mais de 40 anos as expressões humanas, inspirador da série Lie to Me (exibida no Brasil no canal Fox), classifica o riso, assim como o choro, no livro Darwin and Facial Expression: A Century of Research in Review, como “formas de controlar o ambiente.” Segundo Patricia Izar, “o riso é uma maneira de lidar com aspectos novos do ambiente, mas em um contexto que não seja perigoso.”

Embora as origens e funções do riso estejam longe de ser uma unanimidade, ele é universal. “Em todas as raças, as expressões de alegria parecem ser as mesmas, e são facilmente reconhecíveis”, escreveu Darwin em 1872.

E, como ele mesmo observou, tanto tribos africanas como selvagens aborígenes da Austrália riem da mesma forma, estimulados muitas vezes por comportamentos que nos são comuns, como imitar a voz de um membro ausente do grupo. “Todo mundo se convulsionava de tanto rir.” Dar risada dos outros, ao que tudo indica, é um dos traços mais antigos e universais que existem.





(Jones Rossi - Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/nas-trincheiras-do-humor)
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