quarta-feira, 7 de abril de 2010

A cabeça do eleitor

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Aproveito a marola eleitoral levantada pela última pesquisa Datafolha, na qual o tucano José Serra abre nove pontos de vantagem contra o que parecia ser o rolo compressor da candidatura Dilma Rousseff, para cumprir a promessa feita aqui há sete semanas, quando afirmei que escreveria uma coluna na qual sondaríamos o âmago do eleitorado.

Como eu já havia antecipado no texto "Políticos em cana", o cidadão escolhe seus candidatos muito mais com o fígado do que com a cabeça. Experimentos realizados nos EUA mostraram que, com base em rápidos questionários sobre como uma pessoa se sente em relação a certos temas (quase um teste de personalidade), é possível prever com 80% de precisão como ela responderá a perguntas que envolvam fatos bastante específicos, incluindo o voto.

Numa simplificação grosseira, cada um de nós provavelmente já "definiu" em quem vai votar em outubro próximo, ainda que talvez não saiba disso. A crer no modelo que está sendo desenvolvido por neurocientistas, a escolha é, na maioria dos casos, feita com base nas emoções positivas ou negativas que cada um dos postulantes e seus partidos (e eventualmente também suas ideias) despertam em nós. É só "a posteriori" que providenciamos uma argumentação racional para justificar a decisão.

Dois livros lançados nos EUA traçam um panorama bastante amplo da questão. O mais antigo deles é "The Political Brain" (o cérebro político), de 2007, de Drew Westen, hoje na Universidade Emory, no qual o autor dedica 500 páginas a recapitular experimentos que esmiúçam o comportamento previsivelmente irracional do eleitorado e a mostrar as estratégias que costuma dar certo em campanhas --pelo menos nas norte-americanas.

No outro, "The Political Mind" (a mente política), de 2008, o linguista e cientista cognitivo George Lakoff usa 300 páginas para explicar por que os cérebros de conservadores e progressistas funcionam de forma diferente (e inconciliável). Sempre polêmico e grandiloquente, Lakoff, hoje na Universidade da Califórnia em Berkeley, aproveita o livro para advogar pela fundação de um 'novo iluminismo', no qual a razão deixaria de ser idealizada como uma máquina de calcular objetiva e desapaixonada e passaria a ser considerada como o que de fato é: um processo bem menos razoável, no qual 98% das "decisões" ocorrem inconscientemente e sob influência de emoções que nem sequer desconfiamos possuir.

Perpetrei uma pequena matéria comentando ambas as obras, que foi publicada no último dia 22 na edição impressa da Folha de S.Paulo.

Tanto para Westen como para Lakoff, o cérebro político pensa em termos de "frames" (enquadramentos) e metáforas. E a capacidade dos neurônios de se conectar em redes que podem ser ativadas por contiguidade semântica faz com que as palavras escolhidas tenham o dom de comunicar sentimentos. Uma palavra de fortes conotações negativas como "terror" invariavelmente nos desperta sensações desagradáveis as quais, mesmo que não nos demos conta, influenciam nossas decisões. É o que os psicólogos cognitivos chamam de "priming". Uma tentativa bastante canhestra de usar isso em campanha eleitoral no Brasil ocorreu no célebre caso em que a atriz Regina Duarte foi à TV para dizer que tinha "medo" de Lula. Não colou.

Especialmente para Lakoff, metáforas são muito mais que um recurso linguístico para explicar ideias. Elas são a própria matéria-prima do pensamento e têm existência física no cérebro. Pares de ideias frequentemente disparadas juntas acabam se consolidando numa rede neuronal que se torna mais forte à medida em que vai sendo mais utilizada.

Sempre que uma conexão é ativada, ela inibe o acionamento de redes alternativas que possam existir. Uma implicação interessante é que o viés do militante em favor de seu partido não é necessariamente mau-caratismo. Ele de fato percebe o mundo de forma menos objetiva. (Na verdade, há experimentos sugestivos de que o eleitor ativa seu centro de recompensa sempre que deixa de "perceber" um fato desfavorável a seu candidato, num mecanismo de reforço não muito diferente do de viciados em drogas).

Assim, sem nos dar conta, à medida que o político e seu marqueteiro vão nos fazendo pensar dentro dos "frames" por eles escolhidos, estão de algum modo sequestrando nossos sentimentos em favor de sua causa. Daí decorre que os embates políticos não se resolvem tanto no plano das propostas e ideias, mas principalmente das narrativas --que são basicamente metáforas com um conteúdo moral-- que partidos e postulantes escolhem para contar suas histórias e transmitir seus valores. Idealmente, devem constituir uma história fácil de contar e de recontar e que fale diretamente ao cérebro emocional do eleitor.

Um exercício divertido é tentar aplicar esse esquema ao atual quadro brasileiro e tentar avaliar quem dispõe dos melhores elementos para compor uma narrativa. A de Lula é obviamente imbatível: o filho de "analfabetos" que veio num pau de arara do Nordeste para São Paulo, onde comeu o pão que o diabo amassou, acabou, após quatro tentativas, sendo eleito presidente e uma vez lá, sem esquecer os pobres, "deu um jeito" no Brasil.

O único problema é que Lula não é candidato. O PT vem de Dilma e o fato de ela ter Lula a seu lado é uma tremenda de uma vantagem, mas não garantia de sucesso. A narrativa de Lula é pessoal demais para ser "emprestada" a terceiros e não se confunde com a do PT. Pelo contrário. Embora o PT fosse até 2005 o único dos grandes partidos políticos brasileiros com uma narrativa digna desse nome, a legenda foi severamente ferida no escândalo do mensalão. Forçado ao discurso do "todos faziam", o PT, que se inventara como partido da ética, já não pode nem cobrar seus adversários por malfeitorias.

Quanto à própria Dilma, ela até que começa bem, podendo vender a história de que combateu ativamente a ditadura militar. O problema é que nos anos que se seguiram ela foi apenas uma tecnocrata, posição difícil de "vender", por mais competente que ela tenha sido. A imagem de Lula é poderosa, mas ninguém sabe qual nível de milagre é capaz de operar.

José Serra, embora tenha uma biografia repleta de cargos eletivos a apresentar, parece refugar em fazê-lo. Posso estar viajando, mas minha sensação é a de que ele tem tanto medo de perder eleitores que reluta em assumir uma narrativa. Tem pavor de aparecer ao lado de FHC, vergonha de pertencer ao PSDB, partido que também não encontra um discurso. Para Westen, uma boa narrativa precisa necessariamente enfurecer uns 30% do eleitorado, que é a parcela da população que jamais concordaria com as ideias do candidato e nunca votaria nele.

Em termos pessoais, Marina Silva tem potencialmente uma excelente narrativa para trabalhar. Bem parecida com a de Lula, aliás: a garota pobre que foi ela própria analfabeta até os 15 anos, mas estudou (aqui ela supera o presidente), converteu-se à causa planetária, tornou-se senadora, ministra, rompeu com o PT e agora disputa a Presidência para "salvar" o Brasil e o mundo.

A boa história, entretanto, esbarra na falta de estrutura do PV (partido que está mais para um PMDB com verniz ambiental do que para o Grüne Partei alemão) e num certo oportunismo eleitoral que, se é compreensível para quem corre como terceira força, faz com que soem falsas algumas das recentes opções da senadora. Penso especificamente em seu flerte com a economia de mercado.

Paremos por aqui com essas livres especulações e voltemos a assuntos sérios. Na verdade, um assunto até um pouco sombrio. Se esse modelo neurocientífico do voto, que está recebendo cada vez mais atenção da academia nos EUA, é exato e o voto não é o resultado de cuidadosa e ponderada análise racional por parte do eleitor, a democracia representativa ainda faz sentido?

Em outras palavras, num quadro em que as decisões dos eleitores são principalmente fruto de uma combinação de propaganda subliminar com estímulos consolidados ao longo dos primeiros anos de vida, faz sentido determinar o destino da nação através do voto?

A resposta é afirmativa tanto para Westen como para Lakoff. Antes de mais nada, nem todo mundo é um militante radical e nem todas as questões debatidas são politicamente explosivas. Um número significativo de pessoas não é tão veemente em suas convicções políticas e adota visões de mundo ora conservadoras, ora progressistas dependendo do assunto. É em geral esse contingente que acaba definindo o resultado de eleições. Não deixa de ser uma virtude da democracia que os destinos de um país sejam definidos pelos 20% mais "moderados".

Outro ponto é que, embora seja difícil contornar conexões neuronais já consolidadas, não é impossível. Discursos que ofereçam "frames" alternativos e explicitem os processos mentais em operação podem levar o eleitor a mudar de ideia, constituindo uma forma legítima de persuasão política.

Apesar de as democracias modernas terem sido concebidas por filósofos iluministas que as moldaram segundo uma concepção de razão que hoje sabemos ser inexata, o fato é que há mais de 200 anos elas vêm se mostrando um sistema bastante funcional, capaz na maioria das vezes de autocorrigir-se. Por essa visão, teria razão Winston Churchill, para quem a democracia, apesar de inúmeras falhas, é o menos pior dos sistemas políticos que experimentamos até aqui.

Embora eu não discorde das conclusões, permito-me atirar um grão de sal nos pressupostos que levaram até elas. O fato de a razão iluminista como apresentada pelos filósofos do século 18 não estar no comando de nossas mentes não significa que ela não exista, assim como o fato de não pautarmos todas as nossas decisões pela lógica não significa que a lógica não exista.

O que torna a razão interessante é o fato de que todo ser humano que não tenha um déficit neurológico é em maior ou menor grau sensível a ela. Atender a seus apelos pode ser um processo difícil, que fracassa em 80% dos casos, mas, ainda assim, é a única linguagem comum a toda a humanidade.


(Hélio Schwartsman - Fonte: Folha Online)