quinta-feira, 1 de abril de 2010

Alcatéia das Nações

.

Reflexões sobre política de materiais de defesa


Alcatéia

Lobos possuem uma organização social bem definida.

Um macho alfa lidera e os outros membros se posicionam na hierarquia conforme sua competência.

A liderança do macho alfa dura até que apareça um outro lobo, com dentes mais afiados e pernas mais rápidas, que assumirá a liderança.

A mesma coisa acontece com as nações. Basta ver a história ... Hititas, Egípcios, Romanos, Espanhóis, Ingleses e, atualmente, Norte-Americanos (isso só para lembrar da “civilização ocidental”).

Turma da Zona Norte x Zona Sul

Outra organização social que lembra a alcatéia é a da “turma da Zona Sul”, que está sempre em conflito com a “turma da Zona Norte” (haja filmes da “matinê” ou da “sessão da tarde”).

Existe um líder, que geralmente é o garoto mais forte ou mais rico ou que tem mais sucesso com as garotas, e o resto da turma, que se posiciona hierarquicamente de acordo com suas possibilidades.

Outra característica que une essa turma é a rivalidade da outra turma (normalmente, a da Zona Norte). Eles precisam fazer parte de um grupo para não serem presas fáceis dos membros do outro grupo. Um lobo sozinho não sobrevive muito tempo.

Nações

Extrapolando, as nações funcionam mais ou menos segundo os mesmos princípios.

Uma nação tem condições de sobreviver se se enquadrar em algum perfil favorável. Ela deve ser parte de um grupo e, se possível, liderá-lo.

Também nesse nível, lobos solitários têm pouca chance, no longo prazo. A Coréia do Norte está numa fase de latir alto, mas não creio que chegará a se tornar uma nação alfa.

A Suíça sobrevive fazendo parte que qualquer grupo ao qual consiga se ligar, mantendo sua atitude “neutra”.

A China, jovem e se desenvolvendo para ser forte, pode se tornar líder alfa da alcatéia de nações.

E o Brasil, como fica?

O Brasil tem todas as qualificações “genéticas” para liderar uma alcatéia.

Seu problema é se exercitar para desenvolver suas forças e escolher qual grupo vai tentar liderar.

Escolher o grupo é questão de política, assim como a decisão de trabalhar para ser líder.

Exercitar-se é questão de estratégia.

Defesa

A defesa de um país pode ser entendida como estar preparado para enfrentar uma agressão vinda do exterior.

Usando a analogia do lobo solitário, é mais eficaz ter aliados do que brigar sozinho.

Alianças dependem de interesses comuns, que podem ser desenvolvidos.

Aqui chegamos aos materiais de defesa.

Níveis de material de defesa

Grosso modo, existem dois níveis de agressões externas. Ou há uma agressão “blitz-krieg”, em que a agressão se configura em um conflito aberto – é a guerra – ou é uma agressão localizada, de um invasor que tenta “comer pelas beiradas”.

Na guerra, o nível de defesa deve ser total. A agressão será uma ameaça para qualquer pedaço da nação e de seu território. Nesse caso, se o inimigo for mais poderoso, os aliados terão influência vital no resultado do conflito.

No caso da guerra é fundamental, para países como o Brasil, dependentes de tecnologia sofisticada vinda do exterior, pertencer a uma “alcatéia” que ajude a combater o inimigo.

Na agressão localizada, o agressor tenta se apossar de parte do território e a defesa deve ser deslocada, não tendo que se preocupar com o todo da nação.

Nesse segundo caso, nossa capacitação tecnológica é suficiente para fazer frente à ameaça, com nossos próprios meios, se os tivermos em quantidade e qualidade suficientes.

Liderança

O Brasil, atualmente, não pode liderar o mundo, nem mesmo a civilização ocidental, mas tem todas as condições para liderar a América Latina, tornando-se o líder alfa dessa parte do mundo.

Para isso precisa assumir a posição do mais forte, do mais rico e do que tem mais sucesso com as outras nações. Deve se tornar o “chefe da turma”.

Na América Latina já somos o mais rico. Também fazemos sucesso com as outras nações. Falta estabelecer a posição de o mais forte.

Chegamos aos materiais de defesa.

Fundamentos da indústria de defesa

A indústria de defesa, como qualquer outra indústria, obedece a uma lógica simples.

Ela fabrica algo e vende para seus clientes, sobrevivendo e crescendo do resultado de suas atividades.

Ela também precisa ser competitiva, para não deixar que competidores fiquem com os seus clientes.

No caso de materiais de defesa, o problema é um pouco maior do que no caso de outras indústrias “normais”. É que o número de clientes é limitado. Não se pode vender materiais de defesa na feira ou no supermercado.

A eficácia do processo industrial reside em fabricar pelo menor custo e vender a maior quantidade possível, para, com a menor margem, obter o lucro necessário para a continuidade do negócio.

Para isso, é fundamental conseguir vender bastante! Vendendo para muitos clientes, que comprem sempre, dando continuidade ao negócio.

Indústrias de materiais de defesa têm o problema que seus clientes são governos, que existem em número reduzido.

O impacto da atual crise econômica mundial

Com a atual crise econômica mundial, que foi descrita também como crise financeira ou de crédito, o capital para a indústria de defesa se tornou ainda mais escasso.

Por essa razão, mais do que qualquer outra, deve haver uma política governamental que facilite à indústria de materiais de defesa conquistar os mercados que viabilizarão o seu desenvolvimento e manutenção, por meio de medidas ao alcance do governo, tanto creditícias como fiscais.

Não custa lembrar que a indústria de materiais de defesa pode ser os “músculos” que a nação precisa para se tornar a líder alfa da alcatéia Sul-americana.

Sugestões para viabilizar a indústria de defesa

Começar com a legislação.

Propor e aprovar leis que identifiquem indústrias de materiais estratégicos de defesa, o que permitirá direcionar medidas que facilitem seu desenvolvimento.

Sugestões de medidas:

Redução da incidência de impostos – deve ser feita de modo que o custo de produção seja competitivo no mercado externo. Isso permitirá vender às nações aliadas e mantê-las aliadas, pela conveniência. Também impedirá a entrada de concorrentes no mercado nacional.

Criar um mecanismo de pesquisa de mercado internacional, usando a penetração das representações diplomáticas no exterior. Não digo fazer apresentações ou representar produtos, mas identificar necessidades específicas para que a indústria nacional possa se direcionar e trabalhar para atender à demanda, aumentando sua capacidade de produção e poder comercial.

Há que lembrar que, por uma questão de confiança, nenhuma nação comprará produtos de defesa de indústrias brasileira se as Forças Armadas do Brasil também não os estiverem comprando.

Aproveitando a atual situação de aperto de crédito, devido à “crise”, tomar medidas no sentido de facilitar o crédito, em duas frentes. Uma, à indústria nacional, permitindo investimentos em ativos de produção e em capital de giro. Outra, financiando e facilitando aos clientes a compra de produtos de nossas indústrias, com garantias para o financiamento direto aos compradores ou assumindo o financiamento e liberando o pagamento à empresa vendedora. Esses mecanismos seguramente podem ser melhor sugeridos por economistas competentes, dos quais temos muitos.

Como foi dito acima, o direcionamento de esforços deve priorizar aqueles materiais de defesa que temos condições tecnológicas de produzir em níveis competitivos.

Devemos continuar pesquisando e procurando viabilizar tecnologias avançadas para materiais de defesa (e/ou ataque), mas esse segmento industrial será sempre dependente da vontade política do governo, para sua sustentação econômica, com poucas possibilidades de se tornar um segmento auto-sustentável no curto prazo.

(José Carlos G. Ribeiro)

.