quarta-feira, 7 de abril de 2010

Lula: botando a mãe no meio

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Parque Dona Lindu (maquete)



O presidente Lula deve inaugurar em breve uma creche no Complexo do Alemão (Rio) que leva o nome de sua mãe, Dona Lindu, já morta e mãe de seus sete irmãos.

A obra foi realizada com recursos do PAC, vitrine eleitoral de Dilma Rousseff e está sendo aberta dias depois de o presidente criticar publicamente políticos que fazem coisas desse tipo para exibir nomes de parentes.

Durante seu mandato, Lula já inaugurara em São Bernardo do Campo o parque Cidade dos Direitos da Criança e do Adolescente. Nome: "Eurídice Ferreira de Melo - Dona Lindu". O presidente foi homenageado na ocasião por Luis Marinho, prefeito petista da cidade e ex-ministro da Previdência de Lula.

No final de 2008, Lula também "inaugurou" outra grande obra com o nome de sua mãe. O Parque Dona Lindu, na praia de Boa Viagem, no Recife. Detalhe: o parque, de 27,1 mil metros quadrados, está inacabado até hoje e foi alvo de quase uma dezena de ações judiciais (inclusive por falta de dotação orçamentária em 2007).

A área do parque pernambucano, com grandes estruturas de concreto e poucas áreas verdes típicas do arquiteto Oscar Niemeyer, foi cedida pela União (sob Lula) à prefeitura petista do Recife.

O ex-prefeito João Paulo e o atual, João da Costa (também do PT), estão comprometidos agora com seu término. A um custo estimado de R$ 29 milhões. Pode ser mais, já que houve interrupções por cálculos aparentemente subestimados no projeto, como no de um teatro, objeto de um aditivo no contrato.

O valor inclui ainda uma escultura representando Dona Lindu e seus oito filhos. Será batizada de Memorial aos Retirantes.

De qualquer modo, agora a previsão de término da obra é julho.

Na "inauguração" do parque inacabado, no final de 2008, Lula afirmou, ao lado de alguns de seus irmãos: "Se em vez de um busto de uma mulher retirante e seus filhos houvesse aqui um busto de um aristocrata da elite pernambucana, não haveria preconceito nem processos".

Ações e protestos contra o parque de concreto de Niemeyer não se referiam a isso, mas ao fato de uma área verde ter sido transformada em algo inóspito sob o sol pernambucano. Muitos queriam ali, numa área da União, um parque aberto e com sombras.

Na época da presidência de Fernando Collor de Mello (1990-92), caiu em domínio público que a reforma dos jardins da Casa da Dinda teria custado cerca de R$ 4,5 milhões, pagos pelo esquema PC Farias.

A mansão "collorida" em Brasília havia sido comprada por Arnon Afonso de Farias Melo, em 1964. Recebeu o novo nome, Casa da Dinda, em homenagem à avó de Dona Leda Collor, mãe do ex-presidente e mulher de Arnon, então senador. Ou seja, era um bem privado reformado com recursos escusos.

O caso de Lula (e da homenagem à mãe) é totalmente diferente. Afinal, o dinheiro é público.


(Fernando Canzian, 42 anos, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006 e é autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha Online.)