sábado, 10 de abril de 2010

Revelando a alma golpista

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O REI DO TÁRTARO DÁ O AR DE SUA GRAÇA E RESOLVE MORDER O CALCANHAR DE GILMAR MENDES.


Ontem, num encontro do PC do B, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao comentar restrições impostas pela Justiça Eleitoral, afirmou: “Não podemos ficar subordinados a um juiz”. E defendeu que se faça uma reforma política. Pois bem: como Lula é chefe de um Poder, o Executivo, e como um juiz pertence ao Judiciário, que também tem um chefe, o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, fez um comentário absolutamente pertinente, correto e cabível à sua função: “Todos nós estamos subordinados à lei e à Constituição”. Que coisa agressiva, não é mesmo?

Mas foi o que bastou! Lula mobilizou o seu Cérbero para pegar no calcanhar de Gilmar Mendes. Afirmou o Top Top hoje, com aquela elegância argumentativa muito característica:

“Olha se fosse criar aresta, as declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal já teriam criado muito mais arestas. O presidente do Supremo Tribunal Federal deveria talvez falar mais nos autos e menos nos microfones. Um presidente da Corte Suprema deve falar mais nos autos. Essa é a boa tradição jurídica brasileira. Não é se preservar, é preservar o Supremo”.

Trata-se de uma fala boçal. Mendes não está se pronunciando sobre nenhuma causa em julgamento no Supremo. Está se referindo a uma questão que é de natureza institucional. Cumpre, pois, o seu papel. Nada além disso. E falou de presidente de Poder para presidente de Poder. Garcia, sim, não é coisa nenhuma. Se há alguém que entrará para a história como símbolo de um aspone cheio de empáfia, esse alguém é o Top Top.

Alguns leitores observaram: “Pô, Reinaldo, Lula até que tem razão. Uma reforma política, eleitoral também, é mesmo necessária. De fato, os juízes apitam demais…” Pois é.

Em primeiro lugar, indaga-se por que, então, não encaminhou uma reforma para valer, já que tem uma base gigantesca no Congresso? Empenho, de verdade, nunca houve. Mas isso é rigorosamente o de menos.

Não há reforma política, e eleitoral!, possível que vá permitir o que Lula andou fazendo nos últimos tempos em defesa de sua candidata à Presidência da República. Amanhã, para rivalizar com o evento do PSDB de Brasília, que oficializa José Serra como pré-candidato do partido à Presidência, o presidente mobilizou o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e as centrais sindicais, que recebem dinheiro público, para, na prática, um ato em apoio à candidatura do PT. Que reforma apoiaria o que é, vênia máxima, uma sem-vergonhice como essa? Nenhuma! Ninguém consegue ser tão descarado ao legislar.

A crítica de Lula aos “juízes” não é fortuito. Esse é o presidente que mandou o TCU e suas restrições à lisura nas obras públicas às favas. Para ele, o tribunal é um fator que atrasa o país. Com igual desenvoltura, ele pode atacar o Ministério Público e as leis ambientais se considerar que eles atrapalham os seus planos. Mas também pode ser seu aliado se isso for ruim para seus adversários.

Um político qualquer, contumaz respeitador das leis, que afirmasse ser necessária uma reforma política e eleitoral para que as eleições não ficassem na dependência de resoluções do TSE estaria dizendo a coisa certa. Quando a fala sai da boca de quem não reconhece limites legais à sua ação, contumaz também ele, mas no desrespeito aos limites legais, aí o que se diz tem outro peso. Pior: este mesmo político, multado duas vezes pelo TSE, faz chacota do tribunal em cena aberta.

Voltemos ao Top Top. Como, no seu caso, uma única bobagem não está à altura do seu potencial, ele soltou uma outra:

“Ele disse que tem que fazer uma reforma política no país. Qualquer pessoa que olhe para a fragilidade das instituições brasileiras acha isso e sabe que tem que fazer uma reforma política, ou vocês acham que o sistema eleitoral brasileiro está bom? Ou vocês acham que a tardança da Justiça tá bom (sic)? Não é um problema da Justiça brasileira, é um problema do desenho institucional do país que tem que ser corrigido”.

Qual é a fragilidade das instituições brasileiras? Marco Aurélio deveria nos dizer. De qual “tardança” ele fala exatamente? Ele está anunciando que Dilma Rousseff tem um plano secreto para mudar o “desenho institucional” do país? Seria aquele magnificamente consolidado no Plano Nacional-Socialista dos Direitos Humanos?

Apesar dos horrores, o pior desses caras não está no que dizem, mas no que silenciam. Se formos perscrutar cada uma de suas palavras, encontra-se, no fundo, uma alma golpista.

(Reinaldo Azevedo - Revista Veja)